Na cidade

Jornal espanhol “El País” diz que “o sucesso do turismo está a matar Lisboa”

Segundo o periódico, o elétrico até já deixou de ser o símbolo da cidade, agora são os tuk-tuks.
O jornal lamenta o cenário atual.

A verdade pode ser dura, mas atualmente o símbolo de Lisboa é o tuk-tuk. Não somos nós que o dizemos, mas sim o “El País” que, num artigo publicado a 29 de maio defende que o sucesso que a capital tem tido nos últimos anos está, simultaneamente, a matá-la. Se já foi em tempos um tesouro escondido da Europa, atualmente é uma cidade conhecida por milhões de estrangeiros e aparece frequentemente nas listas de lugares obrigatórios a visitar — o que tem lados positivos e, claro, negativos.

Nos postais e nos ímanes das lojas de recordações o grande protagonista é o elétrico, mas também este tem sido substituído pelos tuk-tuks que mostram aos turistas os melhores locais de Lisboa sem terem de seguir um percurso previamente definido. Ou seja, podem desviar-se da rota caso seja necessário, o que acaba por ser mais conveniente para quem está por cá de passagem.

Este meio de transporte, embora prático, “desrespeita muitas vezes as regras do trânsito para facilitar uma boa fotografia e dar aos passageiros aquela sensação de férias e despreocupação onde cada um faz o que quer”, escreve o jornal espanhol antes de concluir que “só fazem felizes os visitantes”.

No entanto, já nem estes parecem rendidos às vantagens dos tuk-tuks. “Acho que até deixou de alegrar os turistas. Há pessoas que vieram cá há anos. Quando regressaram recentemente, viram que já não é a mesma coisa”, lamenta Tânia Correia, natural da Mouraria, em Lisboa.

Segundo explica a publicação, este é um dos seis bairros históricos que pertencem à Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, ao lado do Castelo de São Jorge, Alfama, Chiado, Sé e Baixa. Todos estão repletos de história e cultura, o que os tornou no local favorito dos investidores imobiliários e empreendedores turísticos.

Com esta mudança radical desaparece “a Lisboa cool de roupas penduradas, azulejos e fachadas coloridas que no ano passado foi eleita o melhor destino urbano da Europa nos World Travel Awards”. Faz sentido, então, que a cidade tenha perdido “cerca de 30 por cento da população desde 2013”, o que também acabou por ser influenciado pelo facto de “60 por cento das habitações serem apartamentos turísticos”, um assunto que é cada vez mais comentado a nível nacional — e que agora também começa a ganhar relevância internacionalmente. “Gentrificação em pleno vigor”, portanto.

Esta alteração na génese lisboeta começou em plena crise do euro. Naquela altura, o governo aprovou uma lei que permitiu a atualização de arrendamentos antigos e que levou, consequentemente, a múltiplos despejos. Paralelamente, a entrada de capital estrangeiro foi incentivada através de novas “políticas fiscais agressivas”. Reformados de outros países que se mudassem para Portugal não pagariam impostos até 2020 e foram criados os vistos gold.

Isto trouxe um lado positivo — nomeadamente a reabilitação da cidade ou seja, edifícios em ruínas foram arranjados — e um aspeto negativo: “Uma deslocação massiva de portugueses para a periferia”.

“Perdemos população nos últimos 11 anos porque as pessoas foram forçadas a sair não só por causa da grande crise económica, mas porque o governo de direita que existiu durante os anos da Troika aplicou medidas que permitiram expulsar pessoas, e que coincide também com a entrada em cena de uma atividade aparentemente inofensiva, os apartamentos turísticos, profundamente invasivos para as pessoas”, reflete Miguel Coelho, presidente da Junta de Freguesia de Santa Maria Maior.

Tânia Correia foi uma das afetadas com a situação e chegou mesmo a ser forçada a abandonar o seu bairro quando os proprietários decidiram vender o edifício em que vivia. “Queria comprar o meu próprio apartamento, mas isso não foi permitido e fui obrigada a vender todo o imóvel. Quando o meu contrato acabou, não o renovaram”, recorda.

Atualmente vive na Buraca com o filho. É muito provável que um dos seus grandes sonhos de vida não se concretize: queria que o filho crescesse no mesmo bairro que ela. “Posso compreender que precisamos de vender o nosso país para capitalizá-lo porque somos pobres, mas pode ser vendido para atrair turismo de luxo e não turismo de baixo custo”.

O artigo do “El País” avança depois para outra das grandes mudanças que tem ocorrido na última década em Lisboa: o desaparecimento dos pequenos negócios tradicionais. As mercearias, por exemplo, transformam-se em bares modernos e instagramáveis com preços que apenas estão ao alcance dos turistas.

Além disso, as novas lojas tentam replicar o aspeto vintage daquelas que antes existiam na capital, mas que tiveram de encerrar para que estes mesmos espaços recentes pudessem nascer. Duas das vítimas deste desastre foram a Casa Senna, que há 189 anos dava vida ao Chiado, e a livraria Ferín, uma das belas e a segunda mais antiga da cidade, tendo sido fundada em 1840.

“No disputado coração dos turistas só há lugar para uma livraria histórica. E ninguém, por mais velho que seja, pode competir com a Bertrand, inaugurada em 1732 e, portanto, segundo o Guinness, a mais antiga do mundo”. Embora o cenário seja assustador, nem tudo é mau e o jornal aproveita para destacar a loja Paris, especialista em roupa de cama e que ainda perdura apesar de existir desde o século XIX.

O artigo do “El País” não termina numa nota positiva, o que faz sentido dado o estado atual da cidade que preocupa cada vez mais lisboetas e portugueses. “O turismo dizimou tudo”.

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