Na cidade

Chegaram, viram e apaixonaram-se: a Madeira é o novo paraíso para nómadas digitais

A Ponta do Sol tornou-se o epicentro de um projeto que promete ser um sucesso no arquipélago.
Uma vila de nómadas digitais.

Eles já estão a vir de todo o mundo e nos próximos tempos mais hão-de chegar, incluindo de alguns sítios absolutamente inesperados. A Madeira é o novo local perfeito para quem procura um cenário especial em tempos de trabalho à distância.

A pandemia pode ter acelerado a tendência mas ela já cá estava: num mundo cada vez mais ligado online, há pessoas que, com um simples portátil e uma boa ligação à Internet, conseguem fazer dos lugares mais incríveis o seu escritório. A Madeira já começou a ser esse lugar para estes trabalhadores viajantes. São nómadas digitais e a vila de Ponta do Sol é agora a sua casa.

Com o apoio do governo regional e com uma comunidade com tradição de hospitalidade, a Startup Madeira pôs em andamento o Digital Nomads Madeira. Quando falámos com Carlos Soares Lopes, CEO da Startup Madeira, era fácil de perceber na voz que os dias por aqueles lados têm sido de azáfama. É trabalho, é intenso. Mas percebia-se que também tem sido especialmente divertido.

Carlos Soares Lopes conta-nos que as expetativas eram positivas mas que os números têm superado tudo o que previam. A comunidade de nómadas digitais é especialmente atenta e a Madeira era burburinho em crescendo. Entretanto, a ideia da Madeira como nova casa para estes nómadas foi assunto na própria “CNN”. Isso talvez ajude a explicar parte do fenómeno.

A 15 de fevereiro, adianta a startup à NiT, já tinham recebido mais de 4.300 candidaturas. Os EUA lideravam com mais de mil candidaturas mas havia candidatos às centenas de países onde o trabalho remoto está há mais tempo instalado, casos de Reino Unido (mais de 300 candidaturas) ou Alemanha (mais de 200). Eis algo importante: o projeto não é só para estrangeiros. Razão pela qual mais de 200 portugueses também já se candidataram. Se olharmos para o mapa da Europa, praticamente todos os países estão representados. Existem ainda candidatos de sítios tão inesperados como Taiwan, Zâmbia, Zimbabué, Sri Lanka, Nigéria, Nepal, Jamaica, Guiana, Burundi ou Bangladesh.

Neste mês de fevereiro, chegaram os primeiros novos madeirenses. O projeto partiu em modo piloto, com previsão até ao próximo verão. Alguns dos nómadas digitais vêm por algumas semanas, alguns por meses. Ao chegarem, encontram condições de trabalho e o tal cenário especial. Pelo meio, vão criando amizades entre nómadas como eles, ao mesmo tempo que dão outra vida à economia local, que tem no turismo um dos seus maiores atrativos e que foi inevitavelmente afetado pela pandemia.

Roland Shiebel é um norte-americano de 44 anos. Foi um dos novos madeirense a quem a Startup Madeira deu as boas-vindas e ajudou a instalar-se. Este engenheiro de segurança já andava a viajar sozinho há cerca de nove meses. Foi através do Facebook que ouviu falar do projeto. “Nem sequer tinha a Madeira na minha lista mas fiquei muito entusiasmado com isto”, conta. Antes de chegar há pouco mais de uma semana à ilha, esteve quatro semanas por Lisboa, “precisamente quando se deu o lockdown”, realça. “Estava a ser deprimente porque neste momento não está a acontecer nada e estava muito frio”.

A ideia de partir para a Madeira deapertou-lhe a atenção. O tempo mais amigável também ajudou. “Quando pesquisei sobre a ilha, pareceu-me o Havai da Europa, com atividades desportivas de mar e montanha. Percebi que tinha de vir para cá”. O momento é de trabalho mas também de descoberta e prazer. Os planos são para ficar por dois meses. “E acredito que muitas coisas boas vão acontecer”.

Ben Voss mudou-se em fevereiro.

Entre esta leva de estreantes está também Ben Voss, investidor alemão de 33 anos, que veio “sobretudo pelo clima”. E descobriu à chegada que fizera a escolha certa. “É uma ilha paradisíaca, a situação pandémica na ilha é melhor, o clima é bom, há muitas atividades, paisagens lindas e é possível praticar desportos de natureza”. Além do mais, a ligação à Internet é ótima. “Para nós que trabalhamos online é muito importante. A ilha é muita bonita, as pessoas são calorosas e simpáticas. Pessoalmente, vim para cá à procura de novos negócios e todo o tipo de projetos”.

Quando pensamos em países que se têm destacado na luta contra a pandemia, surge a Nova Zelândia, que a NiT realçou num outro artigo, ou a Islândia. Em comum, têm o facto de terem sabido usar a sua geografia natural de ilha para controlar o vírus. Sem fronteiras terrestres, não é acaso a Madeira e os Açores, ainda que com casos, tenham conseguido manter-se bem longe dos números que assolaram Portugal Continental. Em tempos de confinamento apertado no País, as regiões autónomas têm sabido resistir.

A Madeira era já um daqueles segredos um pouco mal guardados no mundo do turismo. A história e cultura da ilha tornam-na um lugar pronto para saber receber quem vem de fora. Mas há ali também atributos naturais, daqueles que se preservam, e que são um fascínio para quem vem de fora.

A primeira vez que a holandesa Monica Van Zeten tinha vindo à Madeira foi em 2014 e já na altura foi “amor à primeira vista”. Foi um daqueles amores que decidiu mesmo consumar. “Desde esse primeiro momento que soube que adorava vir para cá viver e isso tornou-se realidade em janeiro de 2018”. Agora, com 29 anos e a trabalhar como freelancer, aproveitou para apostar na Ponta do Sol. É uma vila que adora e onde pode estabelecer uma rede de contactos mais forte.

Aqui eu sinto-me em casa e para ser honesta a única coisa da qual eu sentia falta era o facto de não haver uma comunidade como esta, onde eu pudesse criar uma rede de contactos e com este projeto vou ter essa oportunidade e ainda por cima será na Ponta do Sol, que é a minha vila favorita e onde moro atualmente”. Monica não está sozinha nesta descoberta da Madeira ainda antes do Digital Nomads ali ter sido lançado.

Michelle Maree é designer e cofundadora da The Nomad Escape, empresa que se dedica ao trabalho remoto e a retiros digitais para empresas e empreendedores. “Há exatamente um ano estive cá juntamente com um grupo de nómadas digitais da minha empresa. Vi logo que a ilha tinha muito potencial, tem tudo o que um nómada digital quer e precisa”, conta. A criação deste projeto permitiu que ela própria escolhesse a Madeira como sua casa por uns tempos. Como é fácil de imaginar, um dos próximos retiros da The Nomad Escape será na Madeira, já no mês de março.

São sete dias num lugar que se tem preservado longe do impacto da pandemia no continente, numa ilha que a empresa de Michelle promove como sendo de “eterna primavera”. Os atributos que o retiro vai ter são também os que ela já encontrara: “A natureza deslumbrante, o clima perfeito e as paisagens espetaculares, a Internet super-rápida, a comunidade muito afável” e, claro, os “muito tesouros por descobrir”. À Startup Madeira contou ficar cá durante um mês e meio. Não estranharemos se voltar mais vezes ao arquipélago.

Este tipo de projetos, destaca Michelle, não são apenas lugares bonitos para quem chega. “Sabemos que a ilha tem sido afetada pela atual situação do Covid-19 e os nómadas digitais são, neste momento, os únicos turistas a viajar para cá. Acho que esta é uma excelente oportunidade para criar sinergias entre a economia local e a comunidade e alavancar o setor do turismo, sendo parte de algo único que nunca foi feito antes, porque há muitos países que recebem nómadas digitais, mas nunca houve uma iniciativa de um governo para criar uma comunidade nómadas digitais e isso é verdadeiramente único e foi isso que me fez vir para cá e mal posso esperar por conhecer pessoas novas”.

No passado mês de setembro, a Startup Madeira organizou o Future of Work, evento sobre trabalho remoto. Gonçalo Hall, consultor na área e ele próprio um nómada digital, foi um dos convidados. Começaram ali as conversas sobre o que viria aí. “Nós temos as condições ideais para isto. E a questão da Covid-19 deu margem para testar um projeto piloto”, recorda Carlos Lopes à NiT. A ideia foi bem acolhida pelo governo regional e rapidamente mais ideias começaram a surgir.

“Decidimos começar com um projeto piloto de cinco meses”, também como forma de perceber os tipos de serviços e necessidades que teriam de existir para que a Madeira se tornasse casa de uma vila diferente de tudo o que conhecíamos. “As pessoas continuam a inscrever-se”, conta Carlos, que se ri um pouco a falar de candidaturas de países que mal tinham ouvido falar.

O desafio também tem sido especial para a equipa da Startup Madeira. Os emails vão chegando em catadupa. Há dúvidas de todos os géneros, de burocracias a pormenores sobre o País e a ilha, além de como está a funcionar o controlo da Covid-19. Há candidaturas de jovens em viagem mas também de famílias com crianças à procura de mais detalhes. Estas semanas têm sido de correria a responder às perguntas de cada email.

Quando chegam, a forma como a Madeira se tem conseguido distinguir nestes tempos de pandemia é outro extra. Após o teste negativo dar luz verde para saírem do isolamento, “chegam e encontram liberdade. Alguns estavam trancados em casa. E nesta altura muitas pessoas também procuram mesmo as coisas mais simples”, conta. Estão por aqui, a trabalhar com sol, na rua”. Neste mundo pós-Covid parece uma memória longínqua.

As candidaturas são gratuitas, continuam a chegar mas o convite continua aberto para que mais os façam. “O projeto traz benefícios económicos para a Madeira”, realça Carlos Lopes. Restaurantes, lojas, alojamento, são vários os setores que vão beneficiar do Digital Nomads Madeira. E, correndo bem, é esperado que a coisa não se fique só pela Ponta do Sol. “A Madeira como um todo tem capacidade esta capacidade fantástica para fazer algo assim”.

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