Na cidade

A zona ribeirinha de Lisboa mudou: agora há esplanadas, barcos turísticos e novos espaços

A abertura da renovada Estação Sul e Sueste e da nova Doca da Marinha acontece já este sábado, 1 de maio.
A nova estação é para passar e apreciar.

É uma nova Lisboa, junto ao Rio Tejo. Na zona do Terreiro do Paço e da Doca da Marinha, obras há muito pedidas e prometidas finalmente terminaram. As grades estão a ser retiradas, os espaços desentaipados. A nova Estação Sul e Sueste, a nova zona da Doca da Marinha e tudo o que isto inclui e implica — e não é pouco — vão ser inauguradas no próximo sábado, 1 de maio. A NiT já esteve no local e conta-lhe tudo o que pode esperar.

Foram muitos anos à espera, mas a revolução chegou também a esta parte da zona ribeirinha de Lisboa. A capital tem passado os últimos anos a procurar voltar a ligar-se ao Tejo, às vistas e à outra margem — a renovada Ribeira das Naus é disso o exemplo mais paradigmático, mas há outros, de Xabregas ao Cais de Sodré.

A renovada estação e praça, vistas do rio.

Agora, chegou a vez do passeio à beira-rio na zona do cais e do terminal de passageiros do Terreiro do Paço, até Santa Apolónia. Foi uma obra monumental, estimada em 27 milhões de euros, levada a curso pela Associação de Turismo de Lisboa (ATL) a pedido da autarquia da capital, com vários parceiros. A intervenção incidiu em dezenas de detalhes mas em seis pontos essenciais.

Primeiro, foi criado o Centro de Interpretação do Bacalhau, no torreão nascente do Terreiro do Paço — já inaugurado em 2020 e que reabriu agora depois da pandemia. Foi a obra número um.

Depois, veio o novo Muro das Namoradeiras, completamente remodelado e já aberto à utilização pública desde meados deste mês de abril. Segundo a ATL, a sua reconstrução implicou a inventariação de mais de 400 pedras que se encontravam depositadas nas instalações do Metro da Pontinha e que regressaram ao Terreiro do Paço para serem remontadas, de acordo com o traçado original.

O Muro das Namoradeiras.

Pelo meio, foi-se fazendo o mais difícil, tudo integrado num mesmo plano: a retirada do aterro do metro do Cais das Colunas, o terceiro dos seis pontos essenciais; a reabilitação da Estação Sul e Sueste e da sua praça, o quarto; a construção no seu interior do Centro Tejo, um novo espaço dedicado ao rio, à sua história e à ligação com a outra margem — quinto; e a reabilitação da Doca da Marinha com a criação de esplanadas, remodelação do espaço ao ar livre e instalação de embarcações tradicionais — sexto e último ponto.

São estes últimos — Centro Tejo, Estação Sul Sueste remodelada e nova Doca da Marinha — que são inaugurados este sábado. Na simbólica data, são esperadas as presenças do primeiro-ministro, António Costa, do presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, do presidente-adjunto da Associação Turismo de Lisboa, José Luís Arnaut, do presidente da Entidade Regional de Turismo da Região de Lisboa, Vítor Costa, e de representantes dos vários parceiros envolvidos no projeto.

A reabilitação tinha como objetivo “dotar a cidade de condições únicas para a atividade marítimo-turística, o transporte público fluvial entre as duas margens do rio e a criação de espaços de lazer e equipamentos”. É aquela que foi chamada como “a maior operação de valorização do Tejo das últimas décadas”, segundo fonte da ATL.

Estação Sul e Sueste, Centro Tejo, Doca da Marinha: saiba tudo o que pode esperar da próxima vez que for a esta zona de Lisboa  — acredite que vai estar diferente.

Estação Sul e Sueste

Segundo a página da direção-geral de Património Cultural, a icónica e histórica Estação Fluvial Sul e Sueste, mais conhecida como a do Terreiro do Paço, foi projetada para ligar Lisboa por via fluvial às linhas ferroviárias do sul do País, que terminavam no Barreiro.

A nova estação.

Entretanto considerada Monumento de Interesse Público, a estação foi um projeto do arquiteto Cottinelli Telmo, inaugurada em 1932. Nela, Cottinelli assumiu uma mistura entre a herança revivalista e Art Déco com todos os condicionalismos “inerentes à tipologia e funcionalidade próprias de uma estação com grande movimento”, explica o governo.

Agora, depois de renovada, é sobretudo um local de passagem e de contemplação, ainda que com uma nova vertente de atividades turísticas e fluviais.

Construída entre 1929 e 1931, a estação estava há anos a degradar-se, pelo que a câmara de Lisboa decidiu recuperá-la. A obra acabou por ser entregue à própria neta de Cottinelli, Ana Costa, filha do arquiteto Daciano da Costa.

Como contava a arquiteta ao “Público ” em 2010, tudo foi um incrível e feliz acaso: “[O projecto] veio parar-me às mãos sem que se soubesse que sou neta de Cottinelli Telmo. Agarrei nele e disse que iria ser reposto na íntegra. Diz-se que o que é bom é pombalino; a arquitetura do séc. XX tem coisas extraordinárias, mas tem sido descurada”, explicava então.

Em visita ao local na passada semana, Ana Costa dizia-nos como este é, assim, um projeto de família: “veio para Cottinelli, depois para o meu pai, e quando passou para mim ninguém sabia quem eu era, porque foi o meu pai que foi primeiro convidado a fazer o projeto. E eu não uso o Cottinelli no nome, só uso Ana Costa. Portanto ninguém fazia a ideia de que eu era a neta direta dele, ele é o meu avô materno”.

A obra, disse aos jornalistas no local, começou por ser um trabalho entre pai e filha: “começámos pelo lado do interface e este era o último projeto; a reabilitação da estação era o fim de festa. Infelizmente o meu pai desapareceu em 2005 e nunca mais teve a oportunidade de ver o projeto, nem sequer de imaginar que ele ia acontecer. Ele [projeto de reabilitação da estação] esteve muito tempo parado, mas fiz muitas guerras e refilei muito de terem abandonado a estação”, acrescentou.

A estação.

Até que conseguiu. “Foi uma sorte a câmara e o Turismo de Lisboa terem pensado que isto não podia ficar assim e terem-lhe dado este destino que no fundo é original porque este é, agora, um local de passagem”, conta a arquiteta.

O chão de mármore, os azulejos, a art déco, tudo o que pôde ser poupado e recuperado foi reutilizado. O relógio mantém-se, numa versão de traça antiga mas de cara lavada. E tudo a pensar num “alegre usufruto”. “O fluxo pesado de entrada e saída de Lisboa, de passageiros, de funcionalidade, fica ao lado”. Na Sul e Sueste, fica o “fluxo leve da travessia alegre, de usufruto do rio”, frisa.

Mas não é por isso que a obra é só para turista ver. “Não é para o turismo, isto é para nós todos”, salienta Ana Costa. “Nós vamos querer fazer essa travessia, querer ir almoçar ao lado de lá. Essa relação com a outra margem passou a ser muito mais forte nos últimos anos (…) Parece que Lisboa parava aqui, ficávamos todos voltados para dentro, mas isso mudou com essa grande energia trazida de novo à frente ribeirinha, com as pessoas a correrem nestes passeios, estateladas ao sol na Ribeira das Naus — e agora com isto.”

A estação é, frisa, “uma espécie de joia da coroa, um fim de festa — para Lisboa”. “Depois, se os turistas acharem graça ao edificio, à arte déco, a tirarem fotos agarrados às colunas e a atravessarem para o lado de lá nuns barcos mais ou menos tradicionais, a Disneyland do rio não me incomoda nada, desde que tenhamos a oportunidade de usar o espaço de outra forma ou de uma forma diferente”, salientou.

Por tudo isto, a arquiteta quis que os móveis na estação fossem mínimos e integrados. Não há nada funcional como terminais multibanco, é apenas isso: um local de passagem com arquitetura e história, uma “grande porta aberta”.

A nova Praça.

A zona entre a estação e o rio viu ainda o reforço nos dois pontões da Transtejo/Soflusa já existentes, a criação de três novos pontões com passadiços para barcos de recreio e uma nova área com cafetaria, quiosque e esplanadas.

A praça em frente também foi reabilitada, pelo arquiteto Bruno Soares, tendo agora árvores, áreas de descanso e mobiliário discreto. 

Centro Tejo

No interior da estação, onde era a sala de espera da segunda classe, vai agora encontrar o Centro Tejo — um novo espaço multifacetado onde o foco assumido é o rio: a sua história, os séculos de faina, as pessoas que ali trabalham; e ainda a ligação de Lisboa à outra margem.

A maqueta.

Aqui, onde a entrada é gratuita, há agora uma gigante maqueta interativa onde, consoante onde carrega, vê iluminadas as travessias, as pontes, as ligações fluviais ou os locais de interesse numa e outra margem.

Encontra também uma sala com faróis, cada um dedicado a um concelho ribeirinho da margem sul, com destaques e locais a ver.

Há ainda um corredor com vídeos constantemente a passar sobre a faina do rio, as suas embarcações, a história e cultura de Lisboa, Margem Sul e Tejo. Lembra-se dos pavilhões da Expo 98, dedicados a cada país? Parece isso mesmo, versão miniatura, feito para tudo o que é rio.

E encontra uma Lisbon Shop, uma loja onde o foco dos produtos é também o rio e as cidades por ele banhadas.

Os faróis.

Doca da Marinha

Finalmente, mas não por último: fazendo a ligação entre a Estação Sul e Sueste e o Terminal de Cruzeiros, a nova Doca da Marinha é agora um espaço com relva, quiosques, esplanadas. uma gigante área para passear, estar, para descansar e ver o rio, apreciar a outra margem.

Os quiosques.

Além disso, vai poder apanhar embarcações turísticas, de vários tipos (mas todas tradicionais), cujas fisionomias habitualmente coloridas darão, mesmo quando paradas, alegria ao espaço. Para eventos, tem um espaço ajardinado à sua espera.

A intervenção do arquiteto Carrilho da Graça é das mais notórias pela diferença: onde havia tapumes e muros, agora há um enorme espaço de chão de alcatrão com pedras que parece um céu estrelado e uma zona de relva.

Nesta área, há quatro coloridos quiosques: três são explorados pela Banana Café, com esplanada; e um quarto serve de bilheteira para as tais embarcações tradicionais.

Os quiosques têm ainda painéis iluminados e coloridos, de lado, com uma intervenção do artista Julião Sarmento, onde a cor escrita não corresponde à que se ilumina — e vai mesmo iluminar, todas as noites, a partir de 1 de maio.

Pelo meio, há também novo mobiliário urbano, enormes bancos de madeira, alguns dos quais literalmente em cima do rio, já para lá do mini-terminal de embarcações de recreio.

Para estar junto ao rio. Atrás, os mini-pontões das embarcações tradicionais.

Antes de tudo isto e logo ao lado da estação de barcos da Transtejo, vai ainda nascer um restaurante com espelho de água até ao final do ano.

Em resumo, segundo a Associação de Turismo de Lisboa, na zona do Muro das Namoradeiras e onde durante tanto tempo esteve o aterro, o Terreiro do Paço recupera a ligação com o rio e “o traçado que existia há 25 anos, antes das obras para o túnel e estação do Metro de Lisboa”. Acrescente-se que até os oito candeeiros que tinham sido retirados há 25 anos voltaram a ser colocados. Já na zona entre Sul e Sueste e a Doca da Marinha, nasce mesmo um espaço novo, para usufruto dos cidadãos.

A relva para eventos junto ao rio, na Doca da Marinha.

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