Na cidade

Deathclean: eles “limpam locais de mortes” e mostram tudo nas redes sociais

A estratégia da empresa portuguesa aposta no choque para reforçar a importância do trabalho de limpeza destes locais, que até aqui era feito por amadores.
Alguém tem que fazer o trabalho

O odor da morte “é um cheiro muito singular, é único. Quando se sente a primeira vez, a pessoa grava na memória esse momento”, explica Pedro Badoni à NiT. “Como tempo habituamo-nos. Pode parecer mórbido, mas é a realidade.”

Quem ainda não se habituou foram os milhares de condutores que, desde o início de julho, começaram a notar e a comentar os invulgares painéis publicitários que estão à entrada de Lisboa, na IC19, na A2, na A5 e brevemente junto ao aeroporto. “Limpamos locais de morte”, pode ler-se ao lado da silhueta de um cadáver.

Um dos condutores foi o deputado do PSD Duarte Marques que partilhou a curiosa imagem no Twitter. “Coisas que eu não consigo perceber”, escreveu. “Alguém tem uma explicação para isto?”

Badoni, empresário de 41 anos, tinha apenas 28 quando criou a Deathclean, a empresa por detrás dos anúncios que tanta curiosidade têm despertado. Ligado desde novo à Proteção Civil, percebeu em 2008 que havia um nicho por explorar — e o clique deu-se quando assistiu a “Cleaner”, filme no qual Samuel L. Jackson tem como profissão a limpeza de cenas de crime.

A Deathclean faz isso e muito mais. “Somos a única empresa nacional certificada internacionalmente para intervir em locais contaminados de risco biológico”, conta à NiT. Trocado por miúdos: são eles quem têm o conhecimento e o equipamento para limpar devidamente locais com resíduos biológicos. Falamos, por exemplo, de sangue e outros fluídos corporais, que entram em decomposição e podem tornar-se num risco para a saúde.

Mas há mais: operam em cenários de sujidade extrema, como é o caso de habitações atulhadas em lixo por acumuladores compulsivos. Para Badoni, nenhum trabalho é demasiado complicado, apesar de reconhecer que deveriam ter mais trabalho. Muitos ainda são deixados nas mãos de pessoas inexperientes, com todos os riscos que isso acarreta.

“Ainda hoje, muitos destes serviços são feitos por familiares das vítimas, por empresas domésticas, por pessoas que, pela lei, não estão capacitadas para o fazer”, explica.

Pedro Badoni é o fundador da empresa

O problema começa logo na comunicação, na sensibilização das pessoas para o perigo que pode advir de uma limpeza mal feita. Depois, há outro problema: “Podemos chegar a cinco milhões de portugueses e sensibilizá-los, mas não sabemos se alguma vez eles vão precisar dos nossos serviços.”

Pedro Badoni decidiu, então, apostar numa forma diferente de comunicar, de dar nas vistas e colocar o nome da Deathclean na memória das pessoas para colher frutos mais tarde. Os cartazes surtiram o efeito desejado. No espaço de um mês, o site da empresa recebeu dez vezes mais visitas.

Em 2008, por altura da criação da empresa, o cenário era bem diferente. “Cada vez que tocava o telefone era uma festa”, recorda Badoni, que fundou a Deathclean com José Guilherme, colega que abandonou o projeto em 2014.

No primeiro ano receberam apenas três trabalhos, duas desinfeções de quartos de hotel onde tinham estado infetados com H1N1 e tuberculose. Ao terceiro, chegou o desafio pelo qual esperavam, um corpo em decomposição na Póvoa de Santa Iria. O ano seguinte não foi melhor: fizeram mais três trabalhos.

As primeiras formações foram feitas à distância, enquanto recolhiam valiosas dicas de profissionais norte-americanos, onde o setor da limpeza de cenas de crime tem já décadas de experiência. Eventualmente, o número de trabalhos aumentou, a capacidade financeira também e hoje são uma das empresas com mais certificações internacionais em todo o mundo.

“Há recrutas que se vão embora ao fim de três ou quatro meses (…) “É um trabalho muito desgastante, muitas horas, trabalhar de fato. Quando percebem, a maioria desiste.”

Hoje, a Deathclean tem cerca de 20 funcionários, entre técnicos a tempo inteiro e outros a part-time. O telefone, esse toca mais vezes, mas é imprevisível.

“Nos últimos dois anos temos feito uma média de 100 trabalhos, o que por vezes não dá dois por semana (…) Há dias em que o telefone toca três e quatro vezes, noutros não chega a tocar. Por isso trabalhamos 24 horas por dia, de domingo a domingo. O nosso cliente não é fixo”, nota, apesar de reconhecer que vão surgindo cada vez mais trabalhos regulares. “Fazemos algumas desinfeções de funerárias e de arcas em faculdades de Medicina.”

Também a formação da equipa é incerta. Além de ser quase impossível contratar técnicos com experiência, dada a raridade deste tipo de empresas, “há recrutas que se vão embora ao fim de três ou quatro meses”. “Não têm a noção do nosso trabalho e só quando é que vão efetivamente ao terreno é que percebem”, explica. “É um trabalho muito desgastante, muitas horas, trabalhar de fato. Quando percebem, a maioria desiste.”

O trabalho sujo que alguém tem de fazer

Ao fim de dez anos no terreno, os cenários sangrentos de homicídios tornaram-se quase rotineiros. São os mais invulgares que agora lhe ficam na memória, pela novidade e também pelo desafio. Foi o caso de uma chamada que recebeu em 2016.

“Contactaram-nos para saber se éramos capazes de desinfetar e remover a matéria orgânica — fragmentos de duas pessoas — de uma aeronave ligeira”, recorda. As vítimas ficaram encarceradas e, antes das perícias técnicas, era necessário garantir que o local do acidente ficava limpo e desinfetado. O desafio passava por completar o trabalho num ambiente completamente novo e sem perturbar a investigação.

“É um trabalho muito técnico. Temos que separar as peças, assinalar onde cortamos a chapa, para que percebam se foi um corte nosso ou provocado pelo acidente”, conta sobre o trabalho que demorou três dias a ser feito. “A primeira vez foi desafiante porque não é algo que normalmente surja.” Entretanto, já voltaram a fazer a limpeza de uma avioneta.

Igualmente desafiante foi o caso que lhes caiu nas mãos em 2019, quando a queda de um elevador na sede do BPI, em Lisboa, matou um técnico. “Chamaram-nos para limpar a cabine, que estava contaminada e que tivemos que tirar do fosso para fazer a desinfeção. Os mais difíceis são esses desafios fora da rotina que por vezes encontramos, mas ir a casa de um acumulador ou a uma cena de homicídio também é difícil porque nunca sabemos o que vamos encontrar”, nota. “Rezamos sempre para que não seja uma casa com muito mobiliário, porque isso por norma dá uma grande trabalheira (risos).”

O trabalho é meticuloso porque obriga a remover todo e qualquer vestígio de resíduos orgânicos. Se estiverem perante um homicídio com arma de fogo, é natural que o disparo faça espalhar pela divisão pequenas gotículas que terão que encontrar. Quanto mais objetos e obstáculos, mais difícil será a tarefa.

“O pior que tivemos foi numa garagem. Foi algo dantesco, demorámos duas semanas a limpar tudo”, explica Pedro Badoni. “O cliente não vê, mas nos vemos gotas em todo o lado e temos que tirar tudo. Acabamos completamente estourados porque não é só a parte física dos fatos, limpar com projetores também começa a afetar a visão ao fim de algumas horas. A parte psicológica também é difícil.”

Em cenários de muito sangue e fluídos, o trabalho é redobrado e pode obrigar a remover soalho, madeiras, móveis. Tudo para limpar locais de potenciais infiltrações que, se não forem desinfetados, nunca resolverão o problema dos odores, dos fungos, bactérias.

Menos gráficos mas não menos trabalhosos são os (muitos) casos de acumulação compulsiva que enfrentam. “Requer mais recursos logísticos e tempo, às vezes demoramos semanas a limpar tudo.”

Houve um “particularmente difícil”, numa das ruas estreias da zona do Saldanha, em Lisboa. “Tivemos que reservar lugares de estacionamento para colocarmos contentores de 36 metros cúbicos, os maiores — os das obras costumam ter, por exemplo, cerca de seis metros cúbicos”, conta. O lixo era tanto que não era possível transportá-lo pelo elevador. Foi necessário recorrer a um elevador de mudanças para limpar o apartamento num quarto piso.

Os casos de acumulação compulsiva são sempre complicados

“São sempre desastres logísticos”, explica do cenário que encontrou, com comida e objetos acumulados ao longo de anos, empilhados por toda a casa. Contas feitas, foram retiradas 15 toneladas de lixo. “O peso era tanto que o chão da casa estava torto.”

Nem todos os casos são casos dramáticos. “Há uns anos recebemos uma chamada de uma senhora que queria que lhe limpássemos o carro, porque foi de férias e deixou um frango no interior”, recorda. Numa ida às compras, um dos sacos virou e o frango ficou escondido. Duas semanas depois, a decomposição fez o seu trabalho e o odor era nauseabundo.

“O pior é que já o tinha levado a uma limpeza de carros e os estofos foram limpos à pressão, o que fez entranhar os fluídos para dentro do tecido. Para resolvermos completamente o problema tínhamos que rasgar o tecido, que a dona não quis. Mas ficou 99,9% resolvido.”

Voltaram a cruzar-se com um frango, num caso de uma morte súbita. “Foi o caso de um senhor que faleceu em cima de uma galinha de estimação e acabou por matá-la. Removeram o corpo e deixaram o resto. Duas semanas depois, estava tudo cheio de larvas”, recorda. “Chamaram-nos para tratar daquilo e até pensei que os resíduos eram do senhor, mas depois percebemos que era um frango e um familiar confirmou a história.”

Sobre o peso psicológico de trabalhar em cenários de trauma, Badoni admite que, ao contrário do que seria de esperar, o passar dos anos tornaram-no mais suscetível. “Vamos envelhecendo, vamos tendo filhos, ficamos mais tocados, mais sensibilizados, mas o trabalho não deixa de ser feito”, frisa.

“Temos sentimentos como outros seres humanos ao assistir a situações infelizes, também nos comovemos”, conta, apesar de sublinhar que procuram sempre obter apenas as informações estritamente necessárias de cada caso para fazer o trabalho que tem que fazer.

Não sabemos quem são as pessoas, as vítimas. Só temos que saber o que aconteceu, quando aconteceu e onde aconteceu. Não nos interessam razões dos crimes, idades, sexo, nada. O que queremos é apagar a memória daquele evento o mais rapidamente possível.”

Apesar da importância e inevitabilidade do trabalho que a Deathclean faz, são poucas as pessoas que reconhecem a empresa, a marca e a sua função. A funcionarem num pequeno nicho de mercado, garantem que têm que ser cada vez mais disruptivos para poderem crescer.

“Temos que ser algo fora da caixa”, confirma o fundador da empresa que, no final de 2020, apostou na nova rede social, o TikTok, como forma de promover os seus serviços. No feed há um pouco de tudo: fotos de pisos sangrentos, casas com lixo até ao teto, vídeos dos técnicos a removerem litros de sangue já empastado.

A empresa tem cerca de 20 funcionários

A investida na rede social agradou a alguns, não tanto a outros. A própria rede social obrigou a Deathclean a remover alguns dos vídeos mais gráficos. A estratégia, contudo, foi ponderada.

“Ponderamos tudo, se eventualmente a mensagem chegaria até 100 pessoas, poderia haver quem não nos quisesse contactar por medo de poderem ver a sua casa ser partilhada”, explica. “O que a maioria não sabe é que só partilhamos imagens com autorização, não divulgamos locais e a maioria do que partilhamos são casos antigos.”

“A verdade e que aquilo é a realidade”, atira. “As pessoas têm que ver o antes e o depois, têm que saber o que é um local contaminado, têm que saber que a morte por vezes deixa aquelas marcas.”

Apesar da dificuldade em recolherem imagens — os técnicos não podem usar telemóveis e, quando é necessário tirar fotos ou fazer vídeos, é necessário levar um elemento extra —, não falta material nos feeds sociais da Deathclean.

Do outro lado do ecrã, é fácil encontrar quem se deixe impressionar pelas imagens gráficas de resíduos em decomposição, larvas, baratas, lixo, sangue. Mais perturbador serão, talvez, as cenas de crime, os objetos deixados pela vítima, uma vida que parou. Num dos casos, um lavatório alagado em sangue parece ter interrompido um corte de barba, uma lâmina pousada na pia, uma lata de espuma ainda aberta e uma história que não conhecemos, mas que a nossa mente faz o favor de preencher com os mais horrendos pormenores. Esse impacto faz parte da estratégia.

“Temos que pensar fora da caixa, por muito que possamos ser julgados”, explica Pedro Badoni. “Queremos que a empresa cresça e se estivermos escondidos atrás do pano, ninguém vai saber de nós. O choque é uma das formas que temos de nos mostrarmos.”

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