Leonor Ribeiro tinha acabado de chegar ao Cais do Sodré, pelas 2h30, quando viu o autocarro que a levaria até casa, o 206, a ir embora. Vinha do NOS Alive, festival onde foi com uma amiga, para ver as bandas que atuavam no primeiro dia, 9 de julho.
Quando percebeu que o autocarro seguinte só chegaria passado uma hora, decidiu andar mais alguns metros, antes de pedir um TVDE, para se afastar do local onde estavam mais pessoas, e conseguir tornar a viagem “mais barata.” No entanto, quando começou a caminhar, não parou. Do Cais do Sodré foi avançando até chegar ao Marquês de Pombal, depois passou pelo Saldanha, num percurso que demorou cerca de 40 minutos, seguiu ao Campo Pequeno, chegou ao Campo Grande após mais 40 minutos, e decidiu que não iria parar até chegar a Odivelas, onde vive.
“O meu objetivo é ir do Cais a Odivelas a pé. Desejem-me sorte”, partilhou nos stories do Instagram, enquanto caminhava. “As cenas que eu faço para não pagar Uber”.
“Fiquei convencida de que conseguia simplesmente fazer o caminho todo a pé”, começa por contar à NiT a poeta e humorista, de 26 anos. Nessa noite, Leonor já tinha poupado dinheiro suficiente — o bilhete para o festival foi-lhe oferecido por uma amiga para ver Nick Cave and the Bad Seeds e Twenty One Pilots. Gastou dinheiro apenas em comida.
Enquanto caminhava até casa durante a madrugada, Leonor decidiu fazer vídeos nos stories do Instagram a contar a aventura: ir do Cais do Sodré até Odivelas.
“Originalmente estava a fazer vídeos para as minhas stories do Instagram, e impedi a conta da minha mãe de ver, porque não queria que ela entrasse em pânico”, confessa. “Vários amigos meus foram respondendo ao longo da noite. Diziam que eu era louca ou reagiam a rir.”
Leonor, que é ainda a criadora do projeto de poesia satírica “Boss Biche Poesia”, entusiasmava-se a cada quilómetro e não deixou que o cansaço vencesse. Aliás, confessa que nem teve tempo para senti-lo, tal era a adrenalina do momento.
“À medida que ia avançando, ia ficando cada vez mais entusiasmada com a ideia de fazer o caminho todo a pé”, partilha. “No ano passado, no dia do apagão, o meu irmão também fez o caminho todo das Amoreiras até Odivelas a pé. Por mais bizarro que pareça, nem é assim tão inédito na minha família.”
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A jovem só tinha 15 por cento de bateria no telemóvel, mas por sorte não precisou de usar GPS. “Fiz tudo de cabeça, o que é irónico porque sou conhecida por não ter qualquer sentido de orientação”, diz. “Guardava a bateria para fazer vídeos sempre que chegava a um novo ponto da minha jornada”.
Ao todo, esteve duas horas e meia a andar, tendo completado o percurso de entre 10 e 12 quilómetros com 19 mil passos. Chegou a casa pelas 04h46.
“Adoro correr e já tinha feito esta distância num parque. Demorei mais ou menos uma hora”, conta. “Tenho um grande gosto por cardio e a minha vida é feita de episódios insólitos; quando percebi que tinha a oportunidade de fazer isto, fiz simplesmente. Na altura só pensei nos meus amigos, que se iam rir porque já me conhecem.”
No dia seguinte, Leonor decidiu partilhar a odisseia no TikTok e no Instagram — o vídeo tornou-se viral. A jovem confessa que não estava à espera, até porque está habituada a partilhar stories sobre momentos insólitos da vida só com os amigos chegados.
Créditos de imagem de destaque: Frederico Távora.








