Na cidade

Casal português retido no Reino Unido pede ajuda para voltar a casa (e para o filho)

Emigraram à procura de mudar a sorte. As coisas não correram bem e agora procuram apenas regressar. Fábio e Patrícia criaram uma campanha Go Fund Me.
Estão em Southampton.

A pandemia dificultou tudo. Na hora de fazer contas, viram-se numa situação que nunca tinham vivido. Decidiram arriscar e tentar a sorte no Reino Unido. Para trás deixaram algum dinheiro para a renda da casa e o filho, de 13 anos, que ficou com a avó. Mas as semanas passaram e as coisas não mudaram. Sem solução à vista, tentam agora regressar a Portugal.

Fábio Silva e Patrícia, ambos de 34 anos, aterraram em Londres no passado dia 18 de dezembro. No dia seguinte, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, dava uma conferência de imprensa em que anunciava que o nível de alerta devido à Covid-19 ia subir, o que levaria o país a novo confinamento. “Arriscámos mas chegámos cá e o Reino Unido entrou num nível mais alto de alerta. Fechou tudo. É uma frustração”, conta Fábio à NiT. Entretanto, Portugal entrou também em confinamento a 15 de janeiro e o corredor aéreo entre Portugal e Reino Unido foi encerrado. 

Em Portugal, Fábio era professor de dança e bailarino e já tinha feito alguns trabalhos como figurante em videoclipes. A pandemia obrigou desde cedo a algumas adaptações. “Dentro das escolas estava limitado, então resolvi levar alguns alunos para a rua e dar aulas na rua”, conta.

Já a situação de Patrícia começou a mudar logo no início da pandemia. “Tive trabalho até março. Ainda consegui fazer depois uns poucos trabalhos por fora, que ainda tinha algumas clientes, mas com as restrições todas também não podíamos andar de um lado para o outro para nos podermos safar”. Patrícia recebia algum apoio da Santa Casa, que ajudava a pagar a renda. “E também recebíamos alguns bens do Banco Alimentar”, uma situação nova na vida do casal.

Foi aí que decidiram procurar outra sorte noutro país. A partida para o Reino Unido tinha um objetivo: “era para termos mais algum dinheiro e podermos continuar a nossa vida. Deixámos a nossa casa em Portugal. O objetivo era chegar aqui e poder continuar a pagar a renda em Portugal e juntar aqui algum dinheiro”. “Decidimos tentar., mas não tem corrido bem”, contam.

Quando chegaram ao país começaram logo a procurar trabalho mas a situação não era fácil. “Temos estado sempre à procura de emprego. Todos os dias mandamos e-mails. Mas, com as restrições, através de e-mail é mais complicado. Não conseguimos mesmo nada”, contam.

Nesta altura documentação é também mais apertada para conseguirem trabalho. Pedem um comprovativo de morada mas Patrícia e Fábio não têm casa própria na cidade. Estão a viver em casa de uma tia de Patrícia mas as contas apertam. “Deixámos algum dinheiro em Portugal e entretanto o dinheiro que trouxemos acabou. Também queremos dar um apoio aqui com as coisas. Uma pessoa não é nenhuma criança, quer contribuir mas sente que não consegue ajudar o mínimo aqui em casa”, destaca Fábio.

A dada altura Fábio confessa à NiT: “eu não queria ter vindo”. A situação cá era difícil mas ainda ia dando algumas aulas. Era pouco mas ajudava. Sem trabalho, Patrícia, no entanto, queria arriscar. ”E eu disse-lhe: ‘vou contigo’. Para dar algum apoio e para ela não estar sozinha. Ela não fala bem a língua, para mim é um pouco mais fácil”, explica Fábio.

Nesta altura o casal já só procura voltar a Portugal, para junto do filho, mesmo sem saber como será a vida por cá. “A própria família lá [em Portugal] está desanimada. Querem que a gente volte. É isso e são as saudades do filho. Para quem tem um filho e criou já alguma coisa é complicado. Se uma pessoa tivesse 18 anos, mas não. Vou fazer 35. As coisas não estão fáceis”, admite Fábio.

O casal está nesta altura a viver em Southampton, “de onde partiu o Titanic”, especifica Fábio. Além das dificuldades, a pandemia trouxe um certo ar de estranheza ao dia a dia. “Uma pessoa raramente sai de casa. Vamos até ali ao supermercado, um bocadinho ao parque, e vimos para casa. As próprias pessoas… Tu estás a andar no meio da rua e se vierem no mesmo caminho desviam-se para o outro lado, baixam a cabeça. É uma nova realidade”, contam sobre estes tempos de pandemia.

Fábio e Patrícia querem voltar.

O casal até já esteve com viagem marcada de regresso mas o imprevisto voltou a bater à porta. “Vamos ligar amanhã [quarta-feira, 17 de fevereiro] para o consulado. A viagem que tínhamos para dia 1 de março foi cancelada”. No entretanto, a situação levou-os a pedir ajuda.

À hora a que escrevemos a campanha no site Go Fund Me, criado contava com 366 das 600 libras (688€) que o casal definira como meta. “O dinheiro é para as viagens, testes, para transportes até ao aeroporto e para nos aguentarmos aqui uns dias até à viagem”, especificam. “A prioridade agora é voltar a casa”, diz-nos Patrícia. “Não dá para continuar aqui sem nos conseguirmos sustentar, sem vermos grandes alternativas”.

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