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O jovem português que trabalhou na LEGO — e hoje vive a montar peças no YouTube

Tiago Catarino passou de fã a designer na sede da marca. Quando se despediu, reencontrou a paixão no YouTube e fez dela profissão.
Conquistou o sonho de todos os fãs de LEGO

Todos os anos, a LEGO convida os seus designers a colocarem os trabalhos de lado e a entregarem-se, durante uma semana inteira, a um projeto livre. Basicamente, a fazerem o que bem entenderem com o arsenal de milhares de peças que têm à sua disposição. Tiago Catarino era um desses designers e, em 2019, aproveitou essa semana para construir uma enorme réplica do Titanic, que apresentou aos seus superiores.

A ideia agradou a todos, mas poucos meses depois, o português de 34 anos pegava nas malas e deixava a Dinamarca de regresso a Portugal. A surpresa chegou em outubro de 2021, quando a LEGO anunciou oficialmente o lançamento de um set do Titanic, até então o maior de sempre da marca, com mais de nove mil peças. Entre elas, uma dedicada o homem que teve a ideia, Tiago, homenageado com as suas iniciais numa das peças.

O set do Titanic foi um sucesso e Tiago teve a oportunidade de apresentá-lo em primeira mão no seu canal de YouTube, que se tornou numa referência entre a comunidade de fãs da LEGO, não só nacional como internacional. Com mais de 320 mil subscritores, conta com vídeos com milhões de visualizações e é, hoje, um youtuber de LEGO a tempo inteiro.

Estava longe de imaginar cenário semelhante quando, tinha apenas oito anos, a mãe o deixou à solta numa loja de brinquedos para que escolhesse o presente de Natal. “Trouxe duas caixas de LEGO. Adorei, passava horas naquilo e passou a ser o presente que pedia sempre no Natal e nos aniversários”, conta à NiT.

Nascido em Estarreja, acabou por viver grande parte da vida em Fátima, antes de se mudar para as Caldas da Rainha, onde se formou em design multimédia. A paixão pela LEGO esmoreceu “naturalmente” durante a adolescência.

“Para mim, era uma ferramenta sem limites. Podia construir tudo o que queria. Havia brinquedos que não podia ter e que acabava por tentar replicá-los com as peças LEGO”, recorda. “Depois veio a adolescência e as peças foram recambiadas para o sótão dos meus pais.”

Já na faculdade, para um projeto de investigação, resolveu focar-se no sucesso dos brinquedos da empresa dinamarquesa. A pesquisa levou-o a todo um outro mundo onde adultos criam verdadeiros gigantes complexos com as pequenas peças. Ficou fascinado.

“Percebi que havia todo um mundo para além das caixinhas que se compravam nos supermercados. Havia comunidades que faziam do LEGO o seu hobby, faziam construções originais, coisas gigantescas. Não era nada à escala do que eu estava habituado”, diz. Acabou por se inspirar a resgatar os sets guardados no sótão e juntou-se ao fórum 0937 — os números, quando invertidos, soletram a palavra LEGO —, onde conheceu centenas de outros apaixonados.

“Não lhe chamaria obsessão, mas gostava muito de construir, comprava novos sets, perdia muito do meu tempo livre a fazer criações originais, a dar asas à imaginação e a usar o LEGO para me exprimir”.

Formou-se e começou a trabalhar numa empresa de produção. As peças LEGO eram apenas um passatempo, até que dois colegas de fórum foram contratados pela empresa dinamarquesa.

“Quando era miúdo, achava que eram robôs que faziam as caixas e os sets (risos). Quando vi esses dois companheiros a serem aceites, fez-se luz. ‘Espera lá, isto pode passar de um hobby a uma profissão atempo inteiro.’”, explica. Assim que abriram vagas para designer de produto, preparou uma compilação de todas as suas construções originais e enviou-as para o quartel-general da LEGO em Billund, na Dinamarca.

A primeira resposta afirmativa deu origem a uma entrevista por Skype. Na fase seguinte, foi à Dinamarca para participar num workshop de construção de dois dias, onde trabalhou lado a lado com duas a três dezenas de candidatos de todo o mundo. Duas semanas após o regresso a Portugal, chegava o tão desejado convite: a LEGO queria-o nas suas fileiras. Tiago aceitou sem pestanejar.

“Normalmente a LEGO procura que os candidatos tenham formação em design, mas por vezes também precisam apenas de pessoas com capacidades de construção, que foi o meu caso, cuja formação base seja menos importante”, nota. “No meu caso, embora tenha tido formação de design, o que me fez ficar com a vaga foi efetivamente a construção de LEGO nos meus tempos livres, ter as skills de construção.”

Trabalhar na sede “superou qualquer tipo de expetativa” que Tiago pudesse ter. “Não deixava de ser um trabalho normal, tínhamos reuniões semanais, mas a maior parte do tempo era passado a construir e a desenvolver ideias para novos produtos que, um ou dois anos mais tarde, pudessem chegar a milhões de crianças pelo mundo inteiro.”

Tiago era responsável por imaginar novos e criativos sets nos quais depois trabalharia. Claro que nada era feito a solo. “Tínhamos que reunir com quem fazia as instruções, as caixas, com equipas que asseguram que os modelos são estáveis. Há uma equipa enorme por detrás de tudo isso; no meu caso, a minha maior responsabilidade era ter a ideia.”

Trabalhou, no total, em 16 sets que chegaram ao mercado. Recorda com particular carinho o Barco na Garrafa, uma ideia que nasceu da LEGO Ideas — uma plataforma que recebe ideias dos fãs que, sendo votadas e aprovadas, podem dar origem a sets LEGO — e na qual conseguiu não só colocar as suas iniciais, mas também uma bandeira portuguesa.

Era o emprego de sonho que todos os fãs de LEGO gostariam de ter. Só que ao fim de três anos e meio, decidiu fazer as malas e voltar para Portugal. Viajara para a Dinamarca com a mulher em 2016, onde foi pai por duas vezes. As saudades falaram mais alto.

“Foram as saudades de casa, mais talvez por parte da minha mulher, não tanto minhas”, explica sobre a decisão de dizer adeus à LEGO. Porém, o regresso não colocaria o fim ao sonho. “Comecei a pensar que não queria deixar que o LEGO deixasse de fazer parte da minha vida. Não me imaginava a voltar a fazer o que fazia antes e então decidi tentar a minha sorte.”

Sabia fazer duas coisas: construir LEGO como poucos e editar vídeo. Rapidamente juntou as peças e idealizou um canal de YouTube onde partilharia todo esse conhecimento e criatividade.

Traçou uma meta e, durante um ano, tentaria ver se o projeto era viável. Se fosse, perfeito, se não, saltaria para outras opções. “Dei tudo por tudo”, recorda dos primeiros tempos que coincidiram com o surgir da pandemia.

“Estava fechado em casa e fazia quase um vídeo por dia. Ainda antes de terminar a meta de um ano, comecei a receber dinheiro [de publicidade no YouTube]. Ao fim de sete meses, recebi pouco mais do que o salário mínimo. Em maio, já era mais do que suficiente para ser um ordenado sustentável.”

Alguns dos vídeos mais vistos têm para cima de cinco milhões de visualizações. Neles, partilha explicações de como fazer pequenas peças, “coisas simples como mobílias, camas” que os fãs podem depois replicar e juntar às suas criações. “A ideia foi sempre a de ter um espaço de ideias, onde possam vir buscar inspiração para fazerem as suas próprias construções.”

Agora, faz um pouco de tudo: construções originais, pequenas brincadeiras e até críticas de novos sets. Tem, aliás, uma parceria com a LEGO, através da qual recebe muitos sets antes de serem colocados à venda, para que possa fazer as reviews — um destaque que lhe dá, claro, muitos novos fãs e algum reconhecimento internacional entre os adeptos mais hardcore da LEGO.

Perdeu a conta aos sets que tem guardados agora num escritório que aluga, depois de a falta de espaço o ter obrigado a abdicar do quarto que tinha em casa apenas dedicado à LEGO. “Para já ainda dá, mas rapidamente fico sem espaço outra vez”, nota.

Apesar de a sua vida agora girar novamente em torno das peças coloridas, a verdade é que nem sempre há tempo para se sentar e construir. “Há semanas em que quase não toco nelas”, mas diria que passa, em média, cerca de 15 horas por semana a construir.

O sucesso passa também pelo mundo real, de onde têm surgido novos convites para construções mais pequenas e mais volumosas. No entanto, é no YouTube que sente que está mais confortável. E se pudesse voltar ao emprego de sonho na Dinamarca? “Provavelmente não aceitaria”, frisa.

“Cá, descobri que este é o meu trabalho de sono, que me dá liberdade total para fazer o que quero. Continuo a brincar [com LEGO] todos os dias. E, claro, paga as contas (risos).”

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