Saúde

Vírus da varíola do macaco sofreu 10 vezes mais mutações do que o normal

Investigadores explicam que é improvável que seja coincidência e avançam que o Monkeypox deve ter sido alterado por uma enzima.
O vírus já infetou 143 pessoas em Portugal.

O Monkeypox já infetou, pelo menos, 143 pessoas em Portugal. O vírus da varíola dos macacos que está em circulação e é responsável pelos casos no País sofreu mutações dez vezes acima do que seria habitual nos últimos quatro anos. Estes são os resultados sugeridos pelas sequenciações genéticas que começaram a ser realizadas em 2018.

A família dos poxvírus tem uma taxa evolutiva baixa e costuma sofrer, em média, uma mutação genética por ano. Porém, as sequenciações realizadas nos últimos surtos apontam para a existência de mais de 40 mutações do que os genomas destes agentes virais recolhidos há quatro anos, partilhou no Twitter o biólogo Richard Neher, especialista em biologia evolutiva e computacional da Universidade de Basileia, na Suíça. Ou seja, pode concluir-se que o vírus sofreu uma média de 10 alterações genéticas por ano.

Os estudo realizados na área revelam que as mutações parecem obedecer a um padrão, que acontecem nas moléculas que contêm a informação genética do vírus. A adenina (A), citosina (C), guanina (G) e timina (T), normalmente, combinam-se aos pares: a adenina liga-se à timina e a citosina à guanina. No genoma dos vírus que estão a provocar os surtos mais recentes, as mutações estão quase sempre a substituir uma ligação “GA” por uma “AA”; ou uma “TC” por uma “TT”.

Geralmente, isto acontece de forma aleatória quando um vírus se replica. No entanto, de acordo com Cornelius Roemer, médico e bioinformático especialista em evolução genética viral na Universidade de Basileia: “É muito improvável que estas mudanças estejam a acontecer apenas devido ao acaso. Algo mais deve estar a acontecer”.

Roemer sublinhou ainda: “Uma enzima das células animais, cuja função será mutar moléculas genéticas invasoras para o tornar inviável, pode estar a alterar o ADN do vírus”. Isso demora algum tempo a acontecer, acrescenta o biólogo Richard Neher, mas, pelo caminho, estas mutações vão alterando o genoma dos vírus — tornam-se uma espécie de cicatrizes do combate dos hospedeiros contra o vírus.

“A enzima responsável por essas alterações será a APOBEC”, acrescentou o cientista Roberto Pereira. Esta é uma molécula que ajuda os mamíferos a protegerem-se de infeções virais, mas que, quando está desregulada, pode contribuir para o surgimento de cancros.

Por enquanto, esta é apenas uma possível explicação para o percurso evolutivo do vírus da varíola dos macacos que já infetou 780 pessoas em todo o mundo. Ainda não se sabe que funções terão as mutações encontradas, mas “a maioria não deve ser prejudicial para a saúde humana”, destaca Richard Neher. 

Isto pode ajudar a justificar as manifestações do vírus. Em Portugal, até ao momento, não se registaram casos graves. Apenas três pessoas tiveram de ser hospitalizadas. Uma delas ainda está internada, mas apenas para controlo dos sintomas e alguma dor relacionada com as lesões provocadas pela infeção.

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