Na cidade

Luís viajou por Portugal com um papel e caneta na mão — e desenhou paisagens incríveis

Criou o projeto “World Sketching Tour” em 2012 para dar a conhecer o mundo de uma forma única e original.
São mais de 100 sketches.

“Nunca liguei nada às viagens até começar a desenhá-las”. No momento da partida à descoberta de uma cidade, há quem nunca deixe a câmara fotográfica para trás. Outros, como é o caso do ilustrador Luís Simões, não saem de casa sem um papel e uma caneta. E é numa folha, A4 ou A5, que eterniza tudo o que vê.

Luís Simões nasceu em Lisboa, tem 44 anos, e desde miúdo que se lembra de estar agarrado às folhas. Para o entreter quando era mais novo, não era preciso muito: bastava dar-lhe uma caneta e entrava num mundo só dele. “Quando esperava pela comida nos restaurantes, começava a fazer uns rabiscos na toalha de mesa. Estava sempre a desenhar”, começa por contar à NiT. 

Entretanto cresceu — mas sem nunca deixar de lado os desenhos — estudou Design na Faculdade de Design, Tecnologia e Comunicação (IADE), tirou um mestrado em Design Gráfico e trabalhou na SIC na sua área de formação durante alguns anos. Até que se começou a fartar do computador — e voltou a agarrar-se ao seu “brinquedo” favorito da infância. 

Sempre que tinha férias, aproveitava para viajar pelo mundo e levava o caderno atrás. Na verdade, foi o desenho que o fez viajar. “No início achava a viagem um desperdício, não fazia sentido para mim, até mesmo a nível económico. Depois, quando comecei a viajar com o intuito de desenhar a experiência, tudo se transformou”, refere. Agora, olha para as viagens como uma forma de poder desenhar novos sítios. É assim que se expressa.

“Comecei a contemplar a ideia de poder viajar por todo o mundo a desenhar. O caderno faz-me observar de maneira mais lenta, por isso a viagem fica muito mais memorizada para mim”, explica. Foi em 2011, quando viajou para a Croácia durante um mês, que percebeu que esta conjugação se podia tornar algo realmente sério.

O início da World Sketching Tour

Um ano depois, em março de 2012, avançou com o projeto “World Sketching Tour”. O objetivo era viajar pelos cinco continentes durante cinco anos e retratar as paisagens que mais o fascinavam. Tudo isto enquanto ia conhecendo Urban Sketchers, uma comunidade global de artistas que praticam desenho em várias cidades e vilas para onde viajam, que surgiu em 2007.

Curiosamente, na viagem que ditou o início do projeto, Luís não foi sozinho, mas sim com a companhia dos pais. “Seguimos os três juntos numa autocaravana para descobrir a Europa. A dada altura ia ter com o pessoal do desenho, fui aprendendo com eles, até porque o intuito da viagem, além de conhecer a Europa, era aprender e evoluir”, recorda.

Durante um ano e quatro meses, viajaram por vários países europeus sem parar, até que chegou a altura de se despedir dos pais. Deixou a autocaravana para trás e começou a viajar de mochila às costas, sozinho. Aventurou-se primeiro pela Ásia, onde esteve três anos e até teve oportunidade de trabalhar como ilustrador pela primeira vez em Hong Kong.

“Fiquei lá cerca de 11 meses, na altura em que aconteceram os protestos pró-democracia em 2014. Aproveitei também para desenhar essas manifestações “, recorda. Depois, ainda passou pela Índia, Sri Lanka e Tailândia, onde já tinha estado anteriormente e onde viveu um dos momentos mais marcantes em viagem.

“Foi a primeira vez que levei um caderno para uma viagem longa, foram quase 30 dias de viagem e preenchi o caderno todo. Lembro-me que cheguei a uma aldeia indígena e estavam lá miúdos a pedir coisas. Na altura estava com quatro canetas e o caderno na mão e dei-lhes as três canetas que tinha e fiquei só com uma. Foi uma espécie de reflexão, de tudo o que temos a mais e o que podemos dar”, relembra Luís.

Três anos após ter começado o “World Sketching Tour”, aconteceu-lhe uma das experiências mais traumáticas de toda a viagem. “Em 2015, nas Filipinas, fui abordado por umas pessoas na rua que me queriam levar a conhecer a cidade. Na altura acreditava muito nos outros e fui com elas, levaram-me a um karaoke e fizemos amizade”, conta. O que não esperava era que essas mesmas pessoas lhe drogassem para roubar dinheiro.

“Roubaram-me 1.200€, rasgaram os desenhos que tinha feito delas e apagaram as fotografias que tinha tirado com o telemóvel”. Nesse momento que, pela primeira vez em três anos, sentiu-se realmente  em baixo — e ponderou regressar a Portugal. Não o fez.

Continuou viagem até à Indonésia, onde acabou por conhecer a namorada Anisa Subekti. Ficou em Bali durante uns tempos, até que o casal decidiu que estava na hora de voltar para Portugal — mas não por muito tempo.

De bicicleta pela América Latina

Depois de várias exposições em Portugal e do lançamento de livros com os melhores sketches, Luís e Anisa decidiram ir os dois para uma outra aventura na América Latina, mas desta vez adicionaram um novo elemento ao desafio: uma bicicleta. “Nunca tinha feito nada assim, mas gostei do facto de não estar tão dependente dos meios de transporte. Levámos as tendas nas mochilas e fomos sem experiência nenhuma”.

Durante um ano e nove meses, pedalaram cerca de 12 mil quilómetros e passaram por países como o Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina. No final da viagem, ainda decidiram dar um salto até África. “Na altura fizemos uma campanha para angariar dinheiro para a viagem. Fiz um livro completo de toda a América Latina, em que juntei os melhores desenhos, e depois houve uma espécie de sorteio. Esse dinheiro ajudou-nos a viajar para a Namíbia e Angola”, diz.

O périplo por Portugal

Depois, chegou o Covid —e tiveram de tomar uma decisão. Em 2020, regressaram novamente para Portugal, mas nem a pandemia os parou. Decidiram voltar a pegar na bicicleta, desta vez elétrica, e aproveitar para conhecer o País. Luís, como sempre, não deixou para trás as canetas nem os cadernos.

O casal fez duas viagens: a primeira no ano passado, onde fizeram toda a fronteira com Espanha; e a segunda este ano, onde viajaram pelo interior do País, e terminaram no dia 6 de novembro. No total, foram 187 dias em viagens e mais de 5000 quilómetros percorridos na Bike & Sketch Tour.

Luís, como sempre, não deixou para trás as canetas nem os cadernos — e fez sketchs incríveis de todos os sítios por onde passou. “Em alguns casos já sei o que vou desenhar, mas há situações em que sou surpreendido. Aqui em Portugal, por exemplo, fui apanhado de surpresa em muitos locais”, confessa. Assim que vê uma paisagem que lhe diz algo, pára e começa a desenhar. Costuma demorar entre uma hora e três horas para terminar um sketch, dependendo do tamanho da folha.

Depois de ter desenhado mais de 100 sketches, existe um que confessa ser um dos seus favoritos. “Fiz vários desenhos panorâmicos e um deles foi da aldeia de Pitões da Júnias. Gosto muito dele, não tanto pelo sketch, mas pelo que me faz recordar”, revela.

Lembra-se, por exemplo, que nessa pequena aldeia foi bater à porta de uma padaria à procura de um sítio para dormir. O casal acabou por ficar a dormir num dos quartos da padaria, por cima do forno onde coziam o pão. “Fazia muito frio à noite e o forno aqueceu-nos. As pessoas da aldeia eram muito humildes e queriam ajudar-nos, o que acabou por tornar toda a experiência ainda melhor. O desenho, para mim, é toda a vivência de um sítio”, diz.

Agora que terminaram a viagem por Portugal, o ilustrador está a trabalhar num novo livro, que terá as rotas, histórias e desenhos destas duas viagens. Ainda não há nenhuma data para o lançamento, mas deverá ser publicado no primeiro trimestre do próximo ano.

Carregue na galeria para ver alguns dos sketches que Luís Simões foi fazendo pelo País.

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