Na cidade

Coração de D. Pedro IV vai mesmo viajar para o Brasil

Rui Moreira confirmou que foi dada a autorização para a cedência temporária. A viagem só acontecerá se fora garantida a segurança da relíquia.

Está decidido: o coração de D. Pedro IV irá mesmo viajar até ao Brasil para ser exibido nas comemorações do bicentenário da independência. A decisão, que vem sendo debatida há mais de um mês, teve agora o sim de Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto.

É, contudo, uma decisão dada de forma condicional. A preciosa relíquia guardada pela cidade terá, por exemplo, que viajar num “transporte em ambiente pressurizado”. A autorização dada pela autarquia — e pela Irmandade da Lapa, da Igreja que guarda o tesouro — teve que esperar por uma avaliação científica do Instituto de Medicina Legal do Porto. Temia-se que a viagem pudesse danificar, de forma irremediável, a já de si frágil relíquia. É, afinal, um coração que se mantém conservado há quase dois séculos.

O estudo envolveu também investigadores da Universidade do Porto, com vários especialistas das áreas da genética e da anatomia. “O relatório da perícia ainda não está totalmente concluído, mas já nos foi assegurado que o coração poderá ser transladado temporariamente para o Brasil”, confirmou Rui Moreira esta quarta-feira, 22 de junho.

Este foi um episódio complicado que teve o seu início há vários meses, quando o embaixador brasileiro George Prata confirmou a oficialização do pedido a Portugal para a trasladação do coração de D. Pedro, o monarca que declarou a independência do Brasil em 1822. Símbolo da autonomia do país, tem também em Portugal uma enorme legião de fãs, desde que foi o líder da resistência do Porto aos absolutistas. Assim, a seu pedido, o coração permaneceu na cidade — e os seu corpo foi levado para o país que ajudou a tornar independente.

O processo, do qual Pratas faz parte, como coordenador das festividades, terá começado semanas antes, com contactos informais entre as autoridades brasileiras, a autarquia portuense e a Irmandade de Nossa Senhora da Lapa.

“Todos têm manifestado muito boa vontade e estão prontos a examinar com muita atenção o pedido brasileiro mas a Irmandade pediu uma avaliação técnica à Faculdade de Medicina do Porto para saber das verdadeiras condições do coração e se ele pode ser efetivamente trasladado temporariamente para o Brasil sem sofrer danos”, explicou à “Lusa”. A análise científica era, assim, uma “condição prévia”, conforme foi referido por Maria Rebelo, provedora da Irmandade da Lapa.

Pedido semelhante havia sido feito há cerca de dez anos, quando, segundo o “Diário de Notícias”, cientistas brasileiros terão pedido acesso ao coração para fazer uma biópsia. A análise faria parte de um estudo para averiguar se a causa de morte do monarca foi mesmo tuberculose. O pedido foi recusado.

“A Irmandade é apenas fiel depositária da relíquia, a sua guardiã. Mas D. Pedro na verdade doou o seu coração à cidade e não especificamente à Irmandade. Portanto, é a cidade que tem de decidir”, explicou, antes do anúncio oficial da decisão.

Os receios não se prenderão apenas e só com a condição frágil do coração, que hoje é mantido mergulhado numa solução líquida que o permite manter-se no melhor estado de conversação possível. Miguel Gonçalves Mendes, cineasta responsável por “José e Pilar”, que foi um dos últimos a ver o coração e a gravá-lo para o filme “O Sentido da Vida”, revelou à imprensa brasileira que existem outros receios.

“Tenho medo que percam o coração”, diz à “Tab”. Entendo o simbolismo [da trasladação], mas o [governo brasileiro] é um governo que deixa incendiar o Museu Nacional, a Cinemateca, que não cuida dos seus bens mais preciosos.”

Do lado das autoridades oficiais, a postura é mais cordial e tudo indica que o pedido brasileiro será cumprido, embora com várias condições e exigências que garantam a segurança e integridade de um dos maiores tesouros da cidade do Porto.

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