Na cidade

Como Jeff Bezos se tornou num dos homens mais ricos (e controversos) do mundo

É descrito como um “control freak”, explora os trabalhadores, odeia caridade e ainda mais ter de pagar impostos.
Foi recentemente ultrapassado por Elon Musk

Portugal foi o destino que o multimilionário que já foi ao espaço escolheu para passar a Páscoa. O vislumbre das férias de um dos homens mais ricos do mundo foi dado pela nova namorada, Lauren Sánchez, que nos últimos dias partilhou, no seu Instagram, várias fotos tiradas na Comporta e em Lisboa.

“Quando finalmente chega o fim de semana e podes divertir-te e descobrir novas águas”, escreveu Sánchez, antes de esclarecer a dúvida de uma seguidora. “É tão bonito quanto Seattle, mas não é Seattle, é Portugal.”

De Bezos, apenas silêncio sobre a viagem, ele que é um dos bilionários mais controversos da lista dos mais ricos — talvez apenas a par de Elon Musk, que comanda atualmente o ranking. Bezos, o fundador da Amazon, permanece no segundo posto com um cofre avaliado em cerca de 194 mil milhões, mesmo depois do divórcio que o fez perder 38 mil milhões.

O contexto, no entanto, parece-lhe favorável. Se os bilionários enriqueceram cerca de 54 por cento durante a pandemia, Bezos é um dos que mais pode sorrir. A subida das ações da sua empresa em 87 por cento, levou a que a sua fortuna pessoal sofresse um acréscimo de 86 mil milhões. A crise, essa ficou reservada para os que menos têm.

Jeffrey teve uma infância comum com alguns sobressaltos. Viu o seu pai deixar a família e a mãe casar com um imigrante cubano, que o adotou oficialmente quando tinha quatro anos. Adotou o seu apelido, Bezos. Formou-se em engenharia eletrotécnica e ciências computacionais em Princeton e chegou a trabalhar na cozinha de um McDonald’s durante o secundário.

A ascensão na carreira profissional foi rápida: passou de uma startup das telecomunicações para a banca, onde se tornou num gestor de produto. Nos anos 90 foi contratado por uma empresa de investimentos especulativos, onde se tornou no vice-presidente com apenas 30 anos — foi também aí que conheceu MacKenzie Scott, com quem viria a casar.

Juntos, deixaram a empresa e uniram esforços para concretizarem o sonho de Jeff: criar uma livraria online. Em poucos anos, iria tornar-se num dos homens mais ricos do país, mas também num dos empresários mais implacáveis da indústria.

Ninguém se mete com Bezos

A Amazon começou como muitas outras gigantes da tecnologia, numa modesta garagem onde o plano de conquista era traçado. Um dos primeiros processos de decisão de Bezos tornou-se numa das mais simbólicas previsões do que viria a ser o seu reinado.

Com o negócio a crescer, era tempo de sair da garagem e encontrar uma sede. O primeiro alvo? A criação de uma base numa reserva de índios nos arredores de São Francisco. Porquê? “Dessa forma poderíamos estar perto dos trabalhadores mais talentosos e evitar todas as consequências dos impostos”, explicou numa entrevista em 1996, dois anos depois da fundação da empresa. “Infelizmente, o governo antecipou-se nessa matéria”, explicou sobre a escolha final de localizar a sede em Seattle. 

No entanto, contrariamente a muitas outras histórias de sucesso, o arranque da empresa não foi feito de tostões. Bezos recebeu inclusivamente cerca de 300 mil euros de ajuda dos pais para montar a empresa. Um investimento que acabaria por ser mais do que compensado. Isto apesar de o próprio ter avisado que seria “muito provável” que “nunca mais vissem o dinheiro”. 

Embora já visualizasse um futuro no qual a Amazon venderia todo o tipo de produtos, o seu foco inicial foi sempre o negócio das livrarias. Queria vender livros, tornar o seu site na maior plataforma de venda e, pelo caminho, aniquilar toda a concorrência — mas o primeiro plano passou por aliciá-los a entrarem na sua armadilha.

A maioria das vendas de livros eram, então, feitas nas livrarias. A Internet veio revolucionar o modelo e a Amazon começou por ser uma alternativa fácil para os pequenos vendedores e editoras, que ali poderiam aumentar o seu volume de negócios. Os editores tornaram-se nos mais fervorosos adeptos da plataforma.

Quando Bezos percebeu que tinha uma posição privilegiada, começou por delinear um plano para aumentar os lucros à custa, claro, desses mesmos adeptos fervorosos. Cada vez mais dependentes da Amazon para fazer vendas, Bezos aproveitou e começou por exigir mais e mais descontos, prazos de pagamentos mais alargados.

Bezos no arranque da Amazon

Chamou-lhe Projeto Gazela, isto porque a empresa deveria “abordar estas pequenas editoras da mesma forma que uma chita persegue uma gazela ferida”. No livro de Brad Stone, “A Loja de Tudo: Jeff Bezos e a Era da Amazon”, o autor descreve que a mesma política foi aplicada na Europa e que o gestor encarregue dessa tarefa “retirava um certo prazer sádico em pressionar as lojas a oferecerem à Amazon condições financeiras mais favoráveis”.

A perceção pública da empresa sofreu um rude golpe, com os até então apoiantes a revoltarem-se pelo tratamento dado aos pequenos empresários. Por uma questão de imagem, os advogados da Amazon pressionaram Bezos a, pelo menos, alterar o nome do projeto para Pagar para Jogar e mais tarde para Realinhamento de Vendedores. Mudou o nome, mas a política impiedosa manteve-se intacta.

O ‘bom patrão’

Bezos era também conhecido por ser completamente obcecado com todas as pequenas tarefas entregues aos subordinados. “Ao lado dele, os tradicionais control freaks parecem hippies ganzados”, revelou em 2011 um antigo engenheiro da empresa. Bezos regularmente informava os funcionários que deveriam “ser eles a pagar-lhe” para trabalharem na Amazon — e entregava-lhes pequenas notas com o seu nome, para os relembrar quem é que mandava ali, caso não concordassem com alguma medida. 

Claro que por cada péssima qualidade atribuída ao CEO, existia um sem número de virtudes que o tornavam num homem “à frente do seu tempo”. Steve Yegge, antigo funcionário, criticou os salários e prémios abaixo da média, mas sublinhou que apesar de tudo, Bezos era “super, super inteligente”.

O que sobrava em visão, escasseava no trato com os funcionários. No mesmo livro, Brad Stone relata várias revelações de antigos funcionários, sobre o comportamento de Bezos sempre que se irritava. “És preguiçoso ou apenas incompetente?”, terá dito a um funcionário. A coleção é vasta. “Preciso de ir lá baixo ir buscar o certificado que diz que eu sou o CEO para que pares de me contrariar?” “Porque é que me estás a fazer desperdiçar a minha vida?”

Segundo relatos internos, Bezos iria mais longe, ao promover esse mesmo tipo de comportamento entre funcionários. Eram ativamente motivados a serem cruéis e impiedosos com as ideias concorrentes dos colegas. Foram até criados canais internos e anónimos de denúncias anónimos que chegariam diretamente aos superiores hierárquicos.

De acordo com vários trabalhadores, essas ferramentas eram habitualmente usadas para tentar sabotar o trabalho de outros colegas. Um dos diretores de recursos humanos da empresa chamou-lhe “um Darwinismo intencional”.

As condições são ainda mais agrestes fora dos quartéis-generais, sobretudo nos armazéns que garantem a perfeita máquina logística da Amazon a funcionar. Apesar de funcionar há mais de duas décadas, foi preciso esperar até 2022 para que o primeiro sindicato de trabalhadores da empresa fosse criado — isto num universo de 1,6 milhões, entre funcionários a tempo inteiro e a part-time.

O objetivo? Tentar suster os constantes abusos laborais. Desde a criação da empresa que um dos objetivos de Bezos tem sido o de impedir a criação de sindicatos, nem que para isso tivesse que contratar espiões ou, como revelava o anúncio, “analistas” para monitorizarem “ameaças de organização laboral”.

Não são só as intenções dos sindicalistas que são vigiadas de perto. A fazer jus à fama de “control freak”, Bezos instituiu uma política de vigilância total sobre o horário dos funcionários, que são tratados como robôs. A empresa que se gaba de ser “a melhor empregadora do mundo” registou, em 2020, o dobro dos acidentes laborais do que a média de outros armazéns nos Estados Unidos. A maioria dos trabalhadores demite-se ao fim de oito meses.

O momento histórico da criação do primeiro sindicato

Os trabalhadores são constantemente interrogados e ameaçados. Os funcionários que tentam criar sindicatos são detidos. A pressão para completarem mais e mais tarefas dentro do horário é tanta que, sob ameaças, muitos viram-se forçados a urinar em garrafas, para não abandonarem o local de trabalho. Apesar das inúmeras provas recolhidas, Bezos e a sua máquina de relações públicas desconsiderou a denúncia.

Os ex-funcionários comparam os armazéns a prisões. “Preferia voltar para a prisão e trabalhar lá por 18 cêntimos à hora do que fazer este trabalho [na Amazon]”, revelou um. Outro explicava que lhe era pedido que despachasse 700 produtos por hora. Quem falhava a taxa, era despedido. Muitos acabam por fazer vários turnos de 12 horas seguidas, várias vezes por semana.

Bezos discorda. Afirma que os relatos de que os trabalhadores são tratados como robôs “não são fiáveis”. Quando deixou o cargo de CEO, em 2021, escreveu uma carta aos acionistas onde dizia que a empresa “tinha que fazer melhor em prol dos trabalhadores”. A verdade é que, no último ano, a empresa aumentou o salário mínimo nos seus armazéns e criou mais postos de trabalho. Mas há ainda muito por fazer.

Impostos? Quais impostos?

Bezos acabaria por não instalar a sede da Amazon na reserva índia, mas decidiu fugir aos impostos mais pesados da Califórnia, para sediar a empresa no estado de Washington, onde os valores eram substancialmente mais baixos. Não gosta deles e, efetivamente, tanto o fundador como a empresa pagam pouco ou nenhuns impostos.

Em 2017, ano em que a empresa registou mais de cinco mil milhões de lucros, não pagou qualquer valor a nível de impostos federais sobre o rendimento. O mesmo sucedeu em 2018 e 2019, mesmo com os lucros a duplicarem de ano para ano.

Nesse ano de 2017, Bezos lançou uma campanha a nível nacional. Anunciou que queria criar um segundo quartel-general da empresa e mostrou-se aberto a ofertas, o que criou uma corrida entre estados, que ofereceram todo o tipo de isenções fiscais para convencer o CEO da Amazon a mudar-se para o seu quintal.

A cidade de Chicago prometeu inclusivamente devolver à empresa os mais de mil milhões de impostos pagos pelos trabalhadores. Bezos prometia criar mais de 50 mil postos de trabalho e mais de cinco mil milhões de investimento. Escolheu Nova Iorque, mas após protestos dos locais, decidiria pelo estado da Virginia. Dos 50 mil postos prometidos, foram criados apenas metade.

Bezos recebe, ou recebia, antes de sair do cargo de CEO em 2021, um salário baixo para o alto cargo que desempenhava: pouco mais de 70 mil euros por ano. A sua fortuna estava, claro, acumulada na percentagem de ações que detinha na empresa. Isso significava que pagava uma menor percentagem de imposto do que o trabalhador comum.

De acordo com uma investigação da ProPublica, em 2007, Bezos não pagou qualquer valor de imposto sobre rendimento. Voltou a repetir-se em 2011. 

“A ideia que sustenta o sistema progressivo de impostos sobre o rendimento é a de que aos trabalhadores mais ricos deve ser aplicada uma taxa mais alta do que aos trabalhadores mais pobres”, assinala a “The Atlantic”. “O escalão mais alto, com rendimentos anuais acima dos 462 mil euros, implica uma taxa de 37 por cento. Mas Bezos reclamava um pequeno salário, em termos relativos, dado o número elevado de ações que detém. Isto significa que lhe é aplicada apenas uma taxa de rendimento de capitais de apenas 20 por cento (…) É possível que pague efetivamente uma taxa mais baixa do que a que paga a sua secretária.”

Filantroquê?

O divórcio de Jeff e MacKenzie Bezos, em 2019, tornou-se num dos que mais dinheiro movimentou em toda a historia. A ex-mulher tornou-se, de um dia para o outro, a terceira mulher mais rica do mundo com uma fortuna de 34 mil milhões de euros. Mas se MacKenzie assumiu querer desfazer-se dela através de ações de filantropia — só em 2022 doou mais de 400 milhões e estima-se que, desde 2019, tenha dado perto de 20 por cento do dinheiro —, Bezos mostrou-se pouco adepto de doações ou caridade.

No final de 2021, Bezos e a sua namorada Lauren Sanchez foram convidados para uma angariação de fundos em Hollywood. Era a pessoa mas rica no evento e todos esperavam, claro, pela sua contribuição. Ela não chegou. Perante os olhares visivelmente incrédulos, Bezos terá puxado do livro de cheques e anunciou uma doação de 462 mil euros. Em vez de aplausos, o gesto foi recebido com lamentos. O argumento? 462 mil euros são trocos para o homem que ganha 131 mil euros por minuto.

“Jeff Bezos teria que gastar 25 milhões de euros por dia só para evitar continuar a acumular riqueza”, calculou a “The Atlantic”. Colocada de lado a possibilidade de se tornar num dos maiores filantropos do mundo, Bezos apontou, literalmente, ao espaço. “A única forma que vejo de usar todos estes recursos financeiros é transformar os meus lucros na Amazon em viagens espaciais”, revelou numa entrevista em 2018 o dono da Bue Origin, a empresa que aposta no turismo espacial e na qual se estima que tenha já investido mais de mil milhões de euros.

Não é verdade que Bezos não use o seu dinheiro para fortalecer causas. Criou o Bezos Earth Fund a quem deu 10 mil milhões e doou 100 milhões ao fundo de resposta contra a fome provocada pela pandemia nos Estados Unidos. Valores, contudo, muito abaixo dos que são dados pelos seus colegas bilionários e, mais concretamente, a sua ex-mulher.

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