Na cidade

De Viana do Castelo ao Algarve: Sérgio vai fazer toda a costa portuguesa a remar

Começou a praticar remo por obrigação e agora prepara-se para embarcar numa das maiores aventuras da sua vida.
Vão ser 943 quilómetros a remar (ou mais).

Por volta dos 10 anos, Sérgio Torres era “forte, gordinho e tinha asma”. Era miúdo, mas lembra-se perfeitamente daquilo que o seu médico disse ao pai: “Ou metes este rapaz a fazer remo, ou natação, ou vai ter problemas de saúde para toda a vida”.

O progenitor decidiu incentivá-lo a ir para o remo. Completamente contrariado, inscreveu-se no Clube Náutico de Viana (agora extinto), sem saber que seria uma das melhores decisões da sua vida. “Em cinco meses comecei logo a notar uma diferença incrível e consegui emagrecer. No princípio era apenas por lazer, andava lá no meio do rio, mas depois comecei a ganhar gosto por aquilo”, conta à NiT o vianense de 35 anos. 

Nunca foi “nenhum Cristiano Ronaldo do remo”, admite. Para Sérgio, o mais importante sempre foi “a satisfação pessoal” de saber que a prática regular tinha um impacto positivo na sua saúde. Deixou de precisar de bombas de asma e aquele “miúdo gordinho” passou a ter “uma vida completamente normal”. 

E assim foi até aos 18 anos, altura em que se afastou temporariamente da modalidade quando foi estudar para Ponte de Lima. Depois veio o trabalho e os filhos (de nove e cinco anos) e o remo acabou por ficar de lado. 

“Dediquei a minha vida ao trabalho até aos 33 anos, mas a certa altura percebi que a minha forma física não era a melhor. Tinha de voltar às raízes, regressar onde já tinha sido feliz”, recorda. Ainda trabalhava como gestor comercial quando decidiu regressar ao remo, juntando-se, desta vez, ao clube Viana Remadores do Lima.

Tal como da primeira vez, o homem que “não conseguia subir escadas sem se sentir casado”, em pouco tempo recuperou a forma física. Voltou a jogar futebol por lazer e os amigos até lhe diziam que “parecia que tinha um novo pulmão”. 

No meio disto tudo, só havia um problema: era demasiado novo para ser veterano e demasiado velho para ser sénior. “Estava no limbo, na chamada crise de meia-idade. Não podia ajudar nenhuma das equipas, então decidi fazer algo distinto”, revela.

Influenciado por pessoas “que fazem coisas fora de caixa”, também Sérgio se quis juntar ao clube de aventureiros — e prepara-se para percorrer os 943 quilómetros de costa portuguesa num barco a remos. “O desafio surgiu porque trabalhava para uma multinacional, mas decidi colocar um término no contrato. Em breve vou abraçar um novo projeto, mas nesse interregno decidi que queria tirar algum tempo para fazer algo diferente”, explica. 

A ideia começou a ser pensada em fevereiro, altura em que se começou a preparar para a aventura que se avizinha. Nas provas que costuma participar, costuma fazer, no máximo, quatro quilómetros. Agora, vai remar muito mais do que isso, num barco C1x Kaito, com 5,8 metros de comprimento, 80 centímetros de largura, e cerca de 50 centímetros de altura. “É uma espécie de prancha de surf longboard”, diz.

A partida vai depender das condições atmosféricas, mas Sérgio está a apontar para sair de Viana do Castelo entre os dias 27 e 29 de maio. Depois, se tudo correr bem, “no mundo das maravilhas”, será cerca de 26 dias até chegar a Vila Real de Santo António, um tempo que pode estender-se até um mês e meio.

“Vai funcionar por etapas, de outra forma seria difícil fazer esta aventura. Vou depender muito dos clubes de várias cidades, que me vão receber e apoiar na questão das dormidas. Alguns vão dar-me colchões para dormir, mas também vou levar um saco-cama comigo, que espero que não se molhe”, confessa.

Em média, vai remar 50 quilómetros por dia e a ideia é fazê-los todos de seguida, mas é o mar quem manda. “Se vir que as condições não estão perfeitas ou que preciso de fazer uma pausa, faço uma paragem. Vou ter apoio em terra, tanto do meu treinador como de outros clubes com quem já contactei”, explica.

Agora que já se comprometeu com o desafio, sabe que “não há volta a dar”, mas os medos estão lá. Não é nenhum “herói do mar” e todos os cuidados são poucos. Uns dos maiores receios são, claro, as condições climatéricas. “O norte tem ventos que aí no sul não existem, os chamados ventos galegos, que são terríveis. Espero que a partir do centro deixe de contar isso para ser uma viagem mais tranquila”, confessa.

O barco virar em pleno mar também é um cenário assustador. “Tenho receio de não ser encontrado por nenhuma equipa de resgate ou morrer de hipotermia. Espero que não aconteça nada disto, até porque a aventura será sempre com a costa à vista. Quando deixar de a ver, tento virar o barco o mais rapidamente possível”, revela Sérgio. 

Por ser um desporto exigente a nível físico, as lesões musculares também são uma possibilidade. Ou, pior ainda, partir um remo a meio do caminho. É algo raro e difícil, mas não há impossíveis. “A última vez que parti um foi durante os treinos, numa zona de rebentação, quando estava já a desembarcar. Ainda ponderei ir com uns remos de substituição, mas em princípio não vou levar, uma vez que implicaria mais peso no barco”, diz.

A primeira etapa será de Viana do Castelo a Vila do Conde e, a partir daí, continuará a fazer paragens estratégicas ao longo da costa, como em Oeiras, por exemplo, até chegar a Vila Real de Santo António. Aí, regressará ao norte de carro, mas voltará ao mar em Caminha, para chegar a Viana do Castelo a remar. 

Mais do que um desafio pessoal, Sérgio quer alertar para as dificuldades dos clubes que praticam modalidades menos apoiadas. Por esse motivo, acrescentou uma missão solidária à aventura, em que as verbas angariadas serão revertidas para o Viana Remadores de Lima. “Tenho plena noção de que estes clubes, no geral, recebem muito pouco apoio financeiro das autarquias. Isso mexe comigo, até porque o meu próprio clube precisa neste momento de um par de remos, que podem custar mais de 400€”, sublinha.

Os apoios podem ser feitos através do MBWay (913 725 003) ou transferências bancárias para o IBAN LT963250042927175196. A aventura a remar poderá ser acompanhada no Facebook e Instagram.

 

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