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Na cidade

Fugiu da Rússia aos 8 anos. Agora, Michael fotografa a vida noturna de Lisboa

Acabou por crescer em Israel e mudou-se para a capital portuguesa em 2024. "Sinto que me identifico mais com países de cultura católica".

A infância de Michael Ivnitsky é turva e com poucas memórias. Sabe, contudo, que a sua família foi perseguida durante vários anos — a incerteza e instabilidade faziam parte do dia a dia. O motivo? Eram judeus a viver na antiga União Soviética. A necessidade de partir fez com que, aos oito anos, se mudasse da Rússia para Israel com os pais.

“Após o colapso da União Soviética, não era um lugar seguro para minorias étnicas e envolvia muitos riscos”, conta à NiT.

Agora, aos 44 anos, vive em Lisboa, cidade que escolheu após anos a viajar pelo mundo. Mudou-se no verão de 2024, após ter conhecido a capital em visitas anteriores. “Gosto do clima e é um lugar lindo. As pessoas são educadas e adoro a comida”.

Mais do que isso, Michael encontrou algo que não esperava: uma ligação cultural. “Sinto que me identifico mais com países de cultura católica, porque as pessoas são mais abertas a estabelecer ligações com desconhecidos.”

O amor pela cidade é tão grande que está atualmente a trabalhar num livro de fotografias onde retrata a vida noturna de Lisboa. O projeto está a ser feito em conjunto com a poetisa portuguesa Lígia Reyes. Nas páginas, juntam-se ambas as artes.

“Somos grandes amigos e decidimos trabalhar juntos neste projeto.” O objetivo é que a obra seja lançada ainda este ano, mas por enquanto não tem nenhuma data fechada. 

A chegada a Portugal não foi apenas uma mudança de casa — também lhe trouxe mais oportunidades. O fotógrafo explica que o seu trabalho — que vai partilhando no Instagram — depende diretamente da forma como se relaciona com os outros, algo que consegue fazer com facilidade por aqui.

“Sou uma pessoa amigável e isso faz parte do meu trabalho. Como fotografo a vida noturna, a confiança é essencial para me conseguir aproximar”, continua à NiT.

Antes da mudança, a sua vida em Israel era tudo menos linear, visto que passou por várias profissões e experiências. “Trabalhei como engenheiro, tive um negócio como diretor criativo e também fui fotógrafo artístico e de moda”, recorda. Pelo meio, cumpriu também o serviço militar obrigatório, uma fase que prefere não desenvolver em entrevista, por considerar que se trata de um tópico “demasiado divisivo”, nos dias de hoje.

Apesar dos diferentes empregos, a fotografia nunca deixou de ser uma constante no seu percurso. As primeiras memórias que tem remontam à infância, quando observava o pai, fotógrafo amador, a trabalhar em casa.

“Passava muito tempo na câmara escura. Ver a imagem a surgir nos químicos era uma experiência mágica. Para um miúdo de seis anos, é algo muito marcante”.

Na adolescência começou a fotografar com câmaras analógicas, mas não levava este hobby a sério. Já em adulto, quando o digital tomou conta da indústria, continuou focado na película. “Continuei a usar este método numa altura em que já não era popular. Tive de convencer diretores de arte a confiarem em mim.”

Hoje tem uma visão mais moderna, mas continua a fotografar com câmaras analógicas. O método não é o mais relevante. O que importa, sim, é a importância da fotografia. “É através dela que vejo o mundo”, realça Michael, que criou um site em nome próprio, para apresentar o portfólio de forma mais profissional.

A sua carreira divide-se entre projetos comerciais e artísticos. Fotografa eventos, campanhas, capas de livros e de álbuns. Ao mesmo tempo, publicou três livros e realizou várias exposições. Um dos projetos mais marcantes foi um livro sobre raves, publicado em Kiev, na Ucrânia, em 2019. A obra demorou mais de quatro anos até estar finalizado.

“É um trabalho muito pessoal porque incluí o meu diário dessa época.” Seguiram-se outras publicações em França, em 2023, e em Itália, dois anos mais tarde.

Graças a todas estas experiências, a relação com a fotografia já é instintiva. “Hoje em dia, fotografo quase sem pensar. Já faz parte mim. Também é estranho quando não fotografo porque é uma necessidade constante, como se fosse um vício”.

O futuro ainda é incerto, mas há objetivos que já estão bem definidos. Quer continuar a crescer em Portugal e na Europa, conquistar novos clientes e apostar em exposições. “Também quero viajar mais, ter mais experiências e tirar mais fotografias. Quando gostas do que fazes, acordas com vontade de trabalhar.”

Carregue na galeria para ver algumas das imagens tiradas por Michael Ivnitsky, em Lisboa.

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