Em 2018, quando chegou a altura de João Martins e Maria Mouro comprarem uma casa para viver, o processo foi tudo menos fácil. Natural de Vila Nova de Gaia, o casal queria encontrar uma moradia, mas já nessa altura os preços não eram propriamente convidativos.
Sem terem grande opção, João e Maria acabaram por optar por um apartamento na zona. Mas ficaram sempre com o interesse em adquirir uma habitação que pudesse funcionar como um refúgio no campo para a família. Em maio de 2024, decidiram ir atrás deste sonho antigo.
Com um budget de 30 mil euros (destinado apenas à aquisição de um terreno, sem contar com o restauro), o casal começou a procurar propriedades nos arredores. Foi em Celorico de Basto, a cerca de uma hora de Gaia, que encontrou um espaço que logo chamou a atenção — pelo menos a de Maria.
“Na altura, o João não ficou logo muito convencido porque eram duas casas e a ideia era só termos uma. Além disso, o custo de reconstruir as duas seria o dobro”, recorda à NiT Maria, de 32 anos, e profissional de controlo interno da Japan Tobacco International (JTI), uma empresa internacional.
Ainda assim, o casal decidiu visitar a propriedade — e foi (quase) amor à primeira vista. João, um consultor fiscal de 34 anos, explica que o terreno tem cerca de 800 metros quadrados e integrava uma quinta na aldeia.
Uma das construções, que servia de residência aos antigos caseiros, foi batizada como Casa do Lagar. Já a segunda, onde os animais eram mantidos, recebeu o nome de Casa do Palheiro.
“Acabámos por alterar os planos e decidimos que a Casa do Palheiro, que foi a que começámos por reconstruir, seria para nós, para os amigos e para a família, enquanto a do Lagar será futuramente um alojamento local”, aponta João.
Na altura, a Casa do Palheiro tinha apenas quatro paredes e o telhado já tinha caído. “Foi uma das coisas que fizeram com que esta fosse a primeira a ser intervencionada porque era a que estava em pior estado”, sublinha.
“Não queríamos que as ruínas desmoronassem, porque isso iria acrescer um custo e iria implicar outras questões.”

Desde o início que o João e a Maria tomaram a decisão de fazer tudo o que conseguiam com as suas próprias mãos, com o apoio de amigos, para poupar o máximo possível em termos financeiros. Sem qualquer experiência na área, mas com o apoio de familiares ligados à área da construção, deram início ao projeto pouco tempo depois de terem oficializado a compra.
“A experiência que tínhamos era só mesmo a parte do controlo orçamental. O resto, fomos aprendendo”, explica João. “Fomos tendo a ajuda de alguns amigos e familiares da área, além de termos assistido a muitos vídeos no YouTube.”
O casal começou também a seguir outras páginas nas redes sociais que retratavam empreendimentos semelhantes. Sempre que conseguia, trocava ideias com muitas delas.
“Fomos fazendo um bocadinho de tudo, desde a parte do saneamento, a placa do chão, a parte de fazer cofragem, as escadas e todo o resto”, recordam. Aliás, Maria chegou a fazer pladur quando estava grávida de sete meses da pequena Matilde, hoje com cerca de um ano.
Em junho deste ano, a Casa do Palheiro já estava habitável e o casal dormiu pela primeira vez na residência, juntamente com a filha. As obras, porém, ainda não estão finalizadas — faltam alguns pormenores, como os rodapés.
Todo o processo de construção tem sido partilhado na página de Instagram do projeto, criado pelo casal em junho de 2024. Inicialmente, Maria explica que o objetivo era que os amigos e familiares pudessem acompanhar todos os trabalhos, mas rapidamente percebeu que estava a atrair a atenção de outras pessoas.
Hoje, a página conhecida como Casa no Monte reúne mais de 35,2 mil seguidores. “Quando começou a crescer, tivemos de adaptar os vídeos para o tornar em algo mais sério do que era. Tem sido muito giro”, refere à NiT.
Entre os conteúdos com mais sucesso, estão aqueles em que o casal fala detalhadamente sobre os gastos das obras. João explica que tentaram sempre poupar dinheiro ao máximo. Um dos exemplos foi na casa de banho da casa principal.
“Queríamos uma porta oculta no pladur e o orçamento que tínhamos para fazer este trabalho rondava os 1200€”, recorda. “A porta custou-nos cerca de 50€ em material, mais um almoço para um amigo, que me ajudou a fazer o trabalho.”
A Casa do Palheiro tem cerca de 80 metros quadrados e está dividida por dois pisos. O rés-do-chão funciona em open space, com a cozinha, a sala de estar e uma casa de banho, construída por baixo das escadas. Já no primeiro piso, existem dois quartos e uma casa de banho completa.
Até à data, o casal investiu cerca de 120 mil euros nesta empreitada. O valor inclui a reconstrução da Casa do Palheiro, a limpeza e decoração do exterior (desde o jardim à piscina) e ainda a aquisição das duas propriedades, que custaram 15 mil cada.

A Casa do Lagar vai ser um refúgio também para os animais
Atualmente, a família está a viver entre o Porto e Luanda, em Angola, por motivos profissionais. Por este motivo, a reconstrução da Casa do Lagar será feita, sobretudo, à distância, com o apoio de uma empresa de construção e de outros profissionais.
“Não vamos conseguir estar tão presentes, como estivemos na primeira casa, em que fizemos quase tudo por conta própria”, lamenta o casal.
Durante quase todo o processo das obras iniciais, o casal esteve acompanhado por Boo, a American Staffordshire Terrier da família. No entanto, a cadela acabou por morrer em 2025, vítima de um cancro agressivo e não chegou a ver a residência pronta.
“Muitas das coisas da reconstrução acabaram por ser feitas a pensar nela, como a parte de todo o terreno estar murado”, refere João, acrescentando que pretende homenageá-la com a Casa do Lagar, que será pensada para famílias que viajam com animais.
Quando a doença (hemangiossarcoma) foi diagnosticada, a expectativa era que Boo vivesse apenas cinco meses. A cadela acabou por acompanhar o casal durante mais um ano e meio: “Costumámos dizer que ela esperou que a Matilde nascesse para partir.”

Agora, o objetivo dos portugueses é criar um alojamento local que seja “mais do que pet-friendly” — quase como se fosse pensado especificamente para pessoas que vão de férias com animais.
“Há muitos locais que se dizem pet-friendly, mas isso acaba por se limitar a permitir a presença do animal. Sepois faltam todas as outras condições que são necessárias”, frisa.
O objetivo de João e Maria é que o novo alojamento esteja preparado para o animal ser “mais um hóspede”. “Quando chegar, vai ter a sua caminha, as tigelas próprias para comer e vamos garantir que toda a zona exterior esteja perfeitamente segura e pronta para recebê-lo.”
O casal tem consciência de que as obras podem atrasar, mas o objetivo é que o refúgio esteja pronto para receber hóspedes no final de 2027. A recuperação da casa deverá arrancar já em setembro.
O projeto vai passar por transformar a Casa do Lagar num T1, com jardim e um tanque internos, para os hóspedes terem a oportunidade de se refrescar no verão. Os custos da recuperação, por sua vez, ainda não são conhecidos.
Carregue na galeria para ver algumas fotografias das casas do Palheiro e do Lagar.







