Duas horas na floresta, sem brinquedos e apenas com objetos que a natureza oferece. É assim que funcionam as sessões do Crias na Floresta, um projeto português que celebra três anos em setembro e que tem vindo a crescer cada vez mais.
Com raízes nórdicas, o projeto nasceu pelas mãos de Marta Oliveira, de 28 anos, e Pedro Pita, de 29. Foi o casamento perfeito: ela já tinha experiência como educadora de infância e ele tinha formações na área do ambiente.
“Enquanto profissional de educação, nunca me senti totalmente alinhada com o modelo educativo”, confessa Marta à NiT. “Isso sempre mexeu muito comigo e nunca me foi fácil pensar que grande parte da infância acontece entre quatro paredes, quando temos cá fora um mundo inteiro, vivo, complexo e impossível de reproduzir dentro de uma sala”.
O projeto nasceu com base no conceito nórdico de Forest School, ou seja, um modelo pedagógico ao ar livre onde a natureza funciona como sala de aula. No caso do projeto português, destina-se a bebés entre os seis meses e os quatro anos.
O Crias na Floresta tem dias fixos para as sessões: todas as segundas-feiras (das 10 horas até ao meio-dia), quartas-feiras (das 10 horas até ao meio-dia ou das 15 às 17 horas); e aos sábados e domingos (das 15 às 17 horas).
Ao longo deste período, os mais novos têm obrigatoriamente de ser acompanhados por um responsável. Não há atividades planeadas, tudo acontece de forma natural, com os objetos que encontram pelo caminho, como folhas, galhos e até lama.
“Queremos que as crianças olhem primeiro para uma árvore, que reparem nela e que tenham curiosidade. Depois, que criem uma relação porque isto é muito diferente”, sublinha. “É muito diferente saber o nome de uma árvore e outra coisa é olhar para ela e sentir que faz parte do nosso mundo e que somos natureza.”
Este exercício acaba por ajudar os mais novos a estarem “mais conscientes de tudo aquilo que acontece à sua volta”, aponta a educadora. E isto é válido não só para as plantas, mas também para os animais, sobretudo insetos, que encontram durante as sessões.
“Acabam por criar uma grande sensibilidade para os seres vivos e uma relação de empatia com as outras pessoas”, apontam. “São crianças autónomas, capazes de tomar decisões, de experimentar e de lidar com o risco.”

Como não há brinquedos tradicionais disponíveis, os miúdos são também desafiados a criar as suas próprias ferramentas. Esta atividade natural acaba por ajudá-los a serem mais criativos, além de lhes permitir encontrar “as suas próprias soluções.”
“Faz sentido estar aquele adulto presente porque o nosso trabalho não é só com as crianças, é também com as famílias”, explica. Aliás, os responsáveis são o primeiro foco do projeto assim que chegam ao espaço verde.
“Nem interagimos muito com a criança inicialmente porque para nós é muito importante ela criar uma relação com aquele espaço”, explica. “Isso vai acontecendo ao longo do tempo e, posteriormente, ela interage connosco.”
A educadora explica que a filosofia vai para além da perspetiva de educação e da forma como vivemos. E isto inclui também os pensamentos dos próprios pais, avós e outros encarregados de educação que acompanham os mais novos durante as sessões.
“É importante que a família esteja presente porque começamos também a refletir sobre o nosso papel neste mundo, o que é que podemos contribuir, o que é que podemos mudar e o que é que podemos melhorar”, aponta. “As famílias partilham as suas frustrações, as suas preocupações e as conquistas também.”

Uma das particularidades das sessões é que acontecem durante todo o ano, seja verão ou inverno. É ideal que os mais novos tenham contacto com as diferentes estações, que incluem também os dias de chuva. “Quando chove, também estamos na floresta”, diz.
A educadora aponta ainda que o projeto tem ajudado os miúdos a expressarem-se melhor, incluindo aqueles com alguma dificuldade na fala. Alguns participantes começam com poucos meses e participam nas sessões ao longo de vários anos. Em todos os casos, são notórias as mudanças nos comportamentos e na forma de estar.
“O feedback é muito positivo. Há muitas famílias que começaram com a criança ainda bebé e ela agora já tem três anos”, explica. “Há mudanças observáveis. Claro que isto não pode ser só durante as sessões, tem de ser um prolongamento da infância e o trabalho continua fora do projeto.”
Atualmente, as sessões acontecem apenas em Caxias, mas há planos para crescer para outras regiões. A sessão avulsa para participar no Crias na Floresta custa 14€, mas pode também optar por packs mensais, que variam entre os 50€ (quatro sessões) e os 200€ (16 sessões). As inscrições para setembro já estão disponíveis online.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias do projeto Crias na Floresta.







