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Vídeos educativos e limite de tempo. O TikTok chinês é completamente diferente do nosso

Os jovens com menos de 14 anos só podem usar a aplicação durante 40 minutos por dia. Esta versão segura não existe no ocidente.

“Há um estudo que incide sobre pré-adolescentes chineses e americanos, que lhes pergunta qual a carreira que querem seguir. Nos EUA, a escolha número um é influencer nas redes sociais. Na China, os miúdos querem ser astronautas”, revela Tristan Harris, em entrevista ao programa da CBS, “60 Minutos”. O ativista e fundador do Center for Humane Technology é uma das vozes mais relevantes na luta contra o controlo e regulação das redes sociais e pinta um cenário negro para os jovens — mas não todos.

Se no ocidente, os jovens permanecem diariamente agarrados aos smartphones, sobretudo em aplicações com o TikTok, o cenário começa a ser ligeiramente diferente a oriente, na China. No país que é o berço da rede social do momento, há muito que se compreendem os efeitos nocivos da exposição dos jovens a estas máquinas “desenhadas para promover a interação e a atenção”, revela o norte-americano.

Desde o final de 2021 que o governo chinês exigiu que o Douyin — a versão chinesa do TikTok, criado pela mesma empresa chinesa, a ByteDance — introduzisse uma versão especial para jovens menores de 14 anos. O algoritmo que escolhe e monopoliza os conteúdos que cada um vê é, nesse caso, completamente diferente. Os conteúdos também.

“Mostra experiências científicas que podem ser feitas em casa. Mostra exposições em museus, vídeos patrióticos e educacionais”, refere Harris. “[A ByteDance] não oferece essa versão ao resto do mundo. É dessa forma que reconhecem a forma como essas tecnologias influenciam o desenvolvimento das crianças. O que dão, na China, é uma versão espinafre do TikTok, enquanto dão ao resto do mundo a versão opiácea.”

A decisão da China assenta na vontade de proteger os seus jovens dos efeitos nocivos para a saúde mental e desenvolvimento que têm estas aplicações. Mas será também uma forma de ajudar o país a tornar-se, cada vez mais, uma das maiores potências mundiais — se não adiantando-se a elas, fazendo com que pelo menos os outros tenham mais dificuldades, como frisa Harris: “Permitam que essas sociedades [com versões diferentes do TikTok] progridam ao longo de algumas gerações e posso dizer-vos como vai ser o mundo”.

O governo de Xi Jinping tem revelado mão dura na regulação das tecnológicas chinesas e dos seus algoritmos, mas não só. O tempo que os jovens podem passar a jogar videojogos online foi também reduzido para um máximo de três horas por semana.

No caso do TikTok, ou Douyin, o modo desenhado para os mais pequenos impõe um limite de 40 minutos de uso por dia, sendo que a aplicação bloqueia automaticamente entre as 22 e as 6 horas da madrugada. É a mais recente tentativa do governo em reduzir o impacto que as redes sociais têm tido na aprendizagem e na capacidade de concentração — sem que possa haver qualquer perda na capacidade criativa e de literacia digital.

De acordo com o próprio TikTok, não há planos para que no ocidente surja uma versão deste género ou quaisquer limites horários no uso da aplicação. Segundo a empresa, existe já um modo de limitar o número de horas de uso, mas essa opção é, ainda hoje, totalmente voluntária.

Há mais diferenças entre a Douyin e o TikTok com que convivemos no ocidente. Os conteúdos educacionais são exibidos com uma pausa de cinco segundos entre si, onde ocasionalmente são exibidas mensagens que pedem ao utilizador que “pouse o telefone” ou que “vá para a cama”.

O problema não afeta só as crianças. A reportagem do “60 Minutos” foca-se igualmente na forma como o algoritmo criado pelas empresas tecnológicas afeta o nosso comportamento na sociedade.

Para que façam dinheiro e gerem lucros, precisam de captar ao máximo a nossa atenção: mais tempo no ecrã, significa mais dinheiro para Facebook, Twitter, TikTok. E os conteúdos mais inflamados têm, naturalmente, mais interação, mais alcance.

A máquina é então desenhada para despertar, consciente ou inconscientemente, a nossa reação, o que por sua vez cria um ciclo de agressividade, comentários inflamatórios, que se propagam pelos outros meios. “As redes sociais viciaram-nos para maximizarem os lucros”, revela Tristan Harris. “Estão a fazer milhões enquanto nos enraivecem.”

Para o ativista, a solução está ao nosso alcance. “Temos que fazer com as redes sociais o mesmo que foi feito com as grandes tabaqueiras. Os procuradores públicos foram atrás delas e acusaram-nas de os seus produtos causarem mal às pessoas e às suas famílias. É isso que vai ser preciso fazer.”

Atualmente, existem várias investigações, nos Estados Unidos e na Europa, que procuram estabelecer essa ligação e esses efeitos nocivos. “Sabemos que os há, conhecemos os efeitos nocivos das redes sociais desenhadas para promover interação. E já ganhámos essa luta na questão dos cintos de segurança, no tabaco, na remoção do chumbo dos combustíveis”, diz.

“Fomos capazes de fazer essa mudança, assim que reconhecemos que alguns produtos são tóxicos para nós. E podemos fazê-lo novamente.”

O panorama em Portugal

Em janeiro deste ano, o TikTok era a marca que mais crescia no mundo. Um crescimento que se reflete em Portugal, onde um estudo de 2021 revelou que os utilizadores portugueses da rede social passavam, em média, cinco horas por dia na aplicação.

Segundo a agência de marketing SocialPubli, são as mulheres quem mais frequenta o TikTok, cerca de 66,2 por cento. Entre os vídeos preferidos, estão os de comédia e de dança.

Outro estudo, revelado em 2022 pela “Marktest”, oferece uma visão mais abrangente do fenómeno. Os jovens entre os 15 e os 24 anos passam, em média, entre duas a três horas por dia nas redes sociais, entre Instagram, TikTok, Facebook e Twitter.

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