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Edifícios abandonados: a incrível história dos Sanatórios do Caramulo

Chegou a ter 19 sanatórios, restaurantes e até um cinema. Na década de 60 entrou em declínio — e o sonho de uma família foi por terra.

Foto de Maria Serra e Moura/Lugares Abandonados

Tinta estalada, vidros partidos, infiltrações, entulho no chão, grafites nas paredes. Foi neste complexo com 19 edifícios que começou a história do Caramulo, mas desde os anos 60 que ninguém parece querer saber de muitos dos edifícios que ainda restam da estância sanatorial que chegou a ser uma das mais importantes da Europa. Praticamente esquecida desde o 25 de abril, alguns edifícios foram recuperados, outros demolidos, mas seis ainda permanecem abandonados na totalidade— incluindo o edifício principal onde tudo começou.

Quando Jerónimo de Lacerda abriu o Grande Hotel, em 1922, estava longe de imaginar que estava a fazer história em Portugal. Em Paredes do Guardão, como era conhecida na época a vila do Caramulo, no município de Tondela, na altura o médico só pensava no potencial dos “bons ares” da serra para receber hóspedes convalescentes — na altura sem tuberculose.

Só que Jerónimo de Lacerda era um homem ambicioso. Depois do hotel construído a 800 metros de altitude — que passou a sanatório seis anos depois, quando começou a receber doentes com tuberculose —, vieram outros 18 edifícios (entre sanatórios, enfermarias, casas de saúde e pavilhão de cirurgia), restaurantes, cafés, cinema e até uma estação de rádio.

O médico de Tondela pensou em tudo: energia, água, até numa rede de esgotos — foi enviado um técnico de propósito de Berlim para estudar a melhor solução para o local. Já agora, a Estância Sanatorial do Caramulo foi a primeira a ter saneamento básico a nível nacional. Também foi projetada uma rede de estradas (na altura as ligações eram péssimas), cultivaram-se hortas e plantaram-se pomares. Até foram criados Serviços Florestais para fazer a florestação da serra.

Jerónimo de Lacerda dedicou a vida à Serra do Caramulo. Foram dados aqui os primeiros passos para fundar a vila do Caramulo — a primeira portuguesa a ser planeada de raiz —, e o local tornou-se na maior estância sanatorial da Europa. A fama tornou-se mundial, e não é para menos: de facto, as curas aconteceram.

Depois do hotel vieram outros 18 edifícios (entre sanatórios, enfermarias, casas de saúde e pavilhão de cirurgia), restaurantes, cafés, cinema e até uma estação de rádio

Em 1945, Jerónimo de Lacerda morreu na sequência de um enfarte e o legado passou para os filhos. Abel, o filho mais velho, deixou o curso de Ciências Económicas e Financeiras (concluiu os estudos depois) para assumir o controlo da estância. Nos anos 50, Abel, economista, e João, médico, decidiram que estava na altura de dar nova vida à estância — os avanços na Medicina mostravam que muito em breve o local poderia deixar de ser necessário.

Foi nesta altura que os irmãos tentaram enveredar pela área do Turismo. Abel, apaixonado por arte, e João, fanático por carros, decidiram construir um edifício cada um, para exporem as suas coleções. O espólio manteve-se até aos dias de hoje, no entanto já não houve salvação para a Estância Sanatorial do Caramulo. Dez anos depois entrou em declínio, após o 25 de abril de 1974 já não havia nada a fazer. O último sanatório fechou definitivamente em 1986.

Nem todos os edifícios ficaram em ruínas. Nos anos 90, o Sanatório Salazar, na altura destinado a membros do Exército, transformou-se no Hotel do Caramulo. O sanatório ao lado é hoje a casa do Instituto de Prevenção do Stress e Saúde Ocupacional. Houve outros empreendimentos que foram transformados em prédios de habitação e lares de terceira idade.

Outros ainda tiveram menos sorte. Três foram demolidos porque havia o risco de desabarem, os restantes seis continuam por lá esquecidos (mais dois que estão em parte em ruínas). No sanatório infantil, por exemplo, ainda sobrevive a estrutura de um dos baloiços exteriores, no Pavilhão da Cirurgia ainda há uma maca médica ferrugenta.

As imagens do abandono impressionam, e são essas que lhe mostramos agora. As fotos foram tiradas por Maria Serra e Moura, uma entre os 14 administradores do grupo de Facebook Lugares Abandonados, e dizem respeito a cinco sanatórios que ainda permanecem esquecidos no local: Novo Sanatório (ou Pavilhão Cirúrgico); Grande Sanatório ou Sanatório Jerónimo Lacerda; Sanatório Belavista; Sanatório de Santa Maria e o Sanatório Infantil.

Recorde os artigos sobre o Palácio da Comenda, o Aquaparque, o Restaurante Panorâmico e o Hotel Foz da Sertã, todos abandonados.

Carregue na foto acima para saber mais sobre os Sanatórios do Caramulo.

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