Na cidade

Como a aldeia de Monsanto conseguiu conquistar os produtores de “A Guerra dos Tronos”

A aldeia mais portuguesa de Portugal deverá ser um dos cenários da prequela da série. A NiT explica-lhe as razões que justificam a escolha.
Há dúvidas? (imagem de @vanessaclfrancisco partilhada no Instagram).

“Espreita do alto do seu singular encanto, a aldeia histórica de Monsanto”. A rima, crê-se que antiga. pode ler-se na página das Aldeias Históricas de Portugal, e em várias de muitas publicações que esta plataforma dedica regularmente aquela que é, oficialmente, a aldeia mais portuguesa de Portugal. 

Em Idanha-a-Nova. na Beira Baixa, no interior profundo do nosso País, fica esta verdadeira aldeia-monumento que parece parada no tempo, ou em vários tempos. É feita de pedras e de histórias antigas, que remontam ao Paleolítico e ao reinado de D. Afonso Henriques, o responsável por reconquistar Monsanto aos Mouros, em 1165.

Entre as casas típicas, as pedras, as ruas, a natureza, a calma, o silêncio, Monsanto não é apenas um dos locais mais únicos de Portugal: é um dos sítios mais singulares em todo o mundo. 

Na passada semana, chegou a grande notícia. Soube-se que a nova série do universo de “A Guerra dos Tronos” poderá ser parcialmente rodada nesta aldeia histórica do nosso País. À NiT, a Câmara Municipal de Idanha-a-Nova confirmou que “está em contacto com a produtora”, mas remeteu mais informações para um momento oportuno.

Desta forma, tudo indica que a prequela “House of the Dragon”, com data prevista de estreia em 2022, pode mesmo passar por Portugal depois de ter criado verdadeiros fenómenos de culto e de romarias turísticas em todos os locais por onde andou: da Islândia, à Croácia e partes de Espanha.

Segundo adiantou o “Jornal do Fundão”, já houve uma visita técnica no mês de junho por parte do departamento de locais, dos produtores e de um dos realizadores da série. A equipa internacional terá ficado hospedada no Hotel Fonte Santa, nas Termas de Monfortinho, e o castelo de Monsanto foi uma das maiores atrações para quererem fazer ali aquela produção de fantasia de inspiração medieval.

Este meio diz ainda que haverá novas visitas, em conjunto com o presidente da Câmara Municipal da Idanha-a-Nova, Armindo Jacinto, e o presidente da Junta de Freguesia de Monsanto, Paulo Paiva Monteiro, para começar os preparativos logísticos. Se se confirmar, serão centenas de pessoas que estarão a trabalhar no local.

As gravações de “House of the Dragon” arrancam em outubro em Espanha e a história baseia-se no livro “Fire & Blood”, de George R. R. Martin, centrando-se na família Targaryen — 300 anos antes dos acontecimentos a que todos assistimos na série mãe.

Para quem conhece Monsanto, a dúvida ao saber de toda esta informação não é “como terá sido escolhida?”. Mas sim: “como não?”. Se não conhece, a NiT explica-lhe o que terá inspirado os produtores, embora não seja segredo: a aldeia histórica é toda ela mística, cenários naturais e antigos preservados no tempo, paisagens arrebatadoras, casas construída nas pedras, que se confundem com elas.

Em Monsanto, costuma aliás dizer-se que nunca se sabe bem se a casa nasceu da pedra ou se foi a pedra que nasceu para a casa. Tudo isto disposto numa subida e no topo de uma elevação com 758 metros de altitude, com praticamente mais nada em seu redor.

Aqui, tudo — desde o Castelo à sua Capela de São Miguel, a Capela de São Pedro de Vir-a-Corça aos blocos graníticos, o miradouro da Praça dos Canhões à Necrópole de São Miguel, passando pelas estradas feitas de pedra —, tudo são potenciais cenários de cortar a respiração.

Com vestígios que datam do Paleolítico, mas que acumulam referências ainda que não muito estudadas de várias fases e passagens do tempo, Monsanto foi então doada pelo primeiro Rei de Portugal, após a sua conquista, à Ordem dos Templários. Foram os seus responsáveis que construíram o castelo, com uma cerca com uma torre de menagem. Este castelo é Monumento Nacional desde 1948, pela sua arquitetura militar do período medieval.

O castelo fica fica no ponto mais alto de Monsanto, podendo lá chegar por caminhos de pedras, conseguindo uma vez lá espreitar ruínas (da Torre de Menagem, da Capela de Nossa Senhora do Castelo, entre outras) e vistas incríveis. Já imagina um enredo saído do imaginário de “Guerra dos Tronos” a ser rodado aqui?

Mas há mais. Segundo a página do Turismo do Centro, aquela que é uma das doze Aldeias Históricas do País ganhou, ao ser apelidada de “aldeia mais portuguesa de Portugal”, um histórico Galo de Prata que se encontra no alto da sua torre sineira, a Torre de Lucano. A distinção e o prémio surgiram em 1938, num concurso lançado em pleno Estado Novo.

Antes disso e ao longo dos tempos, por aqui passaram e deixaram vestígios romanos, visigodos, e os árabes, aos quais D. Afonso Henriques conquistou a aldeia. Para dar mais mística, há até uma gruta, no caminho para o castelo, que pode ser visitada. 

O escritor Fernando Namora viveu aqui e, destaca o Turismo de Portugal, há ainda muito mais para ver, como a Igreja da Misericórdia e a Igreja Matriz, dedicada a São Salvador com altares em talha dourada dos séculos XVII-XVIII, ou o Solar do Marquês da Graciosa, onde fica o posto de turismo.

 

Aqui, o artesanato local inclui latoaria, instrumentos musicais, adufeiras e marafonas e ainda hoje há feiras, romarias e o mercado, que animam a aldeia em diferentes épocas do ano.

De acordo com a plataforma oficial “Aldeias Históricas de Portugal“, Monsanto é uma experiência peculiar para quem a visita. Além de todos os pontos de interesse, a aldeia vai-se erguendo ao longo da encosta de uma elevação escarpada, o cabeço de Monsanto (Mons Sanctus), até chegar ao ponto mais alto, o dos 758 metros.

“Pelas várias vertentes da encosta e no sopé do monte, existem lugarejos dispersos, atestando a deslocação populacional em direção à planície” escreve-se nesta página que funciona também como um guia turístico extremamente útil: aqui, em Monsanto como em relação às restantes aldeias com esta classificação, encontra o que ver, onde dormir e onde comer, de forma extremamente simplificada. Ficará o elenco da série baseada nos escritos de  George R. R. Martin, a confirmar-se a notícia, hospedado na Taverna Lusitana ou na Casa Pires Mateus? O tempo o dirá.

Certo é que, ainda antes de Monsanto ter despertado a atenção dos produtores desta série, já tinha por diversas vezes sido notada pelos meios internacionais mais atentos. Em 2018, como a NiT noticiava, depois de ter sido descrita pela “BBC” como uma das aldeias “mais invulgares” de Portugal, a cadeia de notícias britânica voltava a dedicar uma reportagem com várias imagens e vídeos da região, onde exaltava a beleza natural das casas feitas com “gigantescos pedregulhos de granito” ou o facto de os habitantes se terem adaptado “ao seu ambiente invulgar, ao construírem as suas casas debaixo, em cima ou entre gigantes penedos graníticos.”

A reportagem, assinada por Lidija Pisker e Carlos Pinota, referia ainda algumas das tradições mais salientes de Monsanto, que se mantêm vivas geração após geração, como os tocadores de adufe, um instrumento musical de percussão, ou o facto de ainda existirem “várias senhoras mais velhas em Monsanto [que] ainda criam e vendem as marafonas”, bonecas de trapos sem rosto nem cabelo, muito típicas em aldeias da Beira Baixa.

Para os habitantes da região, e tal como contaram aos jornalistas da “BBC”, a modernização não é algo que assuste os monsantenses, pelo contrário, existe até alguma vontade de se adaptarem aos tempos modernos, e algumas casas até já têm acesso à internet.

“Já não vivemos na idade da Pedra”, explicava então Maria Amélia Fonseca. “Não queremos mudar a nossa aldeia, mas queremos aproveitar as conveniências dos tempos modernos”, diziam os residentes locais. Será que estarão preparados para o fenómeno “A Guerra dos Tronos”? É que, como têm noticiado amplamente em vários meios internacionais ao longo dos últimos anos, esta série de televisão teve um dos impactos mais profundos da história da cultura moderna sobre o turismo.

Desde que o programa foi ao ar pela primeira vez em 2011, cada um de seus principais locais de filmagem. como Islândia, Irlanda do Norte e Croácia, testemunharam um aumento acentuado nas visitas, com o “efeito ‘A Guerra dos Tronos’” a ser considerado o responsável direto. Turismo e economia tiveram aumentos imediatos e mais: duradouros. Resta saber como viverá a aldeia mais portuguesa do País esta internacionalização à escala planetária, se e quando ela chegar pelos contos e imagens idealizados por George R. R. Martin.

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