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Depois de terem voltado à Austrália, os diabos da Tasmânia estão a dizimar os pinguins

Mais de 3 mil animais habitavam na ilha desde a década passada. Com a introdução dos diabos da Tasmânia, nenhum sobreviveu.
Estes pequenos animais foram o pesadelo dos pinguins-azuis.

No ano passado, a NiT noticiou que os diabos da Tasmânia voltaram à Austrália continental pela primeira vez em três mil anos. Eram 26 no total, e o regresso desta espécie nativa a “casa” poderia ajudar a restaurar a ecologia das florestas australianas, diziam então os ambientalistas.

Quase um ano depois, a reintrodução dos animais naquele ecossistema tem mostrado afinal ser um grave problema para as espécies que já lá habitavam, colocando os pinguins e várias espécies de pássaros em risco.

De acordo com a BirdLife Tasmania, um grupo de conservação do local, a introdução dos marsupiais carnívoros fez com que os três mil pinguins-azuis que habitavam Maria Island desde a década passada desaparecessem por completo. Eric Woehler, um investigador do grupo, contou à BBC que perder aquele número de animais, num sítio que é suposto ser um local seguro para os mesmos, causa um grande impacto no ecossistema. Não foram apenas os pinguins que foram afetados, também os pássaros estão a sofrer.

Em conversa com o The Guardian, Woehler adiantou que “todas as vezes que os humanos, deliberada ou acidentalmente, introduziram mamíferos em ilhas oceânicas, o resultado foi sempre o mesmo… um impacto catastrófico em uma ou mais espécies de pássaros”.

Os diabos da Tasmânia foram para a ilha graças a uma colaboração entre os governos da Austrália e da Tasmânia, para proteger a espécie de um cancro que os andava a devastar.

Estes míticos animais costumavam habitar a Austrália continental, não sendo certo o como — ou o porquê — do seu desaparecimento total nesse país. Os cientistas apontam para datas que vão de 500 a 5 mil anos para a extinção e as hipóteses mais apontadas são as mudanças climáticas, caça a e a chegada dos dingos.

Depois de desaparecerem no continente, ficaram alguns animais na ilha da Tasmânia, até que a história se torna ainda mais surreal: uma estranha doença surgiu em 1996, uma espécie de tumor facial, e erradicou 90 por cento da população dos diabos, até restarem menos de 25 mil animais no total.

Foi por isso que o grupo Aussie Ark tem trabalhado para conservar a espécie e para libertar os animais da doença, sendo que os animais reintroduzidos na Austrália estavam obviamente livres de qualquer perigo de saúde. As expetativas dos ambientalistas com a reintrodução eram de que a entrada de uma espécie nativa que é um predador ajudasse a restaurar a ecologia das florestas que foram devastadas por raposas, gatos e outros predadores invasores.

Poderiam funcionar no fundo como uma medida de controlo natural única e irrepetível, mas também teria, avisava-se em 2020, de ser monitorizada porque nas circunstâncias atuais em vez de trazer o equilíbrio poderiam, paradoxalmente, aumentar o desequilíbrio — o que parece estar a acontecer

Woehler adianta que os diabos da Tasmânia tiveram um “impacto ecológico catastrófico” na Maria Island, e recomenda que os mesmos sejam relocados noutros sítios enquanto o número da espécie aumenta no país.

Felizmente, os diabos não foram o fim dos pinguins-azuis. Estes ainda podem ser encontrados noutras partes da Austrália, como a ilha Phillip, onde atualmente existem mais de 32 mil membros da espécie.

Os diabos da Tasmânia são os maiores carnívoros marsupiais que ainda existem na Terra, mas ainda assim têm o tamanho de um cão e são muito perigosos por causa das mordidelas.

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