Na cidade

Este edifício feio em Braga tem o maior tesouro da Humanidade

O Banco Português de Germoplasma Vegetal tem mais de 40 mil plantas e sementes. É um dos mais importantes do planeta.
É um edifício bastante importante.

Já lhe falámos sobre o mundialmente famoso banco genético de Svalbard, na Noruega, onde são conservadas várias espécies de plantas, árvores e sementes de alimentos. Esta é uma das respostas que a humanidade criou para um possível apocalipse — ou, talvez uma realidade mais provável, a falta de comida. Mas o centro da remota ilha nórdica não é o único exemplo deste estilo no planeta. Na verdade, existe uma versão bem mais perto do que aquilo que podíamos imaginar: em Braga.

O Banco Português de Germoplasma Vegetal (BPGV) foi criado em 1977 e é uma “estrutura de conservação de recursos genéticos vegetais em Portugal, sob a responsabilidade do Instituto Nacional de Investigação Agrária e Veterinária e sob a tutela do Ministério da Agricultura”, conta à NiT Ana Maria Barata, a coordenadora do Banco.

O edifício está “instalado na quinta de São José localizada em São Pedro de Merelim.” No total, aquela propriedade tem oito hectares de área agrícola. O espaço necessário para um Banco cuja essência e propósito residem nas plantas. A estrutura em si tem dois andares que ocupam 1900 metros quadrados. Lá dentro, estão “quatro câmaras de conservação em frio, com um volume de 400 metros cúbicos, e duas câmaras de conservação in vitro com 50 metros cúbicos”.

Falando de uma forma mais geral, a responsável explica-nos que os Bancos de Germoplasma são edifícios de conservação da diversidade genética, “constituído por coleções com diferentes estatutos e com potencialidade de utilização imediata e futura.” No caso das plantas conservam sementes, propágulos, pólen, ADN e cultura de tecidos (desenvolvimento de tecidos e/ou células separados de um organismo).

O principal objetivo do BPGV é reunir diferentes espécies, estudá-las e, posteriormente, partilhá-las com outras instituições semelhantes à volta do mundo. “O BPGV sabe responder, com excelência, aos novos desafios que se colocam à conservação e valorização dos recursos genéticos através do cumprimento da sua missão: colher, conservar, caracterizar, avaliar, documentar e valorizar os recursos genéticos garantes do Sistema Nacional para a Conservação dos Recursos Genéticos”, comenta a responsável pelo polo em Braga. A principal missão sempre será, porém, “a produção agrícola sustentável atual e das futuras gerações.”

A conservação dos abastecimentos está dependente da espécie em específico. Algumas têm de ser mantidas a 18 graus negativos, enquanto que outras conseguem sobreviver entre os zero e cinco graus. “Conservar é colher, caracterizar, avaliar, documentar e valorizar os recursos genéticos vegetais. Tudo se inicia no conhecimento sobre as espécies, os sistemas agrários, ecossistemas e distribuição geográfica das espécies completado com a prospeção. Analisando esse quadro, permite-se a avaliação do grau da erosão genética a ocorrer nesses ambientes ecológicos e a tomada de decisão sobre valor genético a conservar”, sublinha Ana Maria Barata.

Existem 1470 Bancos de Germoplasma espalhados pelo mundo. Contudo, o Banco Português de Germoplasma Vegetal distingue-se de muitos deles, visto que está classificado no grupo de bancos de Germoplasma com mais de 10 mil acessos, marca que apenas 10 por cento dos Bancos de Germoplasma do mundo detêm. Tal honra só pode ser alcançada graças ao trabalho incansável de uma equipa. No polo de Braga, esta é constituída “por 23 pessoas de nacionalidade portuguesa.”

Em Braga, existe um acervo conservado “de 44 752 acessos, de 255 espécies e 143 géneros de plantas cultivadas, silvestres e de parentes silvestres das plantas cultivadas, conservados sob a forma de semente e de propagação vegetativa, resultantes de 128 missões de colheita de germoplasma nacionais e internacionais.” As coleções resultam de missões de colheita realizadas junto dos agricultores ou da natureza. “E também da entrada de material de outras coleções nacionais e internacionais, enquanto duplicados de segurança”, acrescenta Ana Maria Barata. Apesar do número elevado de reservas, contam-nos que não têm nenhuma espécie rara, uma vez que trabalham “com agrobiodiversidade”.

Ao longo dos mais de 45 anos já receberam vários pedidos, “para programas de investigação e desenvolvimento”, e dos agricultores que viam as suas reservas a atingirem níveis baixos. “Com o decréscimo da diversidade das culturas agrícolas, torna-se fundamental a conservação da diversidade das principais culturas, a fim de poder alimentar o mundo no futuro. Esta diversidade é realmente o elemento fundamental para o futuro da agricultura, que enfrenta alguns grandes desafios, como a necessidade de alimentar uma população mundial em crescimento e as alterações climáticas”. Por outro lado, a última vez que recolheram germoplasma foi em 2019, “e foi de uma rúcula silvestre”, recorda a coordenadora do banco português.

Têm milhares de plantas e sementes.

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