Na cidade

A erupção vulcânica que mudou para sempre a ilha do Faial

Há 64 anos, os faialenses viviam um terror semelhante aos habitantes de La Palma. Muitos deixaram as suas casas sem olhar para trás.
A erupção durou um ano

Por estes dias, observa-se com estupefação o poder destrutivo do vulcão de La Palma, nas ilhas Canárias, que já destruiu centenas de casas e fez milhares de desalojados. Um cenário pouco familiar à maioria dos portugueses, mas bem conhecido dos açorianos que, há mais de 60 anos, assistiram a um fenómeno semelhante.

O final do verão trouxera à ilha do Faial uma invulgar atividade sísmica. Os tremores prolongavam-se há cerca de duas semanas, mas nada fazia prever o que aconteceu na madrugada de 27 de setembro de 1957. O dia acabara de nascer quando no canto mais ocidental da ilha, uma série de explosões submarinas agitaram as águas junto ao ilhéu dos Capelinhos.

Debaixo da linha de água, a lava a mais de mil graus colidia com a água gelada do Atlântico e formava colunas de fumo, cinza e vapor de água. A erupção provocou outro fenómeno: o nascimento de uma pequena ilha entre o ilhéu e o Faial que, mais tarde, com a acumulação da lava, cresceria e viria a unir os Capelinhos formando um istmo.

A poucas dezenas de metros de distância do vulcão, junto ao Farol da Ponta dos Capelinhos, as primeiras testemunhas observavam o fenómeno natural. No local para observar a presença de baleias, os locais sobressaltaram-se com as explosões.

“Vi-o rebentar e atirar pedras. Fazia muito barulho, deitava muito fumo. E a noite ficou escura como breu”, contou à “National Geographic” José Silveira Rafael, pescador que tinha à época 38 anos e que assistiu de perto à erupção.

Os ruídos e os relatos chegaram rapidamente à localidade de Capelo, a três quilómetros do vulcão, onde a população pouco dormira depois de uma noite de abalos. “Lembro-me de que primeiro começaram os tremores de terra miudinhos, mas depois os abanões tornaram-se mais fortes, pelo que fui com o meu marido para uma casa mais baixa. Só no dia seguinte, de manhã, é que o meu sogro me disse que tinha rebentado um vulcão”, revela também à revista Maria Olívia Faria, que tinha à época 23 anos.

A vista da erupção do Farol

Os baleeiros que passavam os seus dias na estação do Comprido deixaram o local. A torre do farol “oscilava de forma assustadora”, relatava então “O Telégrafo”.

As explosões e o mar efervescente era apenas o início de um desastre que se prolongou durante um longo ano. A acumulação de lava fez erguer o vulcão das águas e em maio de 1958, a erupção acontecia já em terra.

Foi também uma fase marcada por uma noite de pesadelo: de 12 para 13 de maio verificaram-se mais de 450 abalos sísmicos. Seguiram-se também enormes explosões que atiraram fragmentos de lava incandescente a mais de 500 metros de altura.

A população, desinformada e assustada, entrou em pânico com a intervenção do padre da freguesia da Praia do Norte, recorda ao “Correio da Manhã” Rui Coutinho, doutorado em vulcanologia. O pároco terá “absolvido coletivamente os pecados do povo”, algo que “causou pânico generalizado”. 

As cinzas e os detritos espalharam-se pela região e cobriram toda a paisagem, os campos de cultivo, as casas. Nas localidades, muitos telhados e estruturas abateram sob a força da cinza. Quando resistiam ao peso, quebravam perante a força dos sismos.

Muitos dos moradores foram forçados a deixar as comunidades piscatórias, mais isoladas, que trocaram pelas freguesias mais populosas e mais seguras da ilha. Outros, com ajudas vindas de fora do País, optaram pela emigração.

As cinzas espalharam-se em enormes camadas pela ilha

Em outubro de 1958, o vulcão já perdera força e, ao fim de 13 meses, voltou à inatividade. Num ano, a paisagem da ponta oeste do Faial estava quase irreconhecível. O vulcão dos Capelinhos tinha agora um conte que se erguia a 160 metros de altura — e a lava acumulada dera à ilha mais 2,4 quilómetros quadrados de área. A paisagem verde era agora um deserto negro, árido, inabitado.

Apesar de não terem sido registadas quaisquer vítimas mortais, muitas famílias viram os seus terrenos inutilizados, as suas casas destruídas e, sem meios de subsistência, viraram-se para as poucas alternativas que lhes restavam. Da comunidade emigrante nos Estados Unidos chegaram apoios monetários que ajudaram muitos açorianos a sobreviverem ao primeiro ano após a erupção.

Entre as muitas visitas de Estado feitas à ilha, uma delas levou o cônsul norte-americano ate ao local do desastre, onde se discutiu a possibilidade do país acolher muitos dos açorianos afetados pelo fenómeno natural. O susto pregado à população pelo vulcão levou a que, segundo o “Sol”, “17 dos 30 mil habitantes do Faial tenham abandonado a ilha”, quase todos rumo aos Estados Unidos. 

A lava acumulou-se e ligou o ilhéu ao Faial

Foi o então senador do Massachusetts e futuro presidente John F. Kennedy quem assegurou que, do outro lado do Atlântico, que os açorianos seriam bem recebidos, graças ao Azorean Refugee Act, a lei que facilitou a legalização dos novos imigrantes. Ao todo, terão sido mais de 175 mil os açorianos que procuraram então uma nova vida no país.

O fluxo terá começado com cerca de 1.500 vistos para famílias, mas a autorização foi alargada e dois anos mais tarde, seriam mais de 2.500 as que se mudavam. Depois, como forma de reunir as famílias com quem havia ficado para trás, o número disparou para os mais de 170 mil portugueses.

Hoje, 64 anos depois da erupção, a ponta ocidental do Faial continua a ser uma espécie de ponta deserta, cuja aridez contrasta com a paisagem verde do resto da ilha. À exceção dos ocasionais arbustos, a terra manteve o seu tom escuro, infértil.

A vista atual do vulcão

Este cenário pode ser pouco apelativo para a refixação de novas comunidades na zona, mas é suficientemente interessante para que a NASA olhe para ele como um potencial local de testes. Em outubro de 2020, James Gavin, que dirigiu um departamento da NASA, sublinhou o potencial do vulcão dos Capelinhos para os estudos da agência norte-americana sobre o ambiente de Marte.

“Nós conseguimos ver Marte na Terra através do vulcão dos Capelinhos”, explicou à “Lusa”. “São muito poucos os sítios na Terra onde podemos ver um sistema vulcânico desde o nascimento até ao seu estado posterior de vida. O vulcão dos Capelinhos foi o primeiro que os cientistas de vários países estudaram de forma tão cuidadosa.”

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