Na cidade

Fizemos o passeio das bruxas em Sintra. Houve exorcismos, demónios e a Madonna

Esta sexta-feira 13, a vila mais carismática do País recebeu um programa especial de terror. A NiT conta-lhe como foi a experiência.
Foi uma noite super intensa.

As sextas-feiras 13 são muitas vezes associadas a dias de azar e de terror. É uma ideia enraizada na sociedade e que já inspirou vários fenómenos da cultura popular, como a saga do cinema “Sexta-Feira 13”. Em Portugal, não faltam pessoas supersticiosas e que levam esta celebração de forma demasiado literal. Eu nunca fiz parte desse grupo. Na verdade, nem sequer acredito em nada que tenha a ver com o sobrenatural. Por outro lado, assusto-me facilmente. Por isso mesmo, sabia que o passeio mais assustador do ano, que decorreu em Sintra a 13 de maio (numa sexta-feira, claro), seria uma experiência de vida. Não estava enganado.

Cheguei ao Palácio Nacional de Sintra, o ponto de encontro do evento organizado pela Lynx Travel, pelas 21 horas. Fui logo confrontado por várias pessoas mascaradas. Havia bruxas, guerreiros medievais e, sobretudo, góticos. O pequeno e rápido percurso até ao ponto inicial do passeio acabou por se tornar num dos destaques da noite. Ao deambular por Sintra senti todas as preocupações a serem deixadas na estação de comboio. Na minha cabeça, estava num destino fora de Portugal, tão calmo e quase pacato que nem parecia estar a cerca de 30 minutos de Lisboa. Os edifícios históricos e a música de fundo que vinha de um restaurante das redondezas criaram um ambiente verdadeiramente cinematográfico.

Após cerca de 20 minutos de espera, chega a grande estrela deste passeio: o padre Lucas. Ao contrário das bruxas que percorriam o largo do Palácio de Sintra, o jesuíta exorcista mostrou logo que era uma figura caricata. Uma espécie de comic relief deste passeio de cinco quilómetros.

Lucas apareceu com uma antiga lamparina de chama acesa.  E claro que sendo aquele um dia de azar, algo tinha de correr mal. A parte de vidro do objeto caiu de imediato, mas o padre conseguiu mostrar a sua perspicácia e capacidade de improviso. “Isto está endiabrado.”

Seguimos para o primeiro ponto de interesse: um pequeno largo antes da Quinta da Regaleira, onde somos apresentados a um freira assustadora. Apesar de ser cadavérica, aparentou continuar no caminho de Deus, sempre preocupada com as forças malignas.

Andámos durante mais uns minutos, ao som dos gritos de miúdos que se iam assustando com as personagens e ambiente de Sintra. De vez em quando, os adultos também se assustavam, mas em vez de gritos, só ouvia palavrões.Assim que chegámos à quinta, fomos levados numa viagem pela história do nosso País.

Foi precisamente ali que esteve o último rei da monarquia portuguesa, D. Carlos I, antes do regicídio que tomou lugar a 1 de fevereiro de 1908. Admito que história nunca foi o meu forte, mas os guias estavam prestes a referir outro nome que eu já dominava. Madonna também esteve na Quinta da Regaleira, quando se mudou para Portugal em 2017. 

Cultura pop de parte, a parte mais assustadora estava prestes a chegar. Normalmente, chamam-lhe Vale dos Anjos, mas para esta ocasião em especial, o nome passou para Vale das Almas Penadas. Até porque é ali que habitam os espíritos de vários pecadores que ficaram pela Terra depois da morte. 

Sempre a subir pela serra de Sintra e num piso irregular, reparei que tinha a respiração acelerada e o corpo a suar. Estava assim por dois motivos principais. Primeiro, porque tinha medo por não ter ninguém à minha volta e só imaginava que um homicídio nestas circunstâncias era o guião perfeito para um filme de terror. Em segundo, porque percebi que estou numa péssima forma física. Na minha cabeça, apenas ouvia a voz de Gloria Gaynor. “I Will Survive”, sempre em loop. Também não acredito no poder de manifestar coisas ao universo, mas é verdade que sobrevivi.

Voltámos ao novo ponto de reagrupamento, no meio do Vale dos Anjos, numa clareira rodeada de árvores. Estava cansado, com sede e dores de pé. Mas, por uns minutos, todos estes problemas deixaram de importar. A imagem da lua (quase) cheia e o som dos animais naquele ambiente foram uma experiência verdadeiramente mágica. Pelo menos durante aqueles minutos.

Para uma das últimas partes da caminhada foi-nos pedido que não usássemos lanternas, visto que a noite estava bastante clara. Descemos em silêncio — pelo menos durante uns minutos — até chegar a um dos últimos edifícios que conheceríamos no passeio: o palácio Biester, precisamente onde Johnny Depp gravou o filme de terror “A Nona Porta”, realizado por Roman Polanski. Mais uma referência do Padre Lucas que eu consegui entender.

Segundo a lenda, o palácio, que abriu para receber visitas pela primeira vez a 30 de abril deste ano, tem sete pisos subterrâneos. No exterior, fica um jardim magnífico com vista para o Castelo dos Mouros. Não é difícil perceber o motivo de ter servido como pano de fundo para uma das obras mais conhecidas de Polanski.

De regresso ao Palácio Nacional de Sintra, chegou o momento que mais temia: o famoso exorcismo às bruxas que nos assombraram durante o passeio. Um cuspidor de fogo, aguardente em chamas, uma leitura de ritual, alguns momentos de improviso por parte do padre e uma luva fofinha para evitar queimaduras. O exorcismo foi uma verdadeira montanha-russa de emoções — porém, mais teatral e menos assustador. 

No final, para concluir esta noite de emoções, bebi um copo de vinho quente. Os miúdos, mais calmos e sem voz, receberam chupas e um adorável copo em forma de caveira. Quanto a mim, valeu-me o fim de semana para descansar os pés. Que péssima forma física, realmente.

Carregue na galeria para ver mais imagens deste passeio de sexta-feira 13 organizado pela Lynx Travel.

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