Na cidade

Debaixo de água há 30 anos, a seca extrema fez emergir esta aldeia na fronteira

Aceredo ficou submersa devido à barragem do Alto-Lindoso. As águas baixaram em novembro e transformou-se em ponto turístico.
As ruínas da antiga aldeia de Aceredo

Há precisamente 30 anos alguns habitantes da pequena aldeia galega de Aceredo juntaram-se na fronteira portuguesa para uma manifestação. Nas suas antigas casas erguiam-se faixas de protesto: “estes povos e esta igreja não se rendem. Juntos até à morte.” Poucos dias depois, a barragem do lado português do rio Lima encerrava as comportas e o nível das águas subia. E subiu até cumprir o prometido: submergir por completo as velhas casas da aldeia.

Duas décadas depois, o nível da água nunca esteve tão baixo. Os muros das casas, os carros e os objetos deixados para trás voltam a estar visíveis e, com esta relíquia parada no tempo agora em exposição, muitos são os que por lá passam para matar a curiosidade. E, claro, tirar um par de fotografias nesta paisagem desolada e única.

Não é a primeira vez que nestas três últimas décadas, as águas do Lima descobrem a localidade submersa em 1992 por causa da barragem do Alto-Lindoso. Mas poucos se recordam de uma seca semelhante à atual, que permitiu desvendar quase por completo a aldeia.

É precisamente o que explicam os locais ao jornal espanhol “La Voz de Galicia” sobre Aceredo, que se deixou de ser apenas uma recordação triste do passado e se tornou num dos pontos de visita da região. “É brutal a quantidade de gente que passa pelo local, sobretudo ao fim de semana, só para ver Aceredo”, explica María del Carmen Yáñez, a autarca do concelho de Lobios.

Com a capacidade de armazenamento da barragem explorada pela EDP a menos de 30 por cento, a albufeira encolheu e a “Atlântida galega” mantém-se à tona, situação que se mantém há pelo menos três meses. Um fenómeno que atesta a preocupante falta de chuva deste inverno, que está na origem da grave situação de seca que a região atravessa.

Não é sequer um fenómeno local. Estima-se que, atualmente, em Portugal pelo menos 14 albufeiras estão com capacidades abaixo dos 40 por cento. De acordo com a Agência Portuguesa do Ambiente, “não existe qualquer risco de garantia no abastecimento público”, embora admita que existe alguma apreensão por “ainda não ter ocorrido precipitação significativa que permita repor os níveis de armazenamento após o verão”, revela ao “Jornal de Notícias”.

Entretanto, na fronteira do concelho de Ponte da Barca com Espanha, centenas de curiosos percorrem as abandonadas ruas de Aceredo, ao mesmo tempo que redescobrem um conflito polémico com três décadas de história.

Um pormenor do cenário desolador da aldeia de Aceredo.

A barragem foi projetada em 1983 e aos moradores de Aceredo — mas também de outras localidades que foram submersas, como Buscalque, O Bao, A Reloeira e Lantemil — foram prometidos pagamentos compensatórios pelo abandono das suas casas. Como quase sempre acontece, as indemnizações chegaram tarde, a más horas e com valores bastante abaixo do acordado, ou pelo menos foi essa a acusação feita pelos moradores.

À medida que a construção terminava e o dia da subida das águas se aproximava, também os ânimos se foram exaltando. A igreja local, construída no século XVIII, tornou-se o centro de toda a polémica, com muitos a exigirem o seu salvamento. Foi o que aconteceu: foi desmontada pedra por pedra e reconstruida na localidade de Manín, a poucos quilómetros de distância. Curiosidade: esta não foi sequer a primeira vez que o edifício foi trasladado, já que havia sido transportado precisamente de Manín para Aceredo. 

Meses antes, o mesmo grupo de moradores indefetíveis organizou uma greve de fome, com o objetivo de aumentar o valor das indemnizações. O montante terá sido acordado verbalmente, conforme sublinhava então a RTP, e depois de novamente incumprido pela EDP, o espanhóis voltaram à carga. 

Mantiveram-se em vigia permanente, numa tentativa de evitar a desmontagem da igreja. Ao seu lado colocaram-se vários portugueses, moradores de aldeias vizinhas, que ajudaram a encenar o protesto na fronteira. Mas de nada valeu.

“Aquilo parecia um dilúvio. A 8 de janeiro de 1992, chovia a potes e o rio Lima estava cada vez mais cheio. A hidroelétrica fechou as comportas e a albufeira começou a encher”, recordava ao “El País”, em 2012, a antiga moradora Miriam Paz. 

Segundo o diário espanhol, vinte anos após a subida das águas, as opiniões dos antigos moradores ainda se dividiam. Uns olhavam para as indemnizações como autênticas bênçãos, outros recordam a perda das suas casas de sempre como “uma tragédia”. Foi preciso arrancar recordações de uma vida e, mais difícil ainda, desenterrar os mortos para os enterrar noutro cemitério.

As cinco aldeias galegas tinham mais de 250 habitantes. Nem todos tiveram tempo de tratar da mudança com dignidade. As localidades mais altas só viram a água chegar em maio de 1992, quase cinco meses depois do fecho das comportas.

Nas situadas a mais cotas baixas como Buscalque ou O Bao, o rio avançou de forma surpreendente. “[Quando demos conta] já tínhamos água pela cintura. Depois fez-se noite e a água encheu-se de galinhas afogadas, de gatos que queriam nadar. A Cruz Vermelha ajudou a retirar os mais velhos das casas”, recorda um morador.

O destino de Aceredo ficou decidido várias décadas antes, em 1968, ano em que os governos ditatoriais de Francisco Franco e António Salazar se reuniram para assinar um acordo de gestão das águas partilhadas. Nele terá ficado definida a construção de algumas barragens, incluindo a do Alto-Lindoso.

É precisamente esse “acordo obscuro” que foi suscitado recentemente pelo município de Lobios, que em 2009 exigiu que fosse estabelecido um imposto anual pago pelo governo espanhol à localidade, a mais afetada pela construção da barragem.

Algumas casas parecem ter ficado quase intactas.

O então autarca de Lobios, José Lamela Bautista, revelou que o direito a estas indemnizações havia sido bloqueado pelo tal “acordo obscuro” assinado entre Franco e Salazar. Um documento que estaria a impedir o município de ser compensado pela perda, não só das aldeias, mas também de alguns dos melhores terrenos de cultivo da região.

Mais: “A oscilação na cota da albufeira pode ser de mais de 10 ou 20 metros em poucas horas o que coloca em causa a segurança das embarcações”, revelava o autarca em 2009, em declarações ao “Diário de Notícias”.

A mesma surpresa revelaram os moradores das aldeias de Lobios quando, nos anos 80, se depararam com a notícia de que os acordos de Franco e Salazar iriam ser concretizados. Ninguém acreditava que isso seria possível.

De acordo com declarações da então autarca Miriam Paz, a EDP foi agindo pela calada, comprando os terrenos de forma individual. “Faziam-no individualmente e sempre de noite”, conta sobre os contratos que se focaram sobretudo “nos mais débeis”.

“Quando a EDP conseguiu 51 por cento do espaço, o Boletim Oficial do Estado publicou a expropriação forçada”, revela sobre o documento emitido a 15 de agosto de 1991.

Trinta anos depois, os ânimos estão menos exaltados e o local serve apenas de ponto de visita turístico, não só para espanhóis mas também para muitos portugueses. Apesar do movimento, a autarquia revelava, em 2017, que o ressurgimento de Aceredo e as constantes visitas não se repercutiam positivamente na economia local. E alertava para os potenciais perigos de visitar uma zona previamente submersa, frisando sobretudo que os visitantes devem evitar entrar nas casas porque são, para todos os efeitos, ruínas. 

Mais recentemente, Carmen Yáñez parece mostrar-se mais otimista em relação à seca que se abate sobre a zona desde novembro e que destapou como nunca a velha aldeia. “Temos que olhar para o lado positivo da coisa. É verdade que há uma componente nostálgica, sobretudo para os vizinhos que tiveram que deixar as suas casas, mas neste momento, Aceredo é um ponto turístico.” 

“Os turistas não vêm só ver Aceredo e depois vão-se embora. Muitos ficam por cá a comer e a visitar outras zonas do concelho.”

Carregue na galeria para ver mais imagens das ruínas de Aceredo.

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