Na cidade

Afinal, porque é que existem tantas melgas na Comporta?

É o sítio do País com maior concentração destes pequenos bichos que arruínam as férias a qualquer pessoa.
São um inferno. Foto: CM Grândola.

Não há nada como passar as tarde de verão nas praias da Comporta até o sol se pôr e terminar o dia a comer peixe fresco numa das muitas esplanadas da zona. É o plano perfeito para umas férias de sonho com amigos ou família, mas há um pequeno pormenor que pode arruinar toda a experiência — os mosquitos.

Como se costuma dizer, “não matam, mas moem”. E não há nada mais irritante do que estar prestes a adormecer e ouvir aquele barulho insuportável das melgas que enervam até as pessoas mais calmas. No verão, estes insetos insistem em incomodar as nossas férias mal a tarde cai, com especial incidência na zona ribeirinha.

Em Portugal, o sítio com maior concentração destes bichos é a Comporta. Foi lá registado o recorde nacional: uma só pessoa apanhou 400 mosquitos em apenas uma hora. 

A explicação para esta praga que existe há centenas de anos é bastante simples. “Historicamente, esta é uma zona húmida, com muita água doce e salobra e com muitos arrozais, e é aí que os mosquitos se desenvolvem”, explica à NiT José Paulo Martins, da Associação ZERO.

Nos últimos anos, a antiga aldeia de pescadores e agricultores, que trabalhavam maioritariamente nos vastos arrozais, transformou-se numa das vilas mais turísticas do País. “As pessoas chegam ao fim do dia e admiram-se com a quantidade de melgas que aparecem, mas isso não é nada de novo ou estranho. Fomos instalar uma área turística numa zona onde os mosquitos já têm habitats há muitos anos”, acrescenta.

“Os mosquitos e as melgas estão associadas às zonas húmidas, mas só as fêmeas é que são problemáticas. Elas picam porque precisam de fazer aquela refeição de sangue para o ciclo reprodutor. Já os machos andam nas flores e alimentam-se de néctares e sumos”, explica o ambientalista. 

As fêmeas têm de sugar o sangue de mamíferos para conseguir proteínas necessárias para o desenvolvimento dos ovos. Sem sangue, os ovos não poderiam desenvolver-se, tendo em conta que os mosquitos alimentam-se de sumos de fruta e seiva de árvores, com baixo teor de proteínas.

As fêmeas depositam os ovos (cerca de 300 de uma só vez, dependendo das espécies) em qualquer lugar onde a água permanece estagnada há pelo menos uma semana. É lá que as larvas nascem e crescem.

Ao longo dos anos, já se tentou de tudo e mais alguma coisa para diminuir a concentração destes insetos, desde inseticidas e repelentes ou até mesmo a utilização de espécies de peixes que comem as larvas do mosquito. Contudo, não se pode esquecer que a Comporta fica no meio de zonas agrícolas e de uma reserva natural e os produtos químicos são bastante prejudiciais. Tanto é assim que alguns deles até já foram proibidos. “É preciso ter noção do impacto da utilização dos químicos. São produtos altamente tóxicos e com grandes consequências ambientais”, refere o ambientalista.

Apesar das várias tentativas, a solução é apenas temporária, uma vez que é praticamente impossível erradicar os insetos naquela zona. No entanto, é possível “controlar os pontos de desenvolvimento que não tenham a ver com a conservação da natureza”. Uma das formas de combater é não deixar recipientes que possam ter água da chuva, por exemplo. “Qualquer recipiente, por mais pequeno que seja, se tiver água doce atrai mosquitos”, esclarece José Paulo Martins.

Por isso, se quer evitar ser picado, não espere soluções milagrosas. O melhor é mesmo andar com repelentes atrás, evitar as horas em que os mosquitos estão mais ativos (geralmente à noite e em sítios mais iluminados) e dormir entre as redes finas que não deixam entrar estes bichos que infernizam qualquer noite.

Se for passar férias à Comporta, prepare-se para passar um mau bocado com as melgas — mas nem tudo é mau. Carregue na galeria para descobrir as grandes novidades que chegaram ao longo do último ano à Comporta e outros espaços que merecem uma visita nesta região maravilhosa.

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