Na cidade

A história da centenária creche do Jardim da Estrela que está a ser demolida

A obra tem como foco a preservação do traçado original do edifício e deverá ficar pronta no verão.
Aspeto será mantido

Já começaram as obras na antiga Escola Froebel, ou Creche do Jardim da Estrela, em Lisboa. Esta intervenção, que teve parecer favorável da Direção-Geral do Património Cultural, tem como objetivo a requalificação do espaço, de forma a que possa tornar-se numa Biblioteca do Ambiente — tal como a NiT já noticiara em janeiro.

O espaço, que terá uma função lúdica e de utilização pública, vai contar ainda com um auditório e várias salas multiusos, anunciou a autarquia então. O objetivo é que ali nasça uma biblioteca municipal, sobretudo direcionada para temáticas como a conservação da natureza e a biodiversidade.

No entanto, a intervenção viu-se no final do mês de fevereiro envolta em polémica, quando se verificou que a reabilitação implicou, afinal, uma demolição de grande parte do antigo e histórico espaço do Jardim da Estrela.

Em declarações à NiT, a Câmara Municipal de Lisboa (CML) explica agora que, enquanto a intervenção “visa conservar e restaurar o maior número possível de peças originais, assim como reabilitar as fundações de um equipamento datado do fim do século XIX”, acabou por se verificar que este “estava muito degradado devido a fatores como a humidade e a infestação dos elementos em madeira por térmitas”.

Toda a obra tem sido acompanhada, garante a autarquia, pelo empreiteiro e pela fiscalização municipal, que têm zelado pela monitorização diária de toda a desmontagem do edifício, avaliando também o estado de todas as peças, principalmente as mais emblemáticas. São os casos dos pilares e dos vigamentos horizontais, do pórtico da entrada principal, das asnas e demais elementos da estrutura do telhado, tal como previsto em projeto.

As partes emblemáticas cuja recolha inteira foi possível foram enviadas para a oficina do carpinteiro que está ligado a esta obra. Aí serão restauradas para que possam posteriormente ser colocadas na obra final, diz ainda à NIT a CML.

Já a remoção das partes sobrantes e das “partes cujo estado de degradação já não permite uma ação de recuperação” terminou na passada sexta-feira, 26 de fevereiro, conclui ainda a autarquia.

Projeto da futura biblioteca

A CML diz que “a reconstrução da arquitetura obedecerá, e respeitará, a conceção original do edifício tanto nos materiais como no seu interior e nas fachadas”, acrescentando que “o prazo de execução é de seis meses a contar de janeiro e o equipamento [cujo orçamento da obra é de 1.152.000€] ficará sob a gestão da Câmara Municipal de Lisboa”.

Pedaços de história

A indignação de muitos nas redes sociais perante as notícias da demolição deveu-se sobretudo ao simbolismo e história do espaço. “O Jardim Guerra Junqueiro, conhecido por Jardim da Estrela, foi construído no século XIX (1842), por iniciativa do estadista Bernardo da Costa Cabral, Marquês de Tomar. É um jardim naturalista de conceção romântica, inspirado nas linhas do ‘parque à inglesa’, cercado por um gradeamento”, explica a autarquia na sua página.

Inserido nesse jardim, este edifício da antiga escola Froebel — a primeira creche do País — foi desenhado pelo arquiteto José Luiz Monteiro em 1882 e pensado para desenvolver o modelo de educação infantil do alemão Friedrich Froebel: trata-se do modelo conhecido como o Kindergarten, que ainda hoje está na base do que se faz no ensino pré-escolar.

De acordo com a página do Sistema de Informação para o Património Arquitectónico do Governo, a “localização do edifício, a sua arquitetura e organização espacial” respeitavam este programa, “obediente ao princípio do contacto com a natureza, à exigência de terrenos envolventes para recreio, exercícios físicos e trabalho educativo (entre eles a jardinagem), e à incorporação de preceitos de higiene escolar, sobretudo traduzidos na utilização de amplos vãos, em painéis móveis, que garantam iluminação natural e ventilação, de grelhas que permitam o arejamento permanente do edifício e ainda a separação das instalações sanitárias do edifício principal”.

Posted by Câmara Municipal de Lisboa on Sunday, February 21, 2021

Ao nível da distribuição do espaço, esta escola tinha quatro salas para poder distribuir as crianças por quatro grupos etários. Além dessas, era constituída ainda por uma sala de jogos, gabinetes, refeitório e instalações sanitárias.

De acordo com o “Público”, esta creche manteve-se em funcionamento durante 120 anos, tendo acolhido ao longo desse tempo milhares de crianças entre os três meses e os três anos de idade.

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