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“O risco de um sismo em Lisboa é de 100%. Só não sabemos a data”

O investigador Mário Lopes reuniu-se com os deputados da assembleia municipal para discutir o problema. Em entrevista à NiT, descreve a atual legislação como criminosa.

Estamos sobre um barril de pólvora prestes a explodir. A metáfora é de Mário Lopes, especialista português em prevenção sísmica há mais de 30 anos. Esta quarta-feira, 4 de janeiro, o professor do Instituto Superior Técnico teve o primeiro de uma série de encontros com os deputados da Assembleia Municipal sobre o risco sísmico em Lisboa. Em entrevista à NiT, deixa o alerta: se se repetisse o terramoto de 1755, um terço de Lisboa ficaria destruída. E nós não estamos a fazer nada para resolver o problema.

Entre 17 e 27 mil mortos. Os números resultam de uma investigação de Maria Luísa Sousa Sotto-Mayor e foram apresentados por Mário Lopes na reunião com a Assembleia Municipal. É um cenário pessimista mas plausível: Lisboa não está preparada para um sismo.

Para perceber o grau do problema é necessário começar por perceber que o impacto de um sismo a nível material e humano tem de ter em consideração dois factores: as características do edifício e o tipo de solo. “Os solos mais moles tendem a amplificar o movimento sísmico da rocha para a superfície”, explica à NiT Mário Lopes, 57 anos. “Mas há outro factor mais importante ainda: o tipo de construção.”

Até 1958, não havia qualquer regulamentação sísmica na construção dos edifícios. Depois vieram as alterações à legislação, mas isso não resolveu necessariamente o problema.” Em primeiro lugar, não há qualquer exigência para as construções anteriores à década 60. Em segundo lugar, o Estado não verifica se a regulamentação é ou não cumprida.

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“Risco zero não existe, mas nós não estamos a fazer prevenção.” A regulamentação existe, mas o Estado não verifica se esta é cumprida. Basta o engenheiro atestar que está tudo bem. “Isto significa que as pessoas quando compram uma casa estão entregues à consciência e competência de quem a projetou e construiu.”

Para tornar o cenário ainda mais dramático, as regras para a reabilitação dos edifícios é no mínimo peculiar — só têm de se preocupar em cumprir a legislação da data de construção. Se for anterior à década de 60, portanto, não têm de ter qualquer cuidado com a resistência sísmica.

Para Mário Lopes, “o risco de um sismo em Lisboa é de 100%. Só não sabemos a data”. A história dita que a cada 200-300 anos acontece um forte sismo, “Até ver estamos com sorte. Mas é uma questão de tempo.”

“Se eu estivesse em Lisboa e acontecesse um sismo, preferia estar em cima da ponte 25 de Abril ou da ponte Vasco da Gama do que num prédio na Baixa.”

Quanto às zonas mais afetadas, as regiões com os piores cursos de água, como a zona ribeirinha, Almirante Reis, Avenida de Ceuta e Avenida de Liberdade, serão muito afetadas. Mas na área do Hospital de São José, por exemplo, os terrenos até são melhores mas a construção dos edifícios é má. O resultado seria igualmente dramático.

Ainda assim, outras zonas da cidade poderiam ser igualmente afetadas. “Ninguém verifica se a regulamentação é cumprida ou não, por isso ninguém sabe.” Neste momento, é uma autêntica lotaria. Tudo depende da vontade e preocupação do engenheiro em cumprir o reforço sísmico.

Apesar de não ser possível definir com certeza as zonas mais seguras, Mário Lopes acrescenta: “Se eu estivesse em Lisboa e acontecesse um sismo, preferia estar em cima da ponte 25 de Abril ou da ponte Vasco da Gama do que num prédio na Baixa.”

Legislação existe, fiscalização é que não

Porque é que não há então mais fiscalização por parte do governo? Uma das principais razões é, claro, de carácter económico. Mário Lopes tem uma proposta, irónica: “O reforço sísmico aumenta o custo entre 10 a 30%. O que eu digo é: se o estado quer poupar dinheiro na segurança das pessoas, eu tenho várias sugestões: fechar o Sistema Nacional de Saúde para poupar no ordenado dos médicos e enfermeiros; deixar de fazer manutenção de automóveis, aviões e comboios. Assim quando houvesse um problema, havia desastres, as pessoas morriam mas poupávamos dinheiro.”

Mário Lopes está obviamente a ser irónico, mas no fundo o pensamento do Estado parece ser este. “Aqui só há uma diferença: se deixarmos de fazer manutenção aos aviões, eles caem, as pessoas tem medo e vão querer apurar responsabilidades. No caso dos sismos isto só vai acontecer quando voltar a acontecer um.”

Quando questionado sobre o resultado deste conjunto de encontros com a Assembleia Municipal, Mário Lopes dá-nos dois cenários — o que gostava que acontecesse e o que pensa que vai acontecer.

“Gostava que estas reuniões despertassem a atenção das pessoas, que o tema fosse discutido nas eleições, que políticos começassem a dar o exemplo. O que é que eu acho que vai acontecer? Duas ou três pessoas vão preocupar-se com isto, vão escrever sobre o assunto e depois vai ficar tudo igual.”

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