Na cidade

Juíz proíbe jovens que escalaram o pilar da 25 de Abril de voltarem à ponte

Os cinco britânicos corriam o risco de responder por um crime de "introdução a lugar vedado ao público".
Subiram mais de 190 metros.

Já é conhecida a sentença dos cinco britânicos, com idades compreendidas entre os 20 e os 24 anos, que foram intercetados pelas autoridades, na última segunda-feira, após terem subido até ao topo de um dos pilares da Ponte 25 de Abril — sem qualquer material de proteção. Em seguida, os jovens foram detidos e encaminhados para um estabelecimento prisional. Uma vez que é proibido circular a pé na infraestrutura em causa, corriam o risco de responder por um crime de “introdução a lugar vedado ao público”.

Segundo o “Expresso”, o juiz de instrução decidiu aplicar-lhes termo de identidade e residência, a medida de coação mais ligeira. Esta veio acompanhada de um detalhe inusitado: a proibição de voltarem à ponte.

O grupo, que foi avistado por alguns condutores que atravessavam a ponte e rapidamente avisaram as autoridades, através do 112, subiu a uma altura superior aos 190 metros. Estaria a praticar parkour, uma modalidade que nasceu em França na década de 1980 e foi desenvolvida como um método de treino que permite ultrapassar de forma rápida qualquer obstáculo. Este desporto utiliza apenas as habilidades e capacidades do corpo humano e é comum os praticantes saltarem de prédios e outras estruturas urbanas, normalmente elevadas.

Esta prática tem conquistado muitos admiradores, de várias idades, um pouco por todo o mundo. Na sua essência, tem os princípios de resistência e utilidade, resumidos no lema da modalidade “être et durer”, ou seja, “ser e durar”. Implica muito treino físico e mental para que os indivíduos possam realizar qualquer salto ou movimento (alguns bastante perigosos) sem receio.

Enquanto aguardavam julgamento, os jovens começaram a publicar imagens e vídeos do momento em que se veem vários elementos do grupo a arriscarem a vida para cumprir o propósito de escalar o pilar da ponte. Alguns chegaram a fazer push-ups no top da estrutura, como se pode ver no vídeo abaixo. 

Numa das imagens partilhadas, via Instagram, um dos britânicos, que se apresenta pelo nome de daringducky69, escreveu: “Ponte 25 de Abril. Preso por mais de 35 horas. Revistado, GoPro apreendida, e enviado para tribunal. Primeira viagem fora do Reino Unido, e quase acabou em prisão”.

“Atitude irresponsável”, diz instrutor de parkour sobre a escalada dos jovens na Ponte

À NiT, o instrutor Hilário Freire, de 38 anos, que pratica parkour desde 2004, explicou que o que os jovens estariam a fazer é uma variante mais extrema da modalidade, chamada Urbex.

O nome deriva da abreviação da expressão em inglês urban exploration. Em português é traduzida para exploração urbana, e quase sem darmos por isso, está a tornar-se uma subcultura com cada vez mais seguidores, especialmente nas redes sociais. Estes exploradores urbanos focam-se em locais históricos, monumentais ou abandonados que passam despercebidos no nosso dia-a-dia. E qualquer um, de qualquer idade, o pode fazer.

Enquanto no parkour o grande objetivo é “treinar no sentido de se tornar mais forte para ser útil aos outros e para a sociedade e conquistar os próprios medos e limitações até as reduzir ao máximo”, no Urbex a ambição é tirar fotografias de locais icónicos para partilhar nas redes sociais. Porém, “as duas práticas podem estar ligadas, como parece ser o caso”, sublinha o instrutor.

Hilário Freire é instrutor de parkour desde 2008 e considera que “a atitude dos jovens foi irresponsável”. Não tanto pela segurança dos próprios, “porque certamente estariam a par dos riscos, mas sim por colocarem em causa a segurança de outros. Os condutores dos carros que estavam a atravessar a ponte naquele momento, podiam ter sido distraídos com o que estava a acontecer no terceiro pilar. Isto podia ter gerado alguns acidentes”. O instrutor destaca ainda que o trânsito esteve cortado aos transportes públicos, o que causou transtorno para a sociedade. Para os traceurs — designação dos atletas da modalidade — isto distancia-se muito da essência da prática e daquilo que ensina aos seus alunos.

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