Na cidade

Frederico Morais: “Fiz o que mais nenhum português fez. Acho que as pessoas estão orgulhosas”

O surfista português de 30 anos falou com a NiT sobre a carreira e as expetativas para a próxima etapa do mundial em Peniche.
Kikas é o melhor surfista português

Aos seis anos, agarrou numa prancha emprestada de bodyboard, mas o instinto levou a que se pusesse de pé. Pouco tempo depois, era um assíduo nas ondas do Guincho, sempre com a companhia do pai. O resto é história.

Aos 30 anos, Frederico Morais, mais conhecido por Kikas, é o mais bem-sucedido surfista português e prepara-se agora para se lançar ao mar de Peniche, na terceira etapa do circuito mundial de surf. O MEO Pro Portugal arranca por estes dias e marca um regresso da World Surf League ao nosso País, depois de dois anos de ausência provocada pela pandemia.

Kikas é o único representante português e apesar de nunca ter vencido a competição, já deixou a sua marca ao conquistar presenças nos dez melhores do mundo, o seu melhor resultado conseguido em 2021. Antes de se lançar ao mar de Peniche, confessa à NiT “o nervoso miudinho” de surfar perante os seus maiores fãs.

Mas não há maiores fãs do que a família, que certamente estará no areal a acompanhá-lo. Fazem-no, aliás, há 30 anos. Foi pela mão do pai, Nuno Morais, que conseguiu um feito único, ao conquistar, com apenas 14 anos, o campeonato nacional de surf de sub-21.

Nasceu numa família ligada ao desporto. O pai foi jogador da seleção nacional de râguebi, tal como o tio, Tomaz Morais, também ele ex-internacional e ex-selecionador nacional. Juntamente com a mãe e a irmã, moldaram a sua vida ao talento de Frederico e viajaram com ele para todo o lado, pelo menos até ter idade para se aventurar sozinho.

Antes da mais emocionante prova do circuito, Frederico Morais explica como lida com as expetativas, a vitória e a derrota e, sobretudo, no que irá fazer quando chegar a hora de deixar o surf profissional.

Para quem passa o ano a viajar, o regresso a Portugal e à competição é sempre um momento especial?
É sempre um momento especial, especialmente aqui em Supertubos. Já não tínhamos a etapa há dois anos por causa da Covid-19 e voltar a casa para competir outra vez numa etapa do World Tour é sem dúvida especial. As datas mudaram, em anos anteriores era em outubro e agora passou a ser em março. Nesta altura a previsão das ondas e do mar são melhores. É uma boa alteração e torna tudo mais difícil, apanhar um bocado de frio, mas também apanhar umas boas ondas.

Há mais ou menos responsabilidade? O medo de falhar é maior?
Há sempre mais responsabilidade e há sempre um nervoso miudinho. Sentimos a obrigação de representar Portugal bem e ao mais alto nível. Queremos deixar os portugueses orgulhosos. É um nervosismo bom. Ao fim do dia, as pessoas estão a torcer por nós, por isso acho que é um nervosismo que dá para transformar em motivação.

Não lhe cobram quando corre mal?
Honestamente, nesse aspeto tenho uma sorte gigantesca, porque as pessoas que me apoiam, quando há um momento pior, estão lá para dar força e motivação. Quando há momentos para celebrar, celebram e vivem as vitórias comigo e isso é o mais importante, haver esse equilíbrio. Porque quando as coisas correm mal, nós próprios nos apercebemos e sabemos disso e se calhar não mostramos o quão em baixo uma pessoa pode ficar. Ninguém fica mais triste do que eu.

Essa é uma característica particular do surf, quando comparado com outros desportos?
Acredito que sim. Nos outros desportos se calhar não se vive assim. Diria que no surf, pelo menos eu sinto um apoio super saudável e super genuíno das pessoas, que acabam por lá estar nos bons e nos maus momentos. É disso que é feita uma carreira. Uma pessoa não consegue estar sempre a brilhar no topo. Trabalhamos para isso, mas não é fácil. As pessoas percebem isso.

Toda a gente acaba por remeter as memórias para o dia de glória em 2013, quando bateu o Kelly Slater. Acha que isso leva a que as pessoas estejam sempre à espera de algo muito especial de si?
Não. Não senti isso. Senti foi um orgulho enorme das pessoas. Naquele momento o Kelly Slater estava a lutar pelo título mundial. Se eu perdesse, era normal. Se ganhasse, era brilhante. Felizmente consegui isso e catapultou a minha imagem, deu-me muita motivação para fazer a minha carreira e criar o meu nome. As coisas foram surgindo de forma natural. Já fiz o que mais nenhum português fez em termos de ranking. Já fiz uma final, já acabei no top 10, no top 15. Acho que as pessoas estão orgulhosas do meu caminho e de como tenho representado Portugal.

Quem é que lhe dava essas ideias de preparação?
Foi sempre o meu pai. Ele sempre foi um desportista nato, sempre pensou muito fora da caixa e em fazer as coisas de forma diferente. Começámos a viajar muito cedo e aos 17 comecei a treinar com o meu treinador atual, o Richard Marsh. A partir daí o meu pai deixou de assumir o papel de treinador e ficou-se pelo papel de pai. Chegou a uma altura em que por mais que o meu pai tentasse aprender e perceber, tudo tinha um limite. Precisava de algo mais para dar o pulo e foi o que fiz. Tem corrido lindamente.

Sete anos depois de começar a surfar, sagrava-se campeão de sub-21 com 14 anos.
Começar aos seis e aos 14 sagrar-me campeão de sub-21… Muitas pessoas não acreditavam que era possível, até com a ajuda do meu pai, que vinha do râguebi. O que é que ele percebia de surf? Mas ele é uma pessoa que não desiste, quer sempre aprender e fazer melhor, ajudou-me bastante. Teve um papel importantíssimo naquilo que sou como desportista e como pessoa. Não podia estar mais agradecido.

O seu tio Tomaz Morais também o acompanhou muito. Quais foram os maiores ensinamentos que lhe passou?
Ele esteve sempre muito presente, é muito chegado ao meu pai. Fazia tudo o que eles decidiam, eles trocavam muitas ideias sobre como fazer as coisas e como me ajudarem. O maior ensinamento que tiro da minha família é um pouco como o titulo de um dos livros que o meu tio escreveu, o “Compromisso de Nunca Desistir”. Tenho muita sorte com a família que tenho, em ter toda a gente do meu lado e disposta a embarcar neste sonho comigo.

Sem eles, poderia nunca ter sido o surfista que é?
Sem dúvida alguma. Eles fizeram toda a diferença na carreira que estou a construir.

A carreira obrigou a muitos sacrifícios familiares. De que coisas sentiu que os seus pais e a sua irmã abdicaram para lhe dar as melhores condições para se tornar num surfista de elite?
Muitas das viagens em família eram passadas em destinos de surf, que normalmente não são maus de todo, mas por vezes não é só isso que queremos. A minha irmã sempre fez o esforço e nunca se queixou, sempre veio e foi sempre uma ótima companhia. A minha mãe passou horas a dar-me explicações, a tentar ajudar-me a ser bom aluno e a ter boas notas. Toda a gente teve um papel super importante. Eu fiz o que sabia fazer, que era surfar. Tive a sorte de ter todas estas pessoas à minha volta, basicamente eram a minha equipa.

Os estudos também foram completados com sucesso, mas à distância, não foi?
Era complicado. Sempre que conseguia ia às aulas, à escola. Foi lá onde fiz os meus melhores amigos e onde conheci os amigos que tenho hoje em dia. Não abdicava disso por nada, vivi ótimos tempos lá, mas não era fácil porque exigia que eu estudasse fora das aulas. Tinha que haver compromisso com os professores, muitos deles facilitaram e ajudaram-me ao fazerem os testes antes ou depois da turma, para poder viajar e estar nos campeonatos.

Nunca chegou a fazer uma licenciatura. Ainda está nos planos ou nem por isso?
Para ser honesto, ainda não pensei nisso. Estou focado no surf, acredito que ainda tenho mais uns bons anos no alto rendimento e por agora é nisso que quero pensar. Quem sabe um dia.

Chegar ao circuito mundial e competir com os melhores dos melhores foi um sonho. Mas entretanto surgiu outro, o dos Jogos Olímpicos — como foi conquistar um lugar e depois ver-se impedido de competir? Foi a maior desilusão da carreira?
Não diria que foi uma coisa que correu mal. Vivemos uma pandemia que era algo que não podemos controlar. Podemos apanhar a doença ou não apanhar. Foi um momento frustrante porque era um sonho e uma ambição. O facto de me ter qualificado e ter qualificado Portugal, isso já ninguém me tira. Claro que gostava de ter lá estado, era um oportunidade única. Temos 2024 já aqui à porta. É trabalhar para isso. Não vale a pena estar focado no passado.

O estilo de vida de um surfista obriga-o a viajar por todo o mundo. É esse o sonho, mas sente que teve que abdicar de algo de que gostaria de ter feito?
Diria que posso sentir isso, mas depois lembro-me de tudo o que ganhei e é muito mais gratificante do que qualquer coisa que possa ter perdido. Faço o que mais gosto, viajo pelo mundo. Claro que há altos e baixos em ser atleta, o perder e ganhar, mas no geral é uma vida super gratificante, é uma profissão que adoro, representar o meu país. Não mudava nada do que fiz até hoje.

E um dia, quando for hora de pousar a prancha, pelo menos profissionalmente, já começa a fazer planos para isso?
Agora não sei. Há coisas de que gosto e pelas quais tenho curiosidade, mas ainda não me debrucei o suficiente sobre o assunto. Gostava de continuar no surf, ligado ao surf, e se calhar ajudar a passar o meu know how a outros surfistas mais jovens, poder ajudá-los de forma a que seja mais fácil atingirem os seus sonhos e objetivos. Isso seria super gratificante.

E o seu sucessor, já anda por aí?
Não diria sucessor, porque acho que cada um cria o seu nome e a sua própria carreira. Tenho a certeza que temos vários talentos, como o Joaquim Chaves, o Afonso Antunes, o Matias Canhoto. Há vários nomes sonantes a aparecerem no surf português e tenho a certeza que com dedicação, vão conseguir criar o seu próprio nome e o seu próprio legado — e deixarem uma marca no surf internacional se Deus quiser.

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