Na cidade

Casal que limpa praias encontra enorme monte de lixo dos anos 80 em Peniche

Entre embalagens de Capri Sonne e Trinaranjus, Lídia e Manuel Nascimento dizem que são verdadeiros "achados arqueológicos".
Alguns dos "artefactos".

É uma verdadeira viagem ao passado, ainda que pela negativa. Um grupo de cidadãos que se dedica a limpar praias nos tempos livres encontrou algo inédito, este domingo, 19 de julho, no areal de Peniche de Cima: uma verdadeira pilha de lixo que — não existe a mais pequena dúvida — é saída diretamente dos anos 80.

“Arqueologia dos anos 80: encontrámos uma lixeira nas dunas de Peniche de Cima, cheia de lixo dos anos 80. Dá para ver o que se comia na praia nessa altura. Estava tudo quase intacto, em cerca de um metro quadrado. Já encontrámos lixo muito estranho, de muitas partes do mundo e coisas que nem sabemos o que são, mas isto deixou-nos de boca aberta”, explica o grupo numa publicação do Facebook, que em poucas horas se tornou viral.

Publicado por Mar à Deriva – Adrift Sea em Domingo, 19 de julho de 2020

O conteúdo não mente: embalagens de Capri-Sonne, de Trinaranjus, de Coca Cola e Pepsi Cola, de Nívea, Mimosa, e muito mais. Para quem conheceu estes produtos não há dúvidas da sua data — e, se houvesse, os prazos de validade, com datas como “abril de 87”, estariam lá para confirmar.

À NiT, o casal Lídia e Manuel Nascimento explica o que aconteceu, nesta espécie de cápsula do tempo que parece ter explodido no areal do centro: “No domingo passado estávamos em Peniche e, claro, fomos apanhar lixo, nós dois e um amigo, o Tiago Marques, que vive ali mesmo. Como estamos na época balnear e há muita gente na praia, fomos para as dunas, onde existe aquilo a que chamamos ‘lixo eterno’ – estão lá toneladas de plástico, tanto recente, como de há muitos anos. É habitual encontrarmos bonecos em plástico que eram brindes dos gelados Rajá nos anos 60 e 70”, começam por contar.

Publicado por Mar à Deriva – Adrift Sea em Domingo, 19 de julho de 2020

 

“Mas não imaginávamos o que íamos encontrar nesse dia em Peniche de Cima – uma lixeira dos anos 80 enterrada numa duna. Em cerca de 1m20 encontrámos 43 quilos de sacos e embalagens muitas delas datadas de 1986 e 1987. Só copos de iogurte das marcas que se consumiam na altura encontrámos 186! Várias garrafas e latas de refrigerantes, pacotes de sumo, de bolos, de batatas fritas, embalagens de bronzeadores (não protetores!) e foi como ter encontrado uma cápsula do tempo, pois estava tudo quase intacto. Para nós esse lixo é quase um achado arqueológico, pois dá para perceber o que se consumia na praia na altura. Guardámos alguns objetos, para poder mostrar aos mais novos e chamar a atenção”, frisam.

O Mar à Deriva – Adrift Sea é uma organização informal de recolha de lixo marinho. “Não somos uma associação, somos apenas duas pessoas, a Lídia e o Manuel Nascimento, casados há muitos anos. Apanhamos lixo marinho desde sempre, mas até ao final de 2018 só encontrávamos lixo na praia a seguir a tempestades, ou seja, esporadicamente. A partir do início de 2019 tudo mudou, passámos a encontrar muito plástico sempre que íamos à praia. Como moramos junto ao mar, em Santa Cruz, recolhemos lixo com muita frequência, pois não conseguimos passar ao lado e fingir que não o vemos”.

Quando no ano passado encontraram dois cavalos-marinhos em esqueleto na areia, decidiram começar a partilhar a tragédia do plástico no mar, que está a matar a vida marinha. “Já encontrámos lixo de muitos países – nuns casos vem do outro lado do Atlântico, trazido pelas correntes, noutros casos, é deitado fora pelas embarcações que passam ao largo da nossa costa”.  Mas nada como o que aconteceu domingo.

Publicado por Mar à Deriva – Adrift Sea em Domingo, 19 de julho de 2020

“É triste haver plástico em todo o lado. Em todas as praias onde vamos encontramos lixo, não só em Portugal, nos outros países também. Mais de 90% do que encontramos são restos de artes de pesca, tudo em plástico, que continuam a pescar durante muitos anos sem beneficiar ninguém. Temos encontrado muitos animais mortos na praia (golfinhos, gansos-patola, etc.). Mas também encontramos bastante lixo doméstico, especialmente o que as pessoas deitam na sanita (cotonetes, invólucros de tampões, escovas de dentes, etc.) e que depois vai parar ao mar. A continuar assim, infelizmente a vida marinha não vai sobreviver durante muito tempo”, conta o casal à NiT.

E deixa um apelo: “Gostávamos de pedir às pessoas para, em primeiro lugar, recusarem plástico, sempre que possível, escolherem produtos mais ecológicos, não deixarem lixo na praia e se virem algum, apanharem. Não é necessário fazerem uma limpeza de praia, basta apanharem alguns objetos que encontrem no percurso que fazem até ao carro. Se todos contribuirmos um pouquinho, o ambiente agradece”.

Publicado por Mar à Deriva – Adrift Sea em Domingo, 19 de julho de 2020

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