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Edifícios abandonados: a história do impressionante hotel esquecido na Foz da Sertã

Fica mesmo ao lado da albufeira de Castelo do Bode e está esquecido desde 1974. Dizem que a degradação do espaço levou o proprietário ao suicídio.
Foto de Maria Serra e Moura/Lugares Abandonados

“Aquilo era uma coisa em grande, o hotel estava que era um mimo. Depois do 25 de abril foi ocupado pelos que vieram de África, que arrebentaram com aquilo tudo. O dono teve um desgosto tão grande que se suicidou.”

As palavras são alegadamente do proprietário da hospedaria Luanda, em Tomar, em 2002, e foram reproduzidas pelo Instituto de Ciências Sociais. São um dos poucos registos que restam do Hotel da Foz da Sertã, um empreendimento de luxo esquecido em Cernache do Bonjardim, junto ao rio Zêzere. No entanto, ninguém sabe ao certo se a história é mesmo assim. Mais de 40 anos depois do hotel ser pilhado e deixado ao abandono, as poucas informações que restam sobre este espaço confundem os mitos com a realidade.

Vamos começar pelos factos. Antes da construção do hotel, já existia naquela zona, desde 1894, a Casa da Água da Foz da Sertã. Este pequeno espaço servia de fábrica de engarrafamento da Água da Foz da Sertã, uma água termal utilizada no tratamento de problemas de digestão, infeções, diarreias, problemas gastrointestinais e diabetes. Perante o potencial da exploração de águas medicinais, e à localização privilegiada sobre o rio Zêzere, o empresário Júlio Martins decidiu abrir um hotel nesta zona, mas nos terrenos mesmo em cima do rio.

Os poucos registos que existem sobre o Hotel da Foz da Sertã parecem ser unânimes neste ponto: Júlio Martins conseguiu juntar dinheiro negociando terrenos junto ao rio Zêzere. Em 1951, a construção da Barragem de Castelo do Bode inundou muitas dessas propriedades, o que valeu boas indemnizações ao empresário. Com o que ganhou, Martins construiu o primeiro hotel da Sertã.

Um pouco mais complicado é saber em que ano foi inaugurado o espaço — há quem diga que foi logo em 1951, há quem aponte a chegada dos primeiros hóspedes para 1959. Seja como for, esta foi uma obra igual a nenhuma outra.

Dizem que a culpa foi dos retornados das ex-colónias do Ultramar, que chegaram ao hotel e roubaram e pilharam tudo o que encontraram

O Hotel Foz da Sertã tinha quatro pisos: no primeiro ficavam as garagens, sala de refeições e um salão que servia de bar/café; no segundo o restaurante e cozinhas, receção e um corredor de quartos, todos com casa de banho privativa. No terceiro e quarto piso ficavam as restantes habitações, que perfaziam um total de 44 quartos e vários apartamentos.

Continuava. Na margem da albufeira ainda é visível a estrutura de uma espaço para eventos, bem como o cais para as embarcações de recreio. Mesmo ao lado da albufeira de Castelo de Bode ficava ainda a piscina e, um pouco mais longe, o edifício Águas da Foz da Sertã – Posto de Venda e Informações.

O Hotel Foz da Sertã recebeu hóspedes durante os anos 60 e 70. Após o 25 de abril de 1974, porém, entrou em rápida degradação. Dizem que a culpa foi dos retornados das ex-colónias do Ultramar, que chegaram ao hotel e roubaram e pilharam tudo o que encontraram. Não sabemos se a história está a ser injusta com eles ou se foi de facto o que aconteceu, no entanto independentemente do culpado, o hotel foi mesmo destruído. Mais de 40 anos depois, não sobrou nada para além das estruturas dos edifícios. Lá dentro, até as banheiras foram roubadas.

Maria Serra e Moura é uma entre os 14 administradores do grupo de Facebook Lugares Abandonados, onde todos os dias dezenas de fotógrafos e curiosos partilham as suas imagens sobre locais incríveis que ficaram esquecidos. À NiT, Maria Serra e Moura cedeu as suas fotografias do Hotel Foz da Sertã, tiradas no ano passado. Em agosto de 2014, nós também estivemos lá.

Recorde os artigos sobre o Palácio da Comenda, o Aquaparque e o Restaurante Panorâmico de Monsanto.

São essas imagens que lhe mostramos agora. Carregue na foto acima para saber mais sobre o Hotel Foz da Sertã.

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