Sobrevivi à Web Summit. Depois de um dia rodeado de óculos de realidade virtual, robôs de cabelo violeta e posso atestar que aquilo é uma loucura, é o Festival Boom dos nerds! Música alta, stands cheios de luzes a piscar e tal como no Boom também vemos unicórnios. O problema é que quando voltamos à realidade ficamos uma semana com um cheiro estranho no cabelo… É aquele cheiro a networking, que é um misto de vinagre balsâmico e bitcoin.
O mais estranho desta experiência é que ao final do dia, quando metemos a mão no bolso das calças temos um molho de cartões de visita, de centenas de pessoas que não nos lembramos como conhecemos, entre eles de um tal de Adhvik Kulkarni, Hedge Fund Manager da Happy Cunt Technologies. E o pior é quando vais ao Linkedin procurar o que raio é a Happy Cunt Technologies e descobres que tu és o novo CEO da Happy Cunt Technologies e investiste todas as poupanças numa Start Up de Madagáscar…É uma loucura a Web Summit.
O Governo prevê que os participantes gastem mais de 60 milhões de euros durante os quatro dias da cimeira tecnológica, ou como o ex-chefe de gabinete de António Costa diria, quatro ou cinco caixas de vinho. Pelo Parque das Nações passaram 70 mil participantes de mais de 150 países, dos quais a grande maioria pagou bilhetes que rondavam os 850€ para visitantes “normais” e os cinco mil euros para executivos. E é nestes momentos que eu penso: “porque é que eu não tive esta ideia revolucionária e original de fazer um evento onde pessoas vão falar para outras pessoas sobre coisas, com o patrocínio de empresas e com bilhetes que custam o ordenado anual do trabalhador médio dessas mesmas empresas? Porquê?!
Crédito total ao Paddy Cosgrave, fundador da Web Summit que, apesar de este ano ter caído em desgraça, é um exemplo claríssimo de um miúdo que deve ter sido vítima de bullying na escola e passado uns anos era o maior. Estou a imaginá-lo em 1996, na EB 2,3 de Dublin a ser empurrado contra um cacifo: “You like computers, do you Paddy? Let ‘s see if you like it when I shove this floppy disc up your…” Portanto, que isto sirva de lição para todos os bullies que andam por aí a ameaçar os mais frágeis: nunca se avalia um totó pelos óculos.
Desde aglomerados de pessoas, náufragos em ilhas de tomadas para conseguirem carregar os seus dispositivos eletrónicos, até ao total oposto — um senhor asiático sentado tranquilamente a fazer exercícios de matemática num pequeno livro alheio a toda a agitação ao seu redor — a Web Summit é um universo de várias galáxias, gente de todas as latitudes e origens diversas, mas todos com o mesmo propósito: fazer um post no instagram a mostrar que foram à Web Summit.
É a ditadura dos likes que, segundo a já veterana oradora Cristina Ferreira que pela quarta vez subiu ao palco, faz com que sejamos, “quase todos, dependentes das redes sociais”. “Vivemos tempos de liberdade condicionada, com medo de sermos nós próprios.” A diretora da TVI foi desta vez falar sobre Inteligência Artificial, a temática central da edição deste ano. E o que é que Cristina sabe sobre inteligência artificial? Segundo a própria, “nada”. “Não quero saber o que é e de que forma pode ser usada porque me assusta.”
Percebo perfeitamente, é a mesma reação que eu tenho quando alguém me diz que eu devia comprar uma Bimby. E é também por isso que evito dar palestras a falar sobre robôs de cozinha. Já Cristina, não está nem aí e por isso brindou a plateia com uma palestra sobre IA. Na verdade, não foi sobre IA, mas sim sobre I.A, e aqui o ponto no meio faz toda a diferença. “Estamos a usar a nossa inteligência para nos darmos a conhecer uns aos outros ou estamos a ser artificiais?”, questiona.
É uma ótima questão e desde logo demonstra que Cristina Ferreira é uma pessoa inteligente porque conseguiu criar um ângulo de abordagem para um tema que não domina. Aliás vou passar a usar esta estratégia quando os meus filhos me pedirem para explicar o que são buracos negros ou como é que se fazem bebés. Cristina contou também que foi ao ChatGPT e pediu para escrever “um discurso sobre IA, com as desvantagens e os perigos”, mas ficou bastante desiludida com o resultado. Não por causa do texto em si, mas porque finalmente percebeu que os guiões das galas da TVI eram escritas por um bot. Enfim, a Web Summit foi novamente um sucesso e para o ano cá estará, de novo, cheia de unicórnios e startups incríveis que vão durar três meses.








