Fora de casa

Na cidade

Félix, o explorador que faz campismo em lugares abandonados e insólitos

Já passou noites em convento do século XIX ou fábricas ilegais, sem que o medo o impeça. Partilha estas aventuras nas redes sociais.

Quando Félix Félix acordou num convento abandonado do século XIX, há cerca de três anos, os sons que ouviu pela manhã não correspondiam ao aspeto severo da fachada do espaço, em Montemor-o-Novo. Dezenas de pássaros fixavam-se nos ramos das árvores que começaram a crescer no interior, “uma floresta” que irrompia pelo “buraco gigante” no teto.

“Parecia que estava num país exótico”, conta à NiT o aventureiro, de 37 anos, que não estava à espera de se cruzar com outros curiosos. “Conheci várias pessoas incríveis, como um miúdo que estava a fazer exploração. Acabei por ficar três dias e foi uma experiência única”. 

A dedicar-se ao urbex (exploração urbana, em português) há mais de duas décadas, Félix começou a experimentar também o mundo do campismo selvagem. Destas histórias nascem as fotografias e os vídeos impressionantes que vai partilhando na sua página de Instagram.

Quanto ao tempo passado em cada local, explica, “é muito relativo”. “Por vezes, vou uma semana, mas não costumo passar quatro dias nos mesmos spots. Normalmente é fazer a exploração do sítio, acampar, tomar o pequeno almoço, tirar algumas imagens e ir para o seguinte.”

Este fascínio “por sítios diferentes” vem da adolescência, quando começou a entrar no universo do graffiti. Como nunca gostou de discotecas ou de centros comerciais, sempre procurou refúgios em sítios pouco comuns para estar com os amigos, o que o levou aos primeiros edifícios abandonados.

“Não gostava de sair do sítio e voltar para casa. Precisava de conhecer melhor”, continua. Foi isso que deu origem ao desejo de dormir naqueles sítios. “Procurava uma experiência mais pessoal e, ao mesmo tempo, combater os receios todos que existem. Esse medo faz-me viver estas experiências com mais cautela”.

Das experiências com os grupos de amigos, vários deles surfistas que passavam a noite na praia, “longe do barulho dos bares”, Félix começou a arriscar sozinho. “É quando [estamos sozinhos que] nos compreendemos melhores. Tudo o que conquistamos ou perdemos é responsabilidade nossa.”

Uma dessas aventuras a solo aconteceu numa fábrica ilegal gigante, onde passou uma noite ao lado de romenos. “Tive que passar por eles e, ao início, queriam roubar-me. Houve aqueles conflitos iniciais por estar num sítio onde não era suposto, mas tinha muita vontade de os fotografar”, recorda.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Félix Félix (@felixplora)

Félix acabou por criar um contato com aquela comunidade e, na manhã seguinte, foi dar-lhes não só o resto da comida que tinha consigo, mas as fotografias que lhes tirou durante a estadia de uma noite. “Quando nos sentimos ameaçados, é importante ter esta ligação. Percebi que eram só humanos.”

As histórias vão-se acumulando, como a da aventura de dormir num palacete abandonado do século XX, que nessa altura era usado pelo dono de uma indústria de minérios como uma causa de repouso sempre que visitava a zona. “É incrível imaginar que era só uma casa de passagem.”

Embora já publique conteúdo nas redes sociais há alguns anos, só há cerca de quatro meses é que o urban explorer decidiu “fazer algo mais profissional”, o que levou a juntar cada vez mais gente interessada naquilo que partilha.

O principal boom da página, porém, aconteceu no início do ano, quando subiu ao topo da Lisnave. Falamos daquele que foi, em tempos, um dos maiores estaleiros navais da Europa, Instalou-se na Mangueira, na zona de Cacilhas, em 1961 e tornou-se um um gigante da indústria naval que chegou a empregar cerca de 8 a 11 mil trabalhadores.

Começou no mundo do graffiti.

“Ao que parece, ninguém tinha subido lá. Subir ao topo da grua era impossível. Estava soldado e tinha muitos seguranças”, explica. Durante cinco anos, Félix passeava por aquela área à espera da melhor altura para ser o primeiro. “Quando encontrei uma janela boa, decidi aproveitar.”

O processo, conta, “foi incrível” e envolveu um enorme equilíbrio entre cuidado e rapidez. “Quando consegui chegar, estava com muito medo. Não sabia se tinha sido visto pelos seguranças. Hoje em dia, sei que é algo que não vou esquecer por toda a experiência e pela envolvência.”

À NiT, garante ainda que nunca teve muitos problemas de segurança ou sequer com as autoridades. “Mesmo no caso dos spots mais difíceis, fazia um estudo em casa. Vou sempre o mais preparado possível”, diz. E raramente encontra outras pessoas a fazer campismo urbano, apenas urbex.

A lista de aventuras continua com uma antiga locomotiva soviética da família M62 Locomotive, que acabou abandonada no meio do Alentejo. Atualmente, resta apenas o metal oxidado, os graffitis e as inscrições em húngaro, ainda visíveis na cabine, que revelam que terá passado pela Magyar Államvasutak [empresa estatal de caminhos de ferro da Hungria] e viajando milhares de quilómetros até terminar esquecida em Portugal.

Para descobrir os desafios seguintes, passa bastante tempo no Google Maps. “Estou ligado às redes sociais, mas não sou adepto das mesmas. Então passo muito tempo a fazer pesquisas de norte a sul de Portugal.”

Desde cedo, Félix tem ainda um enorme fascínio por transportes públicos, como a ideia de explorar os túneis de metro. Talvez tenha sido esse interesse que o levou, por exemplo, a um depósito de autocarros que deixaram de circular há décadas ou a um hangar de comboios do século XX.

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Félix Félix (@felixplora)

Embora tenha estado sempre ligado às artes, o seu percurso passou sobretudo pela fotografia. Quando terminou o curso, começou a trabalhar a tempo inteiro com um artista plástico, o que foi abrindo caminho para este universo das explorações urbanas.

“Como viajamos muito e temos alguns trabalhos de risco, acabo por sentir mais tranquilidade nestes spots. Uma coisa complementa a outra”, admite. “É quando saio do meu trabalho ou então aos fins de semana que tento dar um pouco mais de atenção a estas aventuras.”

Ainda há muitos espaços por descobrir e, até ao final do ano, não esconde que gostava de dormir num avião abandonado ou numa central térmica. “Por mais que, muitas vezes, exista medo, é importante não deixarmos que ele prevaleça sobre os nossos sonhos”, conclui.

Carregue na galeria para ver mais imagens partilhadas por Félix na sua página.

ARTIGOS RECOMENDADOS