Há homens que passam horas no ginásio e continuam a olhar para o próprio corpo como se nunca tivessem músculo suficiente. Com o passar do tempo, aumentam a exigência dos treinos, impõem regras à alimentação e abdicam de encontros com amigos para não falhar uma sessão. Pode parecer dedicação, mas, na verdade, tem outro nome e é uma doença: vigorexia.
“Este é o nome mais conhecido da dismorfia muscular, uma forma de perturbação dismórfica corporal”, explica o psiquiatra Ricardo Soares Nogueira, à NiT.
Nestes casos, o paciente vive obcecado com a ideia de ter um corpo demasiado pequeno ou pouco musculado, mesmo quando já tem uma musculatura desenvolvida. “Essa preocupação ocupa muito espaço no pensamento e pode condicionar a alimentação, o exercício, as relações e a vida profissional.”
O problema não está em querer ganhar músculo ou em gostar de treinar, mas na forma como essa preocupação interfere com o quotidiano. No fundo, “a procura de um determinado corpo passa a impor regras que a pessoa sente grande dificuldade em contrariar”, acrescenta o especialista.
A dismorfia muscular não tem uma causa única conhecida. A investigação aponta para uma combinação de vulnerabilidades e fatores sociais, entre eles o perfeccionismo, a pressão para corresponder a determinados padrões físicos e experiências de bullying relacionadas com o corpo.
Ter passado por estas situações não significa que venha a desenvolver vigorexia. No entanto, tudo se torna mais complexo quando o exercício físico começa a ter demasiada importância na nossa vida.
“O treino proporciona autoestima, alívio emocional e uma sensação de controlo. Progressivamente, faltar ou ter um treino considerado insuficiente pode provocar grande mal-estar.”
Além da preocupação persistente com a ideia de não ter músculos desenvolvidos, os principais sinais incluem passar demasiado tempo em frente do espelho, medir partes do corpo ou comparar a própria aparência com a de outras pessoas. Os sintomas podem ser, então, muitos semelhantes aos da anorexia, doença em que as pessoas se veem mais gordas do que o que realmente são.
A insatisfação também se poderá depois de atingir objetivos físicos. Afinal, cada meta alcançada pode dar lugar a uma nova exigência. A alimentação pode seguir o mesmo padrão, com regras rígidas relacionadas com calorias, proteínas ou horários. Em alguns casos, a pessoa começa a evitar situações em que tenha de mostrar o corpo, como ir à praia ou ter relações sexuais, por vergonha da própria aparência.
A preocupação pode chegar ao ponto de interferir com a vida social e profissional. Recusar refeições em família, faltar a convívios ou abdicar de compromissos para cumprir um plano de treino ou uma dieta são comportamentos que merecem atenção. Ansiedade, depressão e alterações do comportamento alimentar também podem surgir associadas à dismorfia muscular.
Com o passar do tempo, as redes sociais passaram a ter um papel de destaque no desenvolvimento desta doença. A exposição repetida a imagens de corpos muito musculados, conteúdos sobre suplementos e substâncias para aumentar a massa muscular podem contribuir para alimentar a insatisfação corporal.
“O conteúdo que vemos parece, portanto, merecer tanta atenção como o tempo que passamos a vê-lo.” No entanto, a relação entre ambos ainda não foi comprovada cientificamente.
Há sinais que podem ajudar a perceber quando a relação com o exercício deixou de ser equilibrada. Um dos truques passa por avaliar a capacidade de adaptar as rotinas. “Consigo alterar um treino sem sentir culpa ou ansiedade intensa?” Esta é uma das questões que podem ajudar a identificar uma relação problemática com os treinos.
Continuar a ir ao ginásio quando se está doente por receio de perder resultados, sentir que o desempenho no treino determina o estado de espírito ou perceber que a identidade está cada vez mais ligada à musculatura são outros sinais a ter em conta. “Mesmo quem programa dias de descanso pode ter uma relação muito rígida e angustiante com o exercício”, alerta o psiquiatra.
Quem está próximo também pode reparar em mudanças. Um filho, parceiro ou amigo pode começar a recusar refeições em família, abandonar convívios para cumprir a dieta ou o treino, verificar a aparência de forma repetida ou evitar situações em que tenha de mostrar o corpo. A insatisfação persistente, mesmo depois de mudanças físicas visíveis, é outro sinal que merece atenção.
“A família pode ser parte da ajuda, sinalizando a preocupação e a necessidade de procurar ajuda médica, sem assumir o papel de diagnosticar ou tratar.”
O primeiro passo será realizar uma avaliação psiquiátrica que permita perceber o que está a acontecer e estabelecer um diagnóstico. Existe tratamento e, segundo o especialista, este deve ter uma abordagem multidisciplinar. A terapia cognitivo-comportamental é uma das intervenções que apresentam resultados promissores, com trabalho dirigido às crenças relacionadas com a musculatura, aos comportamentos compulsivos e à dificuldade em flexibilizar a relação com o exercício e a alimentação.
A intervenção pode incluir outras áreas, de acordo com as necessidades de cada pessoa. Em alguns casos, o psiquiatra pode considerar medicação, nomeadamente antidepressivos.
“Consoante as necessidades, o acompanhamento pode incluir avaliação médica do consumo de substâncias, apoio nutricional e participação da família. O objetivo é recuperar saúde e liberdade para que o corpo, a alimentação e o treino deixem de dominar a vida”, conclui Ricardo Soares Nogueira.








