Na cidade

Edifícios abandonados: o palácio que ficou esquecido depois do divórcio da D. Chica

O Palácio de D. Chica fica em Palmeira, Braga, e era o sonho de Francisca Peixoto de Sousa — apesar de nunca ter chegado a lá viver.
Foto de Paulo Santos/Pr0j3ct URBEX

Era o sonho de Francisca Peixoto de Sousa. A D. Chica queria fazer daquele palácio o seu lar: organizar festas, receber amigos, quem sabe ver crescer ali os filhos que ainda não tinha. Mal sabia ela que isso nunca chegaria a acontecer. Depois de quatro anos de obras, que começaram em 1915, Francisca divorciou-se do marido e mudou-se para o Porto. Nunca voltaria a entrar no seu palácio. Durante décadas, o Palácio Rego, mais conhecido por Palácio de D. Chica, foi passando de mão em mão, mas ninguém conseguia fazer nada com aquilo. Ainda chegou a ser adaptado a espaço de lazer, mas o processo terminou em tribunal.

22 anos depois, o sonho da D. Chica permanece esquecido em Palmeira, Braga. Há lixo no chão, vidros partidos, rachas na parede. Ainda assim, o local ainda não foi vandalizado — se calhar porque temem ver o espírito de Francisca Peixoto de Sousa, vestida de branco no cimo das escadas.

Francisca Peixoto de Sousa gostava de luxos. De festas. De mostrar que tinha dinheiro. Não era má pessoa: também gostava de ajudar. Mas era apreciadora da boas coisas que o dinheiro lhe permitia comprar. Natural de São Paulo, no Brasil, a mulher herdou uma fortuna considerável do pai, nascido em Palmeira — e não tinha problemas nenhum em gastá-lo. Depois da morte do pai, em 1913, Francisca, mudou-se para Portugal com o marido, João Rego.

Tinha casado com apenas 17 anos. Foi um casamento de conveniência, promovido pelos pais. O marido era rico, filho de um médico conceituado e de um influente político monárquico. A melhor parte: João Rego tinha sangue brasileiro pelo lado da mãe e português do lado do pai.

Quando chegaram a Portugal, o casal mudou-se para Palmeira, em Braga, onde João Rego tinha nascido. Mudaram-se para a residência dos Peixoto do Rego, na atual Rua do Carregal, mas já nessa altura pensavam em construir um palácio de sonho.

Francisca Peixoto de Sousa queria ter uma casa luxuosa onde dar festas fabulosas, dignas de um aristocrata. O marido fez-lhe a vontade e comprou um terreno com cerca de três hectares perto da Igreja Paroquial de Palmeira. O edifício foi projetado pelo arquiteto suíço Ernesto Korrodi e, tal como ela esperava, foi uma construção imponente.

Do Brasil, Francisca Peixoto de Sousa mandou vir muitas árvores tropicais que plantou nos campos em volta da casa. Na altura, a mulher sonhava com o dia em que entraria finalmente naquele palácio e o chamaria de casa. Infelizmente, apesar de todos os preparativos, planeamentos e sonhos, Francisca Peixoto de Sousa nunca chegaria a viver naquela casa.

Ainda assim, Francisca tinha a vida luxuosa que sempre quis. Possuía quatro carros sumptuosos, três motoristas e fazia passeios pela Europa com regularidade. Numa altura em que a sociedade portuguesa era extremamente conservadora, ela vestia roupas ousadas, usava jóias caras e atraía olhares de desejo dos homens e de inveja das mulheres. Apesar de tudo, o povo gostava dela: tal como o pai, Francisca gostava de ajudar os mais desfavorecidos, tendo inclusivamente chegado a alojar em casa crianças que passavam fome.

Só lhe faltava concretizar um sonho: ver aquele palácio concluído. Infelizmente, porém, isso nunca chegou a acontecer. Francisca e João discutiam cada vez mais, sobretudo por causa da personalidade da mulher. O facto do povo lhe ter arranjado vários casos amorosos também não ajudou. O divórcio acabou por ser o único desfecho possível. Em 1919, as obras pararam.

Francisca e João discutiam cada vez mais, muito pelo feitio dela. O facto do povo lhe ter arranjado vários casos amorosos também não ajudou

Depois do divórcio, Francisca foi viver para o Porto. Voltou a casar, teve um filho, divorciou-se outra vez e mudou-se para Paris. Voltaria a ter um terceiro casamento, mas do palácio nunca mais quis saber. Ainda assim, na altura correram rumores de que teria lançado uma maldição sobre o palácio: nunca mais ninguém voltaria a viver ali. Quem se atrevesse a entrar, sairia a correr depois de a ver aparecer de branco no cimo da escadaria do palácio.

Ao longo das décadas, o palácio mudou de dono várias vezes. Houve muitos projetos e obras, com o objetivo de concluir os trabalhos no interior do Palácio de D. Chica. Em 1985 foi classificado de Imóvel de Interesse Público, em 1990 foi adquirido pela Junta de Freguesia de Palmeira por 95 mil euros.

A julgar pelo que aconteceu a seguir, se calhar a D. Chica amaldiçoou mesmo o palácio. Nesse mesmo ano, a autarquia arrendou o palácio por contrato à IPALTUR. A empresa de turismo adaptou o imóvel a uma zona de lazer, com direito a restaurante, bar, discoteca e salas de reuniões e de congressos. Quatro anos depois, a empresa entrou em falência e cerca de 20 credores ficaram com dinheiro por receber. O processo acabou por ficar resolvido em 2003, mas durante todos esses anos o palácio ficou abandonado.

E continuou assim. Em 2010 o Palácio de D. Chica foi comprado por um empresário do ramo imobiliário. Dizia-se que queria restaurar o edifício, e abrir ali um espaço para realizar casamentos, festas e jantares. O projeto nunca foi para a frente. 22 anos depois, o palácio de Francisca Peixoto de Sousa continua abandonado.

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Carregue na imagem acima para ver as fotografias do abandonado Palácio da D. Chica. As imagens foram tiradas por Paulo Santos, um dos administradores da página Lugares Abandonados e autor da página Pr0j3ct URBEX.

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