Saúde

Tudo o que já sabemos sobre a nova (e mais contagiosa) estirpe de Covid-19

É 70 por cento mais contagiosa, não parece ser mais letal e pode mudar a forma como olhamos para as vacinas.
Nem tudo são más notícias

A mais recente estirpe da doença transformou-se numa notícia verdadeiramente alarmante. Esta não é, no entanto, a primeira mutação do SARS-CoV-2, o vírus que provoca a Covid-19. Desde o seu aparecimento, algures no final de 2019, que os investigadores detetaram várias mutações. Esta é, contudo, a mais preocupante.

A 15 de dezembro, o ministro da Saúde do Reino Unido, Matt Hancock, revelava publicamente a descoberta de uma nova variante do vírus no país, a VUI-202012/01. Apesar de avançar que as observações não sugeriam que esta seja mais letal do que a anterior, o que é um facto é que ainda é demasiado cedo para tirar todas as conclusões.

Os mais de mil casos registados no sul de Inglaterra associados a esta variante confirmaram, assim, que estamos perante um facto que pode mudar o rumo da luta contra a pandemia. Nada disto é uma surpresa: o vírus está simplesmente a comportar-se como um vírus, que tende para se ir transformando à medida que passa de hóspede para hóspede. Na maioria das vezes, as mutações são pequenas e inconsequentes, mas nem sempre é assim.

Ao longo das últimas semanas, investigadores têm analisado a nova estirpe em laboratório e mais estudos serão necessários para perceber não só como é que os anticorpos reagem ao novo vírus mas também de que forma é que esta mutação poderá influenciar a eficácia das vacinas.

Ainda que esta notícia deva preocupar toda a gente, é certo que no último ano, foram registadas diversas mutações e variantes, como a que em novembro obrigou o governo dinamarquês a abater milhões de martas. Mais cedo, em março, cientistas revelaram que o vírus se tinha subdividido em duas linhagens, a L e a S, sendo esta úiltima menos infecciosa. A L, mais contagiosa, foi responsável por 70 por cento dos casos na primavera.

Como é que isto aconteceu?

O comportamento do vírus é constantemente analisado em laboratório, através de análises genéticas, de forma a criar um mapa da evolução da doença, do seu potencial de transmissão e também da severidade.

A variante VUI202012/01 revelou um conjunto de mutações, nomeadamente na proteína recetora que permite ao vírus ligar-se às células humanas. É sobre esta alteração que incidem as atenções dos investigadores, até porque uma alteração dramática no seu formato pode dificultar a atuação do sistema imunitário e igualmente das vacinas.

Uma mudança que torne mais fácil a sua acoplagem às células humanas pode traduzir-se numa maior facilidade de infeção e, portanto, num aumento do contágio. Parece ser precisamente isso que está a acontecer.

A nova mutação tornou-se rapidamente na estirpe dominante nas zonas mais afetadas de Inglaterra, onde foi registado um aumento súbito de hospitalizações.

Detetada pela primeira vez em setembro, a 9 de dezembro representava já 62 por cento dos casos novos em Londres. A mutação foi também detetada em países como Itália, Holanda e Austrália. Na África do Sul, 80 a 90 por cento dos casos analisados desde meados de novembro pertencem a esta variante.

Afinal, o que muda na doença?

As 23 mudanças no código genético do SARS-CoV-2 são significativas e, segundo cálculos dos investigadores britânicos, é 40 a 70 por cento mais contagiosa do que a estirpe anterior. Apesar da maior transmissibilidade, parece que pouco ou nada mudou na severidade da doença, que não se traduz numa maior letalidade.

No que toca aos sintomas, parecem ser exatamente os mesmos da estirpe que afetou o mundo nos últimos meses.

“Se esta nova variante tivesse um impacto enorme na severidade da doença, já o teríamos detetado por esta altura”, revela ao “The Guardian” Ewan Birney, diretor do Laboratório Europeu de Biologia Molecular. 

“Os casos de internamento hospitalar em proporção ao número de infetados teria disparado ou descido dramaticamente. Nenhum desses casos se verificou, o que nos leva a concluir que o impacto no número de casos graves é modesto”, conclui.

As vacinas continuam a ser eficazes?

Por enquanto, a opinião generalizada dos especialistas é a de que sim. No que toca à vacina da Pfizer, já aprovada para distribuição e administração na União Europeia, prevê-se que continue a ser capaz de criar anticorpos que protejam contra esta e outras estirpes detetadas.

“Não observamos quaisquer mutações relevantes na proteína recetora que possam reduzir a eficácia da vacina”, revela Julian Tang, professor e virologista da Universidade de Leicester à “Al Jazeera”.

A maioria das vacinas, aprovadas e por aprovar, têm como alvo esta proteína recetora. Uma mudança drástica poderia comprometer a sua eficácia.

“Isto acontece anualmente com o vírus da gripe e é por isso que temos de mudar a vacina todos os anos. Será de esperar que a vacina continue a ser razoavelmente eficaz porque a eficácia está hoje nos 95 por cento. Mesmo que baixe uns pontos, ainda será suficientemente boa”, revelou Calum Semple, professor da Universidade de Liverpool ao “The Telegraph”.

O especialista deixa também uma visão otimista caso o pior cenário se confirme: “As novas vacinas são como emails que enviamos para o sistema imunitário e são muito fáceis de ajustar. Se percebermos que o tal mecanismo de ligação mudou, só temos que editar o email, mudar uma ou duas palavras, e a vacina estará pronta em seis a oito semanas, capaz de se focar de forma competente na nova variante”.

Devemos estar preocupados?

Sim e não. Uma maior transmissibilidade poderá obrigar a maiores restrições e a ainda mais cuidados para evitar o contágio, particularmente numa fase em que a vacinação está a dar os primeiros passos. Nesse sentido, é necessário estar ainda mais alerta.

Por outro lado, as mutações e variantes são obstáculos que estavam já nos planos de investigadores e autoridades de saúde. Os vírus transformam-se com o tempo e contra isso, nada há a fazer.

“O surgimento de diferentes estirpes do coronavírus um ano depois de ter saltado para os seres humanos não é motivo para entrar em pânico (…) Este vírus tem sofrido mutações de forma mais lenta do que a gripe e, embora tenhamos que o ter sob vigilância, não será assim tão trabalhoso atualizar as vacinas quando isso for necessário”, frisa Zania Stamataki, virologista da Universidade de Birmingham ao “The Telegraph”.

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