Foram aproximadamente 30 segundos em que quase se fez noite em Portugal. Esta quarta-feira, 12 de agosto, milhares de pessoas juntaram-se em vários pontos do País para assistir ao eclipse solar, um dos fenómenos astronómicos mais aguardados dos últimos anos.
O eclipse começou a ser visível no País por volta das 18h33, primeiro no nordeste do território, e prolongou-se até perto das 20h30, dependendo da localização. O momento mais aguardado chegou cerca de uma hora depois, perto das 19h30, quando a Lua atingiu a cobertura máxima do disco solar.
Foi no distrito de Bragança que o espetáculo atingiu outra dimensão. Uma pequena faixa do Parque Natural de Montesinho ficou no caminho da totalidade e atraiu centenas de curiosos, astrónomos e fotógrafos. Em Rio de Onor, onde muitas pessoas aguardavam desde várias horas antes com óculos especiais, telescópios e até métodos de projeção improvisados, o Sol desapareceu completamente às 19h31.
Durante cerca de 17 segundos, a aldeia ficou praticamente às escuras. A temperatura desceu, o horizonte ganhou tons alaranjados e chegaram a ser visíveis estrelas no céu. Quando a Lua cobriu totalmente o Sol, fez-se silêncio entre a multidão, seguido de aplausos. Era a primeira vez desde 1912 que um eclipse total do Sol podia ser observado a partir de Portugal continental. O próximo fenómeno deste género só voltará a acontecer no País em 2114.
A duração da totalidade variou dentro da estreita faixa abrangida pelo fenómeno. Os cerca de 26 segundos previstos correspondiam aos pontos portugueses mais favoráveis dentro dessa faixa, enquanto em Rio de Onor o período de escuridão total durou aproximadamente 17 segundos.
A dimensão do acontecimento levou mesmo à preparação de uma operação especial no distrito. Cerca de 150 militares da GNR foram mobilizados em Bragança, apoiados por drones, motas e veículos todo-o-terreno, perante o elevado número de visitantes esperado na região.
Lisboa chegou aos 94,4 por cento
No resto do País, a Lua não chegou a esconder completamente o Sol, mas o cenário também levou milhares de pessoas para jardins, miradouros, praias e outros pontos com o horizonte desimpedido. Porém, a reação foi mais de desilusão do que euforia.
Em Lisboa, o eclipse começou às 18h39 e atingiu o máximo por volta das 19h35, quando cerca de 94,4 por cento do disco solar ficou tapado. O fenómeno terminou perto das 20h28, já muito próximo do pôr do Sol.
O Jardim do Torel foi um dos pontos escolhidos para acompanhar o momento. Foram colocadas cadeiras de praia viradas para o Sol e distribuídas bebidas aos visitantes. Outros lisboetas procuraram pontos altos da cidade, enquanto o Amoreiras 360º Panoramic View preparou uma sessão especial no topo das torres.
No Miradouro da Senhora do Monte, centenas de pessoas de todas as idades juntaram-se para assistir ao fenómeno, muitas com óculos próprios para eclipses e outras recorrendo a soluções improvisadas. No Miradouro de Santa Catarina, ouviram-se mesmo aplausos por volta das 19h36, quando o eclipse atingia o momento mais impressionante na capital.
Também o terraço do MAAT, em Belém, recebeu dezenas de pessoas que escolheram a proximidade ao Tejo para acompanhar a passagem da Lua diante do Sol.
Na zona de Lisboa houve ainda quem preferisse aproximar-se do Atlântico. A Praia de Santo Amaro de Oeiras recebeu uma iniciativa de observação com DJ set e transmissão do fenómeno, enquanto o Cabo da Roca, em Sintra, reuniu várias pessoas junto ao farol.
Na Serra de Sintra, pontos elevados como a zona do Palácio da Pena também permitiram acompanhar a progressiva redução da luz ao final da tarde. Mais a sul, praias e zonas costeiras do Alentejo e do Algarve foram igualmente escolhidas para observar o fenómeno, embora a percentagem de Sol encoberto diminuísse à medida que se avançava para sul.
No Cabo Espichel, em Sesimbra, centenas de pessoas espalharam-se pelos terrenos em redor do Santuário de Nossa Senhora do Cabo Espichel. Houve piqueniques, música e aplausos à medida que o eclipse se aproximava do ponto máximo. Em Setúbal, famílias e grupos de amigos concentraram-se no Jardim da Beira-Mar, onde houve mesmo quem emprestasse óculos especiais a quem já não tinha conseguido comprá-los.
O fenómeno também foi acompanhado a partir do Santuário de Fátima. Em Leiria, vários grupos ocuparam os pontos mais altos do castelo para tentar conseguir a melhor vista, embora alguma neblina tenha dificultado a observação.
A norte, dezenas de pessoas começaram a chegar durante a tarde ao Jardim do Morro, em Vila Nova de Gaia. No Porto, a concentração de pessoas levou mesmo a PSP a fechar o acesso pedonal à Ponte D. Luís por questões de segurança. Junto ao mar, famílias, casais e grupos de amigos ocuparam relvados e paredões para assistir ao momento.
O eclipse entrou até no programa do Vodafone Paredes de Coura. Milhares de pessoas que estavam no recinto do festival dividiram as atenções entre o céu e o palco principal, onde aguardavam o concerto de Salvador Sobral com os First Breath After Coma.
Embora sem a escuridão total registada em Bragança, grande parte do território assistiu a uma redução muito acentuada da luminosidade. No Porto, a Lua chegou a ocultar cerca de 98 por cento do Sol, enquanto em Lisboa o valor ficou acima dos 94 por cento.
Nos Açores, o eclipse também foi visível. Na ilha de São Miguel, centenas de pessoas deslocaram-se ao Observatório Astronómico de Santana, em Rabo de Peixe, que disponibilizou óculos e telescópios equipados com filtros solares. Apesar de o dia ter começado nublado, o fenómeno acabou por ser observado em toda a ilha.
O eclipse desta quarta-feira teve ainda uma particularidade: aconteceu com o Sol já relativamente baixo no horizonte, pouco antes do pôr do sol, o que levou milhares de pessoas a procurar miradouros, praias e locais elevados para evitar edifícios, árvores ou montanhas a bloquear a vista.
O fenómeno tornou-se especialmente raro pela pequena faixa de território português onde houve totalidade. Um eclipse total do Sol acontece quando a Lua passa exatamente entre a Terra e o Sol e o encobre por completo. Fora dessa faixa, o alinhamento não é perfeito e permanece visível uma pequena parte do disco solar.
E quem ficou com vontade de continuar a olhar para o céu não terá de esperar muito. A noite de 12 para 13 de agosto coincide com o período de maior atividade das Perseidas, uma das chuvas de meteoros mais conhecidas do ano.
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