Na cidade

MacKenzie Scott: a mulher que doou 400 milhões de euros só este mês

A ex-mulher de Jeff Bezos já terá doado perto de 20 por cento da fortuna. E não vai ficar por aqui.
É uma das mulheres mais ricas do mundo

Quando assinou os papéis do divórcio, em 2019, MacKenzie Scott deixou a relação com o magnata da Amazon, Jeff Bezos, com uma gigantesca fortuna. Tornou-se imediatamente na terceira mulher mais rica do mundo, com um valor estimado de 34 mil milhões de euros.

Nesse mesmo ano, a norte-americana comprometeu-se com a Giving Pledge, uma campanha filantrópica criada por Bill Gates e Warren Buffett com o objetivo de impulsionar os donos de grandes fortunas a doarem pelo menos metade da sua riqueza a diversas causas. A lista que inclui nomes como Elon Musk ou Mark Zuckerberg, foi sempre vista de lado pelo seu ex-marido e um dos homens mais ricos do mundo. Scott — nome de solteira que assumiu após a separação —, agora no comando de uma enorme fortuna, decidiu fazer sombra a Jeff Bezos.

A promessa feita à Giving Pledge é meramente intencional e não existe forma de garantir que ela é cumprida. No entanto, em apenas três anos, Scott parece imparável. Na lista das 20 maiores fortunas e no top três das mulheres mais ricas, entre homens e mulheres, ninguém faz mais doações do que ela.

Com uma reavaliação da fortuna em cerca de 46 mil milhões de euros, está a dar dinheiro como raramente se viu na história. A mais recente doação é um exemplo claro: acaba de entregar 396 milhões de euros à Habitat for Humanity International, uma organização não-governamental que criar habitações condignas a baixo preço, nas comunidades mais desfavorecidas. A maior parte do valor será entregue às afiliadas locais da ONG.

2022 está a ser um ano em cheio. Só em fevereiro, nove organizações anunciaram terem recebido doações de Scott, num total de 240 milhões de euros. Uma das maiores doações foi entregue uma ONG que apoia crianças em risco em idade escolar, mas também a outra que ajuda a desenvolver as capacidades dos professores. Apoiou também o combate ao vício das drogas nos mais jovens, grupos que promovem e defendem os direitos reprodutivos e a igualdade de género.

Mais recentemente, as doações só chegam a público após comunicações dos recipientes. Desde dezembro que Scott se mantém em total silêncio sobre as doações que faz. Frisou-o num comunicado público, onde explicou que deixaria de “incluir as quantidades de dinheiro doadas”.

“Quero deixar que cada uma das equipas falem por si, se assim o entenderem, na esperança de que, quando o fizerem, os media se foquem nas suas contribuições ao invés das minhas.” Estima-se, contudo, que apenas nos primeiros dois anos após o divórcio, tenha entregue mais de sete mil milhões de euros.

Nessa rara comunicação pública, Scott quis também procurar um significado mais lato da palavra filantropia, hoje normalmente associada às doações feitas pelos grandes milionários e multinacionais. A norte-americana de 51 anos notou, por exemplo, que do total doado a caridades americanas em 2020, um terço foi oferecido em parcelas inferiores a cinco mil euros. “A somar a estas dádivas em que poucos pensam quando se fala em filantropia, houve mais de 61 mil milhões dados como apoio financeiro a membros familiares noutros países, mais milhões em crowdfunding e outros tantos mil milhões em trabalho voluntário em ONG. Falamos de biliões de dólares em ‘doações de dinheiro para causas’ que em muito excedem a minúscula fração da população que é hoje reconhecida e coloquialmente apelidada de ‘filantropos'”, escreveu.

O casal divorciou-se em 2019

A opção de não divulgar, por iniciativa própria, as suas doações, foi alvo de críticas. Para muitos, a decisão revela falta de transparência que é exigida nestes casos, não só para manter intacto a possibilidade de escrutínio do público na cobertura de eventuais poderes de influência, mas também para perceber quais os benefícios próprios, já que muitas destas doações trazem consigo benefícios fiscais.

A posição de MacKenzie é ainda mais relevada precisamente devido à relação com Jeff Bezos, cuja fortuna está avaliada em 191 mil milhões de euros. Em termos percentuais, as estimativas revelam que se a primeira doou já cerca de 18 por cento do dinheiro, o ex-marido ficou-se apenas por uns míseros um por cento.

Para colocar a questão em perspetiva: um dólar é, para o americano médio, o mesmo que um milhão é para Bezos. Também por isso o multimilionário foi ridicularizado quando, em novembro, durante uma gala de angariação de fundos, entregou um cheque de 454 mil euros. Algo que é consubstanciado pelas habituais queixas dos funcionários da sua empresa, regularmente envolvida em escândalos — em 2018, por exemplo, vários documentos revelaram que muitos empregados eram pressionados a evitarem as idas à casa de banho durante os turnos, por medo de represálias.

Isto, claro, quando não é o próprio a revelar, em público, que tem pouco ou nenhum interesse em doar a sua fortuna para algo que não sejam os seus projetos, como a empresa espacial Blue Origin. “O nosso negócio principal é provavelmente a coisa mais importante que fazemos no momento de contribuir”, explicou. “Estou convencido de que, na maioria dos casos, os modelos de negócio lucrativo ajudam a melhorar o mundo, ainda mais do que os modelos de filantropia.”

MacKenzie era assistente de Bezos quando se conheceram. Haviam de casar em 1993, um ano antes do norte-americano fundar a Amazon, que se viria a tornar numa das maiores empresas do mundo. O divórcio foi complicado e envolveu cedências de parte a parte, mas mesmo assim deixou a ex-mulher com uma larga fortuna, uma das maiores do mundo.

“Estou excitada com os meus próprios planos. Grata pelo passado, mas ansiosa pelo que ainda vem aí”, anunciou no momento da separação definitiva. Poucos meses depois, prometia levar o seu dinheiro ao mundo.

Assim fez, mas nem todos receberam o memorando. Muitas das suas abordagens chegavam por email às associações e organizações que, em alguns casos, ignoravam as mensagens por pensarem tratar-se de uma burla. Outros recorreram aos advogados. Pelo menos até perceberem que do outro lado estava uma oferta real de milhões e milhões de euros.

A sua abordagem sem limites revolucionou o mundo da filantropia. Segundo uma análise da Bloomberg às doações feitas nos primeiros dois anos, a grande maioria é canalizada para a assistência social a indivíduos, bem como uma forte aposta em ONG ligadas à educação, sobretudo às comunidades historicamente menos ajudadas, como a afro-americana e a hispânica.

90 por cento das instituições que receberam apoios de MacKenzie Scott, revelaram que a sua doação havia sido a maior de sempre nos seus registos. Um sonho tornado realidade para a maioria das ONG.

Mas se viajarmos no tempo ao momento da promessa feita por Scott, pode dizer-se que as suas ações não são propriamente surpreendentes. Ela avisou ao que vinha. “A juntar aos bens que a vida me deu, tenho também uma quantidade desproporcionada de dinheiro para partilhar. A minha abordagem à filantropia continuará a ser ponderada. Consumirá tempo, esforço e cuidado. Mas não vou esperar. Continuarei a fazê-lo até que o cofre esteja vazio.”

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT