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Ana Moniz: no bullying infantil “o caminho começa sempre pelos adultos”

"Este livro não é para fracos" é sobre a coragem em todos os campos. A psicóloga explica à NiT a sua importância na educação.
A autora do livro.

É um facto incontornável: este mundo não é para fracos. E por isso, este livro também não. A nova obra da psicóloga e psicoterapeuta portuguesa Ana Moniz é sobre coragem. No trabalho, nas escolas, na educação e na vida.

“Este livro não é para fracos”, da editora Planeta, dá conselhos práticos aos pais para educarem crianças corajosas e assertivas, assim como aborda a questão do bullying nas escolas. O objetivo da obra é mostrar como é possível ganhar, em todas os os campos, bem estar através da autoanálise e de uma mudança de atitude perante as situações que se colocam diante de nós — sobretudo afastando o medo e a vergonha da nossa forma de agir.

O livro pretende dar ferramentas simples para encontrar e escolher coragem e é não só útil para a população adulta como também dá pistas, capítulo a capítulo, sobre a educação para a coragem das crianças, o que pode ajudar a evitar situações como o bullying nas escolas. 

A NiT falou com a psicóloga e terapeuta obre esta obra que tem como mensagem de fundo “viver já não é fácil quanto mais viver agindo com coragem”. Não é fácil, mas é importante e os resultados são notórios. Conheça em linhas gerais como pode encarar os medos — porque eles estão lá, “ou não estaríamos vivos” — e educar a viver da mesma maneira. Os “pais helicóptero”, os pais “limpa neve”, as reações em casos de bullyijng, as ideias e ferramentas de uma profissional que, também ela cresceu com traços de medo e de vergonha, estão aqui.

Trabalha como psicoterapeuta de adolescentes e adultos. Há quanto tempo?
Trabalho há cerca de 19 anos como psicoterapeuta e há 16 como formadora e executive coach em Empresas e Organizações Públicas.

Em que ponto pensou em escrever este livro? Foi motivado por alguma dúvida ou questão recorrente que quis responder?
Por dar também cursos de formação para além da prática clínica, fui percebendo que a assertividade, a gestão de conflitos e saber comunicar em público eram os temas mais procurados. Ao mesmo tempo, a minha atividade de psicoterapeuta levava-me a olhar para estes temas mais aprofundadamente. Apercebi-me que uma grande parte do trabalho que fazia como psicoterapeuta e executive coach acabava por tornar as pessoas mais assertivas. E nessa altura surgiu a ideia de escrever um livro que pudesse ser um ponto de partida para quem quisesse melhorar nesta área e ajudar as suas crianças a melhorarem também. Procurei passar uma mensagem clara, de modo simples mas sem ser simplista nas ideias e nas estratégias apresentadas. E existe também uma razão mais pessoal: desde criança que sempre fui bastante suscetível ao medo e à vergonha. É um tema meu, relativamente ao qual fui progredindo e melhorando tanto na minha capacidade de comunicar como no conforto em fazê-lo. Sou um bom exemplo de que se pode sentir vergonha, medo e simultaneamente comunicar bem e até gostar muito de o fazer. 

O livro ajuda-nos a criar crianças mais corajosas e assertivas. Em resumo, como pais, o que podemos fazer para o conseguir?
Não partilho uma mensagem tão otimista acerca da coragem, agir com coragem é difícil, desconfortável e tem mais riscos. Se olharmos à nossa volta vemos que não há assim tantas pessoas “corajosas”. No livro procuro mostrar os obstáculos ao comportamento corajoso e “como agir” com mais coragem, assertividade e altruísmo, para quem quiser melhorar e, sobretudo com o seu exemplo, ajudar as suas crianças a fazerem-no também. Por isso a resposta é: agindo nós também com mais coragem e integridade, sem assobiar para o lado quando vemos uma situação injusta ou quando alguém precisa de ajuda, sem ficar calado quando temos uma opinião diferente da maioria acerca de um assunto relevante. E depois há estratégias concretas que os pais e educadores podem utilizar. Mas não tenhamos ilusões, sem o nosso exemplo fica a faltar a base. 

Se os próprios pais modernos têm, muitas vezes, medo — do mundo, de doenças, que algo lhes aconteça, stress, etc — como conseguem transmitir coragem aos seus filhos? Até que ponto é importante disfarçarem os seus próprios medos?
Todos temos e sempre tivemos medo, sem medo não estaríamos vivos. Ainda existe algum desconhecimento acerca de emoções como o medo, a tristeza e a raiva. E as mensagens tão em voga do género: “pensar positivo”, “fugir das más energias” ou das “emoções negativas” não têm ajudado. Todas as emoções são positivas no sentido de que nos ajudam a adaptar à nossa realidade. Por isso o objetivo não é “perder o medo”, é aprender a gerir o medo e agir mesmo com medo. Como pais, sentimos que a nossa principal missão é proteger os nossos filhos. Fala-se agora dos “pais helicóptero” e dos pais “limpa neve”, sempre a facilitar a vida dos filhos e a controlar as consequências negativas dos seus comportamentos. Acredito que o nosso papel também é desafiá-los e ajudá-los a tornarem-se pessoas íntegras e justas. O problema do medo, em nós e nas nossas crianças é que se não o aprendermos a gerir também não vamos conseguir sentir aquele bem estar e orgulho que vem de o ter superado. Sobre os medos dos pais, não diria disfarçar, mas sim deixar que as crianças nos vejam a enfrentar o nosso medo. Há, no entanto, situações em que a partilha do nosso medo não vai ajudar a criança, por exemplo, não faz sentido partilhar com uma criança medo de perder o emprego, só lhe iria provocar angústia. Também um pai ou mãe com medo do mar não será a pessoa indicada para ensinar a criança a nadar. É melhor pô-la nas aulas de natação. O que é de evitar é a inconsistência entre o que se diz e o que se faz porque dá à criança a noção de que o modo como se está a fazer algo não é o certo sem ensinar à criança como se faz de outra maneira. 

Aborda a questão do bullying nas escolas. Quão generalizado é este um problema em Portugal?
Conheço os números oficiais e parece-me que a sociedade tem dado um enorme passo no reconhecimento deste problema e tentativas de solução. O bullying ou outros comportamentos de dominação e humilhação fazem parte da natureza humana, em adultos e em crianças. No livro procuro chamar a atenção para este lado cruel e tribal que todos temos. A boa notícia é que também temos um lado compassivo e empático que podemos desenvolver. Os casos que aparecem nas notícias de agressões graves e humilhações cruéis não acontecem de um dia para o outro. Resultam de um escalar em que ninguém interveio. É na base que é preciso atuar, nas interações do dia a dia, entre adultos e crianças, mostrando que quem tem mais poder tem ainda mais obrigação de ser um modelo de cuidado e respeito pelos outros. Digo que o bullying é um assunto de adultos porque é aos adultos, a todos nós, que cabe dar este exemplo e intervir quando tal não está a acontecer entre as crianças. 

Quais são os principais grupos de risco? As faixas etárias em que mais acontece e aquelas em que as crianças estão mais susceptíveis?
Há crianças que pelas suas características ou comportamentos são um alvo preferencial de bullying, o bullying assenta muito na diferença, seja pela rejeição dos pares ou pela inveja que lhes provoca. Esta identificação deve ser feita pelos adultos envolvidos para estarem atentos e agirem, nunca para a estigmatização. Depois há os adolescentes que, pelo grau de violência, costumam receber mais atenção dos media. É na verdadeira aceitação da diferença que se previne o bullying, no desenvolvimento das competências socioafetivas em linguagem de psicologia, que não é mais do que saber gerir as nossas emoções e aceitar e lidar bem com a diferença. Temos muito que andar como sociedade neste campo. Basta ouvir a quantidade de piadas homofóbicas que se fazem nos locais de trabalho ou lazer. O caminho começa sempre pelos adultos. 

Como pode ajudar um pai/mãe que sabe que o seu filho é alvo de bullying?
O melhor conselho será procurar ajuda, envolver os adultos responsáveis dos contextos onde o bullying aparece e nunca desvalorizar. A mensagem dos pais para os filhos é: nós vamos resolver. Aqui é que é para proteger. Um aspeto muito doloroso do bullying e dos abusos físicos ou sexuais que marca as vítimas pela vida fora é terem pedido ajuda e os adultos terem desvalorizado. 

A obra da editora Planeta.

E se o filho não o comentou mas os pais desconfiam? Há sinais que nos podem indicar que o instinto está certo?E como o podemos ajudar a contar?
O à vontade que os filhos terão para contar depende em larga medida do modo como os pais reagiram no passado quando o filho lhes falou de erros que tenha cometido ou de limitações ou vulnerabilidades. O medo de desapontar os pais pode levar as crianças a não pedirem ajuda. Partilhe a sua preocupação com a criança e se necessário envolva outros adultos com os quais a criança possa estar mais à vontade para falar. 

Até que ponto devemos envolver a escola, os pais dos outros miúdos?
Sempre, envolver e responsabilizar. Há algum tempo tive conhecimento de uma escola onde estavam a acontecer casos de bullying, os pais estavam muito empenhados em agir mas o diretor desvalorizava com aquelas frases “isto não é nada”, “eles resolvem”. A minha sugestão foi envolver a PSP (escola segura), o que foi recebido com algum choque pelos pais. A resposta fácil é a resposta corporativista e tribal: os pais culpam os professores, os professores culpam os pais ou então todos juntos culpam a criança que faz bullying ou os pais desta. Esse tipo de atuação não vai resultar. Não se trata de procurar o culpado, trata-se de mudar as regras para que não volte a acontecer e para que se alguma criança agredir ou humilhar outra exista uma intervenção imediata, no fundo não permitir que o agressor e dominador ganhe status à custa destes comportamentos. 

E para os pais que descobrem que os seus filhos são bullies; como podem agir?
No livro digo que em determinado contexto todos podemos ser bullies e alguns de nós nos quais eu me incluo já o fomos. É preciso reprovar o comportamento, promover a empatia e ajudar a assumir a responsabilidade e a reparar o mal que fez. E ir explorando o que terá levado a que tal tivesse acontecido. 

O livro fala da ideia de criarmos crianças que sejam seres humanos íntegros e não tanto aquela mensagem de querer como objetivo que os nossos filhos sejam “Felizes”?
Concordo inteiramente, não tenho essa procura da felicidade ou alegria permanente nem para mim nem para as minhas filhas. O objetivo do livro é promover uma vida com sentido, responsabilidade pelo que fazemos e compaixão por nós e pelos outros. Nada disto é fácil mas se calhar não é para ser fácil, é para valer a pena.

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