Na cidade

De Braga à Serra do Gerês. Não existe verde igual ao do norte de Portugal

A rubrica "Aveleda Acompanha" termina com uma crónica sobre tudo o que não pode perder nesta bela região do nosso País.
Desfrute de paisagens a perder de vista

Isabel Saldanha continua a sua aventura pelo País com a rubrica da NiT, “Aveleda Acompanha“, uma iniciativa que pretende levar os leitores a conhecer os recantos mais bonitos de Portugal. Do Algarve à Costa Vicentina, a fotógrafa passou ainda pela Beira Baixa e o Alto Alentejo, sempre com um registo em imagens dos melhores locais para comer e visitar. Para terminar, a fotógrafa leva-nos a Braga e ao Gerês, onde não faltam petiscos bem portugueses para suportar as caminhadas.

Lamento, mas não se pode dizer que se conhece Portugal sem ir a Braga e ao Gerês. E que bela obra que Deus aqui fez.

Com mais de dois mil anos de história, Braga é a cidade mais antiga de Portugal e a capital da região do Minho. A 40 minutos da cidade do Porto, vale bem o saltinho para conhecer e homenagear a nobre e encantadora cidade, que acolhe o túmulo do nosso primeiro rei. O estimado Afonso Henriques está sepultado na Sé de Braga, a catedral mais antiga de Portugal (o bilhete para entrar custa 2€). Não é a toa que se diz de algo muito velho “é mais antigo do que a Sé de Braga”.

Mas Braga está cheio de imperdíveis, do Santuário de Nossa Senhora do Sameiro até à Praça da República. E para além dos monumentos, as gentes, os jardins cuidados, as ruas falantes, as serras que a ladeiam e a gastronomia.

Não tragam roupa apertada, que aqui as digestões querem-se lentas e a barriga solta como o pensamento. Aqui não há frechas, há aberturas, não há aperitivos, há banquetes, não há pessoas, há gentes. Vir a Braga é quebrar, com gosto, o jejum intermitente. Um passeio a pé até ao Bom Jesus por cada dose de bacalhau à Narcisa, arroz de pica no chão, papas de sarrabulho, cabrito assado à moda de Braga e um não menos calórico pudim abade de priscos.

Não podia a imponência de Braga ser menos imponente na mesa, nas doses e nas ofertas. Bracara Augusta! E já sabiam os romanos que aqui se comeria e se beberia sempre bem. Afinal de contas é a nossa Roma portuguesa. Por isso, conheçam, passeiem, bebam, lambuzem-se e depois subam até este imponente monumento nacional, o mosteiro de Bom Jesus de Braga, e mostrem a Deus e aos santos que ainda têm pernas para as melhores procissões.

A subir não são os santos que ajudam, é o funicular

Este santuário vê a cidade do alto da sua colina. Os seus mais de 500 degraus da escadaria barroca, ornamentada por múltiplas fontes temáticas, dão acesso ao edifício de estilo neoclássico que recompensa os que até ali sobem. Em alternativa, façam aqui como a preguiçosa, que não conseguiu levar o pijama de sobremesas fartas a subir degraus e decidiu-se por apanhar o elevador (o bilhete de ida custa 1,5€; se for de ida e volta, fica por 2,5€). Mas também não é um elevador qualquer, é um funicular movido a água. Que aqui em Braga é tudo engenharia e atracção. Não subi a pé, nem desci sentada.

Quis dar descanso às horas passeando-me pelo jardim. Quis beber um copo de verde e tomar notas no meu caderno. Quis ver como a cidade se faz longe de mim. Sentir-me invadida pelas cores do pôr do sol e olhar para as famílias que passeiam, tão transeuntes quanto eu. E ficar, ficar, até ter fome outra vez. E planear o dia de amanhã, com a confiança de quem tem absoluto direito ao que se segue.

A primeira vez que cheguei a Braga foi de comboio, com os meus pais, há 30 anos. Desde então venho a Braga sempre que o trajeto me dá a oportunidade e já ensaiei desculpas só para vir aqui, aconchegar-me neste norte acolhedor, entre a cidade velha e a serra imensa.

Mergulhe nas águas e no verde da serra

E de barriga cheia de cultura e vistas, já a caminho da serra do Gerês, parem para abastecer no Castelo Restaurante, no cocuruto mais alto da Póvoa de Lanhoso. E peçam o que quiserem, à confiança. Estão sentados em cima da maior rocha granítica da Península Ibérica e este castelo que veem dizem que foi onde o nosso primogénito real prendeu a mãe. Portanto, um excelente lugar de peregrinação familiar.

E depois desta imersão histórica, do bife fabuloso, do vinho e das pataniscas, depois de uma sesta na pedra, aventurem-se na serra do Gerês. E aqui é buffet. Atirem-se sem medos, inspirem todo o verde desta serra e mergulhem nas águas. O Gerês não se vê todo de uma vez. São 70 mil hectares, quatro serras e foi a primeira área protegida de Portugal. Desde 2009 que é Reserva Mundial da Biosfera, pelas suas riquezas florestais, importância dos ecossistemas e elevado número de espécies endémicas.

Aqui há floresta, há espigueiros, há fojos (grandes estruturas em pedra que serviam como armadilhas para lobos), há castelos (do Lindoso, de Montalegre e de Castro Laboreiro), há ruínas, castros e ermidas, albufeiras e barragens, gravuras e necrópoles. Do medieval mais puro à melhor das fotossínteses.

Aqui o tempo não para mas trava a fundo para desfrutar dos trilhos que guardam sempre um final feliz, uma curva inesperada, um pedaço de verde colocado só para ti. Se é preciso ter estômago para digerir Braga, posso dizer que é preciso ter alma para abraçar o Gerês. Aqui não há guias, a serra conta a história das culturas, dos caminhos e dos pastores. E quando há seca, pedimos sempre que venha água em abundância para alimentar este verde e estas cascatas translúcidas inscritas na pedra granítica, mas recebemos com júbilo as ruínas que o sol desvenda e as vilas que se emergem da terra.

E quando se vê a aldeia de Vilarinho das Furnas ficamos arrepiados, porque a barragem afogou e a terra traz à superfície. E nesse imenso conjunto de casas e ruas, nós adivinhamos a vida. E é tão sepulcral quanto marciano, e tão silencioso e encantador, como pungente. Porque aqui habitou gente. E tudo aqui é uma história, mesmo quando estás a boiar de barriga para o ar, quando trilhas a floresta, quando passeias pela monumentalidade das obras dos homens, quando te delicias com um cozido, ou decides abandonar-te numa manta a beber verde do verde que tudo é.

E vão até ao Parque das Termas, uma espécie de parque da cidade mas em ponto pequeno. Para quem gosta de árvores é uma experiência a não perder, com uma boa variedade de espécies espalhadas por uma área que se visita tranquilamente em cerca de 40 minutos. São razões mais do que suficientes para pagar o 1€ que custa a entrada. Se passar uns dias no Gerês, não perca a experiência de visitar o parque.

E se aqui estás não deves perder: Trilho do Poço Azul, Miradouro das Rocas, conhecer a Vila do Gerês, a Aldeia de Vilarinho das Furnas (a antiga vila submersa pela construção da barragem), o São Bento da Porta Aberta, visitar a Cascata da Portela do Homem, mergulhar na Barragem da Caniçada, ver os garranos (cavalos selvagens da serra do Gerês, comer o cozido tradicional das Terras de Bouro e meter conversa com as pessoas e deixar-se viajar nas histórias de quem habita os lugares com o coração. E o resto é o que nem sobra no prato porque é tudo memória e vontade de repetir. São 70 mil hectares, de certeza que viu tudo?

Carregue na galeria para descobrir melhor alguns destes lugares.

Este artigo foi escrito em parceria com a Aveleda.

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