Na cidade

Estes casais largaram tudo para viver um mês em Bragança — e estão a adorar

Iniciativa do município levou quatro famílias nómadas digitais para conhecer o dia-a-dia da região.
Parece um sonho

O que têm em comum um fotógrafo de natureza, uma instrutora de ioga online, um jornalista, uma assessora de comunicação, um produtor audiovisual, uma investigadora de Antropologia, uma produtora criativa e um fotógrafo e designer? Aparentemente, pouco. No entanto, estes quatro casais com idades entre os 30 e os 48 anos estão preparados para viver intensamente o mês de maio e une-os o local: Bragança.

Vêm de locais tão diferentes como Lisboa, Maia ou Póvoa de Varzim, sozinhos, com animais de estimação, filhos ou os dois e têm em comum também o facto de serem nómadas digitais. Ou pelo menos poderem fazer o seu trabalho remotamente. Isso permitiu que fossem os escolhidos para integrar o projeto “Bragança. Liberdade para Recomeçar”, promovido pela autarquia local.

Esta é uma iniciativa inserida no Programa de Cooperação URBACT – Find Your Greatness, que junta várias cidades europeias em ações que visam a sua promoção e desenvolvimento sustentável. Para isso, os participantes têm acesso durante o mês de maio a uma casa com todas as comodidades asseguradas e onde nem Internet falta, para que possam trabalhar remotamente mas fazê-lo em Bragança.

As inscrições abriram a 22 de março e a 10 de abril já os candidatos sabiam se tinham sido escolhidos e onde iriam passar o mês seguinte, entre casas mais no centro de Bragança ou em aldeias do concelho.

Maria Freitas, produtora criativa de 30 anos, foi uma das selecionadas. Descobriu a oportunidade através de uma notícia no Instagram, viu todas as informações e em pouco mais de uma hora já tinha feito a candidatura, em conjunto com o namorado, Frederick, um alemão de 36 anos, fotógrafo e designer que vive em Portugal desde janeiro de 2020.

“Cerca de uma semana depois ligaram-nos a dizer que tínhamos ficado selecionados para a fase seguinte, tivemos uma entrevista por videochamada e mais ou menos dois dias depois disseram-nos que tínhamos sido escolhidos. Ficámos super contentes”, conta à NiT.

Maria e Frederick à chegada

A oportunidade parece ter assentado como uma luva ao casal, que adora viajar e, sem conhecer bem a zona de Bragança, achou a oportunidade ideal para fazê-lo.

“Com o confinamento não está fácil viajar para fora do País, por isso também é uma oportunidade de explorar mais o nosso País que é tão bonito. Temos uma revista digital destinada ao público britânico e achámos que era também uma oportunidade para escrever sobre a zona de Bragança.”

A mudança foi feita a 1 de maio e em apenas três dias Maria já fez coisas que nunca tinha feito, como plantar uma árvore. Conhecer uma realidade diferente, acalmar um pouco e regressar depois a Lisboa “mais calmos, presentes e a saber aproveitar o momento” foram outras das razões que levaram o casal a entrar nesta aventura.

Instalados na localidade de Santa Comba de Rossas, já tiveram a oportunidade de conhecer alguns dos vizinhos. “Fomos muito bem recebidos por toda a gente e percebemos que há mais cultura aqui do que achávamos”, explica Maria.

Mesmo Frederick, que apesar de já entender um pouco o português, ainda não se sente totalmente à vontade, “está encantado”, entende-se com toda a gente e só alerta para o facto de ter de deixar de comer tanto para não regressar a casa com alguns quilos a mais.

“Gosto muito que aqui as pessoas acenam para toda a gente quando alguém passa. É algo que em Lisboa já não se vê”, sublinha Maria.

Entre o silêncio que se faz à noite, sem carros a passar nem confusão nas ruas, e o chilrear dos passarinhos durante o dia, este é um ambiente bem diferente àquele a que estão acostumados. O trabalho, em si, é o mesmo, o que muda é aquilo que fazem fora dele e até o ambiente, que pode ser “mais calmo e criativo” aqui, perto da natureza. Nestes dias, já foram visitar o castelo, conhecer alguns miradouros, um restaurante “ótimo” e o teatro municipal.

A casa em que ficaram é um antigo pombal recuperado “super confortável e com um design de muito bom gosto” onde nem falta um jardim e uma mesa para refeições no exterior. “Parece que estamos de férias sem estar de férias.”

Em apenas oito dias esta iniciativa recebeu 1879 candidaturas, sendo que apenas 1576 foram de Portugal. As outras vieram de países tão distintos como Brasil, Espanha, Reino Unido, Alemanha, Polónia, Rússia ou Noruega.

Em Bragança, “é possível estar ligado e trabalhar para qualquer parte do mundo, ao mesmo tempo que se usufrui de um território ímpar, ideal para se refugiar do ritmo frenético do dia-a-dia, mantendo todas as ferramentas de trabalho necessárias”, disse na cerimónia de receção aos casais o presidente da Câmara Municipal, Hernâni Dias, sublinhando que “esta iniciativa pretende dar a conhecer todo o potencial do território e, através da partilha da experiência, inspirar quem tiver possibilidade de manter o trabalho remoto mesmo depois da pandemia, a viver em Bragança”.

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