Na cidade

Este casal trocou a vida de sonho nas Bermudas pelos Açores — e está super feliz

Os Walters vieram de férias e encontraram um lar. "Podia escrever um livro sobre a bondade, generosidade e paixão dos faialaneses".
Horta, no Faial.

Quando pensamos nas Bermudas, imaginamos de imediato as praias de areia branca e água cristalina, associadas ao que parece ser uma vida de sol e sandálias nos pés, num verdadeiro paraíso. Mas para este casal que por lá esteve durante 18 anos, houve uma terra que lhes pareceu ainda melhor. Para eles, o paraíso é o Faial, nos Açores. 

A NiT descobriu Mark e Tricia Walters num de vários grupos no Facebook que se dedicam a partilhar histórias, maravilhas, dicas e segredos dos Açores. Ali, contava-se, numa partilha de um jornal das Bermudas, a história do casal que empacotou tudo um dia e mudou-se no outro para os Açores com os seus dois gatos, Cocoa Bean e Freya.

Embora adorassem as Bermudas, a vida estava “a ficar ridiculamente cara”, por isso, durante umas férias no arquipélago português em maio de 2019, o clique deu-se e começaram a procurar casa.

À NiT, Tricia Walters, uma jornalista à beira dos 50 anos (“serei 50 anos jovem em fevereiro próximo”), explica que isto das mudanças de vida não é propriamente uma novidade para si: nasceu na África do Sul, saiu em 2000 para morar na Bélgica, depois no Reino Unido e finalmente nas Bermudas, onde viveu com o marido quase duas décadas. Mark, de 58 anos, nasceu no Zimbábue, mas tem cidadania britânica.

“Ele trabalha em informática — consultor de suporte de TI — a partir da nossa nova casa para empresas localizadas principalmente nas Bermudas”. Por enquanto é assim, já que pensa expandir os seus serviços para a ilha no próximo ano.

Tricia foi jornalista durante mais de 19 anos na África do Sul. “Fiz jornais e televisão, que era a minha paixão. Adorei produzir notícias e documentários porque me deu a oportunidade de viajar e conhecer pessoas”, conta. O casal não tem filhos, mas tem dois gatos (das Bermudas), ambos com dez anos.

Feitas as apresentações, chega a história do encontro entre os dois. “Na verdade, conhecemos-nos online”, diz Tricia. “Eu tinha-me mudado de Joanesburgo para a Cidade do Cabo em 1999 para trabalhar numa estação de televisão chamada e-TV. Acho que vou admitir que a cena normal do namoro não estava a funcionar para mim, porque de repente eu tinha quase 30 anos e não tinha tempo para sair em bares ou clubes. Então, entrei para uma aplicação de namoros online, algo muito recente na África do Sul em 1999 e na verdade bastante assustador”.

Assustador só até ao momento em que conheceu Mark. “Namorámos nove meses antes de decidirmos ir para a Bélgica juntos, em maio de 2000. Casámos em novembro do mesmo ano em Londres, no Reino Unido”. Foi o encontro do verdadeiro amor. “Sim, uma daquelas histórias do tipo ‘conhecemos-nos num site de namoros online e apaixonámos-nos’. Mas a verdade é que somos certos um para o outro. Ele é sossegado e inteligente e eu sou barulhenta e espontânea, o que significa que às vezes faço coisas parvas”.

Casados e felizes há 20 anos, chega a parte em que se apaixonam, desta vez pelos Açores. “O Mark e eu adoramos viajar. Tiramos umas férias grandes pelo menos uma vez por ano (de mais de duas semanas) e conhecemos a maior parte da América Central e das Caraíbas, do México, bem como das principais cidades da costa leste dos EUA. Também fizemos um cruzeiro no rio Amazonas, uma vez: 27 dias no total e foi incrível. Adoramos mergulhar na cultura de cada país que visitamos — as pessoas, a arte, a comida e, claro, o idioma”, explica a sul-africana à NiT.

“Também vimos a maior parte da Europa e a última grande viagem que fizemos foi para a Escandinávia e a Rússia”. Para um casal que adora praia e viajar, as Bermudas pareciam o destino de sonho. Até que, há alguns anos, perceberam que não poderiam ficar ali para sempre. “Para quem já esteve lá sabe o que digo: é muito caro”. Por isso, começou a pesquisa pelo novo sítio a que chamariam de lar.

“Começámos a garantir que as nossas férias incluíssem lugares em que achávamos que provavelmente gostaríamos de morar. Nenhum de nós queria morar no Reino Unido novamente — muito frio e as pessoas nem sempre são amigáveis ​​ou receptivas com os expatriados. Então visitámos a Costa Rica, México, Panamá e alguns outros lugares. Nada parecia certo”, conta Tricia.

Tricia e Mark

Até ao dia em que entraram no arquipélago português. “Temos amigos nas Bermudas que têm laços com os Açores e não paravam de nos dizer como era bonito, natural e amigável, por isso viemos aqui de férias em maio de 2019 e apaixonámos-nos — como todos nos diziam que ia acontecer”.

Mark e Tricia visitaram São Miguel durante uma semana e viram uma casa nas Furnas — “uma bonita localização”, frisa a ex-jornalista. Mas a ilha parecia demasiado grande, mais lotada e não era um lugar onde se imaginassem a passar o resto das suas vidas. “É muito bonito, mas não me senti em ‘casa'”, explica. Como só tinham duas semanas de férias, tiveram de escolher outra ilha para visitar e por isso escolheram o Faial. “Era mais pequeno e tinha voo direto de São Miguel então foi o que fizemos. Voamos para o Faial”.

Ficaram alojados no Faial Azores Resort Hotel, que dizem ser incrível e começaram a ver algumas propriedades com um agente imobiliário local, Rens Metaal, outro estrangeiro que vive nos Açores há vários anos.

Quando vimos a casa do Capelo, apaixonámos-nos. Não era uma questão de ‘oh, que bom’, era mais de ‘esta é a casa que sempre procurámos’. A casa quase nos falou, a um nível espiritual. É muito engraçado porque voámos num domingo, vimos a casa numa segunda e segunda à noite ligamos para o Sr. Metaal e dissemos ‘vamos comprar a casa!’. Nem estávamos aqui [no Faial] há 48 horas. Engraçado como funcionou. Passámos o resto daquela semana a explorar a Horta e não vai acreditar se disser que quando tentámos encontrar a nossa casa da segunda vez nos perdemos… foi muito divertido”.

Foram buscar as coisas às Bermudas e estava feito. Até agora, sem qualquer vislumbre de arrependimento. “O Faial é mágico. Eu estou aqui há um ano. O Mark mudou-se para cá para se juntar a mim em fevereiro deste ano. Nesse tempo, fiz muitos novos amigos. Fomos recebidos de braços abertos pela comunidade local e construímos um lar para nós”, adianta.

Mesmo num ano terrível, que praticamente coincidiu com a mudança, a nova vida é boa para o casal. “Adoro sentar-me do lado de fora à tarde e todos os nossos vizinhos passam de carro e todos acenam e sorriem. Isso deixa o meu coração tão feliz”, diz Tricia à NiT.

E conta: “Um vizinho parou aqui uma noite e apesar de não falar muito inglês e eu não saber muito português (a Covid-19 não ajudou porque não há aulas), ele deu-me um queijo fresco que tinha feito. Onde mais no mundo isso vai acontecer? Os nossos vizinhos e a comunidade são simplesmente incríveis. Poderia escrever um livro sobre a bondade, generosidade e paixão dos faialaneses. E eles têm sido pacientes connosco, ao tentarmos aprender a sua língua e ajudando-nos sempre que podem”.

É claro que a pandemia foi difícil. “O Mark chegou um pouco antes do primeiro bloqueio e foi mais difícil para ele porque não tinha ainda explorado muito bem a ilha. Mas os nossos vizinhos (que falam inglês) imediatamente nos convidaram para jantar e fizeram-nos sentir em casa”, diz.

“A Covid-19 também significou que as aulas de idiomas foram canceladas. Pode-se aprender um idioma online, mas não é o mesmo que aprendê-lo diretamente. Até porque a pronúncia e o sotaque e o português falado no Faial é ligeiramente diferente do português falado em São Miguel, que é muito diferente do português falado no continente, por isso os cursos online não ajudam nada”.

E admite: “Sim, é uma língua muito difícil de aprender. Mas bonita. Ninguém me pode dizer que nunca ouviu alguém a cantar em português e o seu coração não doeu de tanta paixão”.

Depois, há a natureza do Faial. “Sobre isso, o que posso dizer? Há um cenário lindo em cada esquina. Florestas e falésias, belas praias de areia branca e praias rochosas com ondas enormes. Piscinas de maré com água limpa e mergulho com snorkel nas rochas. Baleias e golfinhos que nadam entre o Faial e o Pico todo o ano — é o paraíso”. Tricia acrescenta: “Eu mencionei o vinho? Oh, céus, o vinho é incrível!”

E resume: “tudo o que posso dizer sobre a nossa mudança para o Faial e para os Açores é que foi a melhor decisão que alguma vez tomamos. Para alguns, parece um impulso do momento, mas falamos com muitos estrangeiros que disseram que se sentiam da mesma maneira —  que estavam a voltar para um lar que nunca souberam que tinham deixado. É um lugar mágico que reivindica a sua alma a cada respiração e é, para nós dois, um dos lugares mais bonitos onde já estivemos. E agora temos a sorte de chamá-lo casa”.

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