“Quanto mais filhos temos, melhor a nossa vida fica.” Foi esta a conclusão a que Bernardo Castro e Rita Rodrigues chegaram depois de mais de uma década a construir uma família que poucos imaginariam possível. Aos 36 anos, vivem em Fátima com os nove filhos e aprenderam que, ao contrário do que muitos pensam, a logística nem sempre é o maior desafio. O mais difícil é garantir que nenhum deles cresce sem sentir que tem tempo exclusivo com os pais.
A história começou muito antes da casa cheia de bicicletas, brinquedos e um minibus de 17 lugares estacionado à porta. Bernardo e Rita conheceram-se quando tinham 17 anos, em Lisboa, onde ambos moravam, e começaram a namorar aos 18. O relacionamento foi tudo menos linear. Separaram-se por duas vezes e, quando voltaram a reconciliar-se, receberam uma notícia que lhes mudou completamente os planos.
“Não estávamos nada à espera. Tínhamos 21 anos”, recorda Bernardo. Na altura ainda frequentava o curso de Gestão na faculdade, que acabou por abandonar para trabalhar a tempo inteiro. Rita já vivia sozinha e trabalhava. Casaram-se poucos meses depois e, em agosto de 2012, nasceu Sofia, hoje com 14 anos.
Bernardo cresceu numa realidade muito diferente da maioria dos portugueses. É o décimo de 13 irmãos, filho de uma professora e de um oficial da Marinha. Quando nasceu, com um problema cardíaco grave, o pai decidiu abandonar a carreira militar para aceitar um emprego num banco que lhe permitisse sustentar melhor a família. “Nunca fomos ricos, mas os meus pais conseguiram criar 13 filhos. Esse exemplo marcou-me para sempre.”
Já Rita vinha de um contexto completamente diferente. A família era pequena e pouco ligada à religião. Com o passar dos anos acabou por aproximar-se da fé e encontrou na família do marido o exemplo de casamento e de vida familiar que ambos queriam construir. A primeira filha surgiu sem qualquer planeamento. Os restantes filhos, esses, foram sendo resultado de escolhas conscientes.
Um dos momentos mais marcantes aconteceu quando Sofia tinha apenas um ano — o pai de Bernardo morreu aos 61 anos. O luto acabou por provocar uma profunda reflexão sobre aquilo que realmente importa. “Percebemos que grande parte dos arrependimentos das pessoas mais velhas era não terem tido mais filhos, não terem passado mais tempo com eles e terem esperado demasiado para começar uma família.”
O casal decidiu então criar um plano muito concreto: ter quatro filhos antes dos 30 anos. Conseguiram cumprir esse objetivo e acreditavam que a família estava completa. Até que surgiu uma quinta gravidez. “Tínhamos casa para quatro filhos, carro para quatro filhos e uma vida pensada para quatro. Foi um choque”.
Pouco tempo depois perderam esse bebé. Em vez de fecharem definitivamente esse capítulo, fizeram uma pergunta que acabaria por mudar toda a história da família. “Perguntámos um ao outro do que nos arrependeríamos mais: de ter mais um filho ou de nunca o tentar. A resposta foi muito clara”.
A partir daí, decidiram continuar abertos à possibilidade de aumentar a família, até porque, até então, só tinham raparigas. Nasceu Luz, depois Benedita, Fernando, José Maria e, há apenas um mês, Assunção, o bebé da casa, que dorme no quarto dos pais e exige, naturalmente, mais atenção do que os irmãos.
Hoje, a família é composta por Sofia (14 anos), Inês (12), Helena (11), Maria do Mar (9), Luz (7), Benedita (5), Fernando (3), José Maria (1) e a pequena Assunção, com apenas um mês.
Enquanto a família crescia, Bernardo também construía a sua carreira como empresário. Começou por trabalhar no aluguer de embarcações e criou mais tarde a Seaventy, especializada na organização de eventos náuticos para empresas, que existe há cerca de 12 anos. Com o tempo percebeu que o verdadeiro desafio não era apenas fazer crescer um negócio, mas impedir que este dependesse exclusivamente dele.
“O objetivo nunca foi ganhar mais dinheiro. Foi criar uma empresa que funcionasse sem mim, para que a família deixasse de ficar com os restos.”

Foi essa experiência que deu origem à Azimute, empresa de formação e mentoria através da qual acompanha sobretudo empresários que também são pais e procuram reorganizar os negócios para terem mais tempo em casa. Recentemente, lançou ainda uma terceira empresa dedicada ao desenvolvimento de sites e dashboards de apoio à gestão. Rita acompanha toda a componente financeira e administrativa dos projetos, tratando da relação com contabilistas, pagamentos e organização interna.
A casa, a rotina e o orçamento familiar
A grande mudança aconteceu há cerca de seis anos, quando decidiram trocar Carcavelos, no concelho de Cascais, por Fátima. As rendas na Grande Lisboa não paravam de aumentar e Bernardo percebeu que continuar ali significava abdicar definitivamente da ideia de ter uma família maior. “Se continuássemos em Lisboa era impossível ter mais filhos.”
A oportunidade surgiu quando a mãe de Bernardo regressou a Carcavelos e ficou disponível a casa onde vivia em Fátima. O casal aceitou mudar-se praticamente sem hesitar. Poucos meses depois, em 2020, chegou a pandemia. A empresa de eventos ficou praticamente parada durante dois anos, mas a decisão revelou-se acertada. “O custo de vida aqui é muito mais baixo e percebemos rapidamente que tínhamos feito a escolha certa.”
Entretanto mudaram novamente de casa e vivem agora numa moradia onde o espaço comum foi pensado para acomodar uma família pouco comum.
Apesar da dimensão da casa, os quartos não são muitos. Existem quatro quartos principais, um escritório e várias divisões dedicadas à vida em família: uma sala de jantar preparada para receber 14 pessoas, uma sala de estar, um enorme salão de jogos para as crianças, estúdio de música, ginásio, oficina, piscina interior aquecida e um sótão que poderá ser aproveitado no futuro. “Os quartos são para dormir e vestir. A vida acontece toda nos espaços comuns”, conta à NiT.
Assunção continua no quarto dos pais, mas quando crescer irá juntar-se aos irmãos mais novos. Cada quarto tem várias camas e é partilhado naturalmente entre eles. Bernardo admite que nunca imaginou viver numa casa assim. “É uma casa que eu nunca pensei conseguir ter, mas acabou por ser consequência das decisões que fomos tomando ao longo dos anos.”
Se a casa teve de crescer, o mesmo aconteceu com os carros. Durante vários anos a família deslocava-se numa Mercedes Vito de nove lugares, mas quando José Maria nasceu deixaram de caber todos. “Quando a Rita ficou grávida do oitavo filho tirei logo a carta de pesados de passageiros”, conta Bernardo.
A solução passou pela compra de uma Mercedes Sprinter de 17 lugares, que utilizam sempre que saem todos juntos. A antiga carrinha de nove lugares vai agora ser vendida, uma vez que deixou de fazer sentido. “Hoje, sempre que saímos os 11 precisamos da minibus.”
Foi precisamente essa carrinha que deu origem a uma das histórias mais caricatas da família. Enquanto Rita ia buscar os filhos à escola, foi mandada parar pela polícia. Os agentes estavam convencidos de que fazia transporte coletivo de crianças e pediram-lhe o respetivo alvará. “Tivemos de explicar que eram todos nossos filhos. Ficaram completamente desconfiados.”
Não foi caso único. Em Fátima, onde vivem, a família dificilmente passa despercebida. Quando saem todos juntos ou percorrem as ruas de bicicleta, acabam inevitavelmente por atrair olhares. “Quando vejo uma família com três ou quatro filhos acho logo bonito. Quando somos nós, praticamente paramos o trânsito.”
O facto de serem muitos também faz com que a casa esteja quase sempre cheia. Os amigos dos filhos preferem passar as férias ali do que em casa. “Se eu não tiver algum controlo, esta casa está sempre cheia de gente. Os amigos querem todos vir cá por causa da piscina, dos jogos e porque aqui nunca falta companhia.”
Ao contrário do que muitos imaginam, Bernardo garante que o maior desafio nunca foi alimentar ou vestir nove crianças. O mais importante é garantir que cada uma recebe atenção individual. Foi por isso que criou aquilo a que chama “tempo de filho único”. Regularmente leva apenas um dos filhos a almoçar, passear ou ir ao cinema. São momentos sem irmãos, sem distrações e dedicados apenas a conversar.
“No dia da entrevista, por exemplo, vou almoçar com a Inês ao McDonald’s. Já não tinha tempo de filha única há algum tempo”. Esses encontros servem para perceber como corre a escola, conhecer os amigos, falar das preocupações ou simplesmente passar algum tempo a dois. “Todos os meses tentamos que cada filho tenha esse momento. Às vezes basta um almoço ou uma ida ao cinema.”
A rotina diária também está bastante definida. Bernardo procura concentrar o trabalho durante o dia para que, ao final da tarde, a prioridade passe a ser exclusivamente a família. “Depois das cinco e meia o trabalho acaba. A partir daí estou com eles.”
Nos dias de verão é habitual levá-los para a piscina, brincar no jardim ou simplesmente aproveitar o tempo em casa. Em alguns dias acorda ainda mais cedo para ir nadar com os filhos que despertam primeiro.

As férias, curiosamente, não representam um problema. “Muitos pais ficam preocupados porque não sabem onde deixar os filhos. Nós não temos esse stress.” Pelo contrário. Como existem crianças de várias idades, acabam por brincar naturalmente umas com as outras. “Até é mais fácil quando estão todos juntos. Os mais velhos ajudam os mais novos e entretêm-se entre eles.”
Gerir uma família desta dimensão implica, naturalmente, um orçamento significativo. Bernardo calcula que as despesas essenciais rondem os 3 mil euros mensais, mas admite que o valor real anda normalmente perto dos 5 mil por mês, cerca de 60 mil euros por ano.
Só em supermercado gastam mais de mil euros mensais. A isso juntam-se a prestação da casa, água, eletricidade, combustível, roupa e todas as restantes despesas inevitáveis. “O facto de vivermos em Fátima faz uma diferença enorme. Em Lisboa seria praticamente impossível.”
A família também beneficia de algumas vantagens locais, como o facto de três das filhas frequentarem um colégio sem os custos elevados que existiriam na capital. Mesmo assim, Bernardo rejeita a ideia de que seja necessário ser milionário para criar uma família numerosa. “Não somos ricos. Felizmente nunca passámos dificuldades.”
Na verdade, acredita que o crescimento da família acabou por obrigá-lo a tomar melhores decisões enquanto empresário. “Quanto mais filhos temos, melhor a nossa vida fica. Não sei explicar como, mas as oportunidades vão aparecendo e vamos aprendendo a ganhar mais trabalhando menos.”
Até os banhos exigem alguma organização. Os bebés tomam banho praticamente todos os dias e muitas vezes é o próprio Bernardo quem trata dessa tarefa. “Tomam banho quase sempre comigo.” Já os restantes filhos seguem uma rotina mais flexível, normalmente dia sim, dia não. No verão, porém, acabam praticamente todos por tomar banho diariamente por causa da piscina.
As contas da água e da eletricidade são inevitavelmente elevadas, embora a instalação de painéis solares ajude a reduzir significativamente os custos energéticos. “Gastamos muita água e muita eletricidade. Se não fossem os painéis solares, a conta era muito mais pesada.”
Apesar das despesas, da logística e da exigência diária de uma casa com 11 pessoas, Bernardo não demonstra qualquer sinal de arrependimento. Além disso, têm em casa uma empregada doméstica para ajudar nas tarefas diárias e na gestão dos vários filhos. Pelo contrário. O casal acredita que cada decisão tomada ao longo dos últimos 14 anos acabou por os aproximar da vida que realmente queria construir.
Hoje, quando olha para Sofia, Inês, Helena, Maria do Mar, Luz, Benedita, Fernando, José Maria e para a pequena Assunção, Bernardo tem a certeza de que faria tudo outra vez. “A pergunta que fazemos sempre é muito simples: daqui a muitos anos, de que é que nos vamos arrepender mais? Até hoje, a resposta levou-nos sempre a escolher a família.”
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