Na cidade

Angie e Chris trocaram França pelo Algarve porque “o sul de Portugal não é só praia”

O casal pegou no “prédio mais feio de Faro” e transformou-o num ícone do Modernismo Algarvio, que poderá descobrir em novembro.
O casal organizou o The Modernist Weekend.

“Queremos mostrar que o Algarve, além do clima e das paisagens incríveis tem um atrativo competitivo: a sua arquitetura”. Angélique e Christophe de Oliveira nasceram em França, estudaram gestão e dedicaram-se, em Paris, a transformar lugares com história em unidades de alojamento local. Em 2018, mudaram-se para Portugal, mais especificamente para o Algarve, e continuam a trabalhar no mesmo ramo. Já acumulam 15 anos de experiência.

Compraram o edifício número 27, da Rua Dom Francisco Gomes, em Faro — um prédio de três andares, que mantém “velhos moradores no rés-do-chão” — e ocuparam três pisos. O facto de ser “o prédio mais feio da cidade” não os assustou nem demoveu. “O projeto de revitalização do edifício ficou a cargo da PAr (Plataforma de Arquitetura) que o transformou num ícone do Modernismo Algarvio”, revela-nos o casal. Depois da renovação, tornou-se numa unidade de alojamento local, com seis apartamentos, dois por piso.

Quem passa na movimentada rua, no centro da localidade algarvia, repara imediatamente na loja da sorte Campião e, ainda no rés-do-chão, na livraria Bertrand — os tais inquilinos antigos. Apesar de modesto, edifício é um refúgio e um caso de estudo para amantes de arquitetura.

O empreendimento, a que deram o nome The Modernist, caracteriza-se pela “simplicidade, minimalismo e pelo carácter único para quem pretende relaxar, pensar e inspirar-se”, continuam. A experiência que proporciona aos hóspedes distingue-se por “permitir um contacto com esse legado arquitetónico de forma autêntica”. Isto porque, é “a única unidade com este posicionamento orientado para o Modernismo no Algarve e até em Portugal”, asseguram.

Desenhado pelo arquiteto Joel Santana, o prédio foi erguido em 1977 como casa e local de trabalho de um despachante marítimo. Agora, após a renovação de Angie e Chris, (os dois com 45 anos) deixou de ser considerado feio — e as mudanças não aconteceram apenas na fachada. O modernista acolhe móveis desenhados pelo casal em conjunto com designers portugueses e inspirados pelo movimento modernista. “Todos os materiais usados são nacionais e, grande parte deles são do Algarve”.

O The Modernist abriu em maio de 2021 e tem seis apartamentos com camas duplas, cozinhas equipadas. A reserva mínima é de duas noites (a partir de 120€ cada). Todos apresentam sobriedade cromática, varandas ou terraços. São amplos, sem divisórias e com poucos móveis, de forma a maximizar o espaço útil. Incluem sofás-cama que permitem alojar até quatro pessoas em cada alojamento.

Minimalista e acolhedora, a decoração do hotel inspira-se nos anos 70 do século passado. A pedra algarvia, a iluminação e os puxadores, na mesma estética modernista, foram também produzidos no sul, ou “a menos de 100 quilómetros de distância para reduzir ao máximo a pegada ecológica e promover a economia local e os seus artesãos”.

Com “várias veias empreendedoras”, nem só de obras e transformações é feita a vida do casal. “Além do nosso trabalho nesta unidade hoteleira, também escrevemos um livro sobre o Modernismo em Faro, com um roteiro pela cidade onde se encontram os vestígios arquitetónicos. Partilhamos a obra com os nossos clientes para que também possam descobrir e apreciar esta herança”. Sim, porque têm como objetivo “partilhar a paixão pela arquitetura modernista e mostrar esta herança incrível que existe em Faro e no Algarve e que é única na Europa”.

Angie e Chris defendem que esta arquitetura “deve ser valorizada, conservada e transmitida às gerações futuras”. A missão, porém, não é fácil. “Temos um grande trabalho de divulgação pela frente, porque poucas pessoas têm consciência do ativo histórico que estes edifícios representam”, afirmam. Como parte desse projeto maior, organizaram o The Modernist Weekend, um evento dedicado a este movimento arquitetónico, com visitas a casas privadas, passeios e um jantar temático.

No fim de semana de 11 a 13 de novembro, será possível visitar, em Faro, casas desenhadas pelos grandes arquitetos modernistas e que nunca abriram portas ao público. Uma delas, é precisamente o alojamento local dos organizadores. “Vamos ter uma exposição dedicada ao movimento moderno farense, um jantar que convida a uma viagem no tempo aos anos 70 e estamos a organizar visitas a casas modernistas que estão à venda, para sensibilizar para o valor arquitetónico que têm e os traços que as distinguem.”

As visitas e os passeios estão limitados a 15 participantes e é necessária inscrição prévia. O acesso às open houses custa 10€ e cada um tem a duração de uma hora. Já as walking tours duram duas horas e custam 20€ por pessoa. As receitas revertem para a preservação e valorização do património. “Os roteiros são passeios a pé e têm uma programação definida, com horas marcadas. A participação é restrita e exige marcação prévia. As visitas ocorrem em pequenos grupos e contam com a presença dos donos das casas e de arquitetos que vão dar-nos a sua perspetiva dos edifícios.”

Será a primeira edição do evento que celebra a arquitetura e o legado modernista existente no Algarve. O objetivo é educar e sensibilizar os compradores para a importância de preservar um património que atrai cada vez mais público conhecedor ao Algarve. O britânico Richard Walker também irá participar no evento e apresentará uma obra em exposição no Hotel Aeromar, um exemplo praticamente intacto do Modernismo Algarvio da década de 70 do século passado. A entrada é livre.

Este hotel, com vista para a Ria Formosa, será ainda palco do jantar temático “Back to the 70th”, no dia 12 de novembro, durante o qual os participantes poderão visitar o estabelecimento guiados por Gonçalo Vargas, curador da exposição “MGC – Moderno ao Sul”, patente no Arquivo Distrital de Faro. Limitado a 50 lugares, custa 35€ por pessoa e vai contar com música ao vivo.

A Casa Gago, de 1955, é uma das obras mais emblemáticas de Manuel Gomes da Costa —  um dos grandes impulsionadores do Modernismo Algarvio — e uma das propriedades privadas que vai ser possível visitar. The Modernist Weekend passa também pela Casa Rua de Berlim, de 1955, propriedade de uma família algarvia. Em toda a rua, Gomes da Costa assinou várias moradias unifamiliares, naquele que era um dos melhores bairros da cidade. Também a Casa 1923 abre as suas portas para o evento, caso único de Arte Nova com elementos decorativos Art Déco em Faro.

Apenas há quatro anos em Portugal, Angélique e Christophe têm conseguido atrair até Faro amantes da arquitetura e do design “não só de toda a Europa, mas um pouco de todo o mundo, pois cerca de 90 por centos dos clientes são profissionais ou amantes destas áreas que nunca visitariam a cidade sem este pretexto”. Afinal, parece que “a cultura, a história e a arquitetura Modernista são boas razões para viajar”.

Carregue na galeria para descobrir quais as casas incluídas no roteiro do The Modernist Weekend.

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