Na cidade

Mamadou Ba: “Já fui vítima de racismo num restaurante em Portugal”

O dirigente do SOS Racismo desvenda o lado menos visível da discriminação, sobretudo nos negócios ligados ao lifestyle.

Em Portugal não existe nenhum regime ao estilo Apartheid, nem se queimam cruzes. Ainda assim, a discriminação e o racismo precisam de alguém atento aos casos mais explícitos e, sobretudo, aos casos que não fazem manchetes. Poucos conhecerão essa realidade melhor do que Mamadou Ba, o dirigente da SOS Racismo que é a cara mais visível desta luta — e que o tornou, diz, numa espécie de “espantalho dos racistas”.

Mais de 31 mil pessoas fizeram questão de assinar contra ele uma petição que pedia a expulsão de um cidadão português do seu próprio País. Esta foi a mais recente de várias manifestações que têm o dirigente como alvo.

Para lá dos casos que fazem títulos na imprensa, o dirigente revela que existe toda uma cultura de discriminação que se revela por todas as área da sociedade, mesmo nos restaurantes e hotéis, onde os relatos de queixas de atos racistas são “frequentes” — e tem a sua quota de histórias para contar.

De pequenos gestos e olhares a manifestações racistas despudoradas, Ba já ouviu um pouco de tudo. E o seu caso talvez seja o mais paradigmático: as ameaças e abordagens na rua tornaram-se de tal forma insuportáveis que foi obrigado a repensar toda a sua vida: as leituras nas esplanadas, os passeios com os filhos e até as idas ao cinema.

Anda há vários anos a dizer-nos que Portugal é um país racista — embora frise que isso não significa que todos sejamos racistas. Como dirigente da SOS Racismo, de que forma é que essa discriminação chega, por exemplo, a outras áreas como a do lazer?
Desde logo, não deveria ser necessário justificar, mas tento sempre explicar o que quero dizer com isso de Portugal ser racista. Quando dizemos que Portugal é um país machista, não estamos a dizer que todos os homens são machistas, mas sim que existe uma cultura machista que resulta de um processo cultural que se manifestas nas relações sociais, tal e qual como o racismo. Evidentemente que há pessoas que são absolutamente antirracistas, isso está comprovado. No caso da pergunta, obviamente que existem vários casos e incidentes. Eu próprio já fui várias vezes vítima de racismo subtil ou até de racismo mais desavergonhado no acesso a serviços básicos como, por exemplo, numa ida a um restaurante.

Recorda-se de algum dos episódios?
Lembro-me de um caricato que aconteceu num festival. Fui almoçar com um grupo de colegas da SOS Racismo ao único restaurante que lá havia. Almoçámos, gostámos da comida e decidimos reservar para o jantar. Quando fui fazer a reserva, dizem-me que estavam com lotação esgotada. Eu senti que não era verdade e quando voltei aos meus amigos, disse-lhes que apostava que se algum deles fosse lá, que ele ia aceitar a reserva. Foi um amigo meu de origem egípcia, ele é mais claro, a cor não denunciava nenhuma pertença cultural. E decidimos fazer uma brincadeira: combinámos que ele faria a reserva em meu nome. Ele foi lá e reservaram a mesa.

Disse que sentiu que lhe estavam a mentir, que suspeitou de outra justificação — mesmo sem qualquer ato evidente de racismo ou discriminação. É uma aptidão que, quem está regularmente sujeito a este tipo de tratamentos, acaba por desenvolver?
Nós somos todos humanos e independentemente da cor da pele, a linguagem corporal é uma das melhores formas que existem para comunicar entre humanos, mesmo quando não falam a mesma língua ou são de estratos sociais e económicos diferentes. Isso dá-nos logo pistas sobre como somos percepcionados. E, claro, a própria forma formular as respostas.

É quase impossível provar que alguém me impediu de entrar num sítio por causa da minha cor de pele

E o que aconteceu depois? Foram jantar?
Sim, chegámos lá à noite e esperámos na fila. Quando nos atenderam — era outra pessoa — eu dei o meu nome. Ele verificou e deixou-nos entrar. No final do jantar escrevemos todos no livro de reclamações.

São situações comuns?
Acontece-me muitas vezes. Agora sou mais conhecido, mas há cinco ou seis anos, sim. Acontecia muito na zona ribeirinha, nas discotecas, em que me abordavam imediatamente com um tom muito ríspido: “está cheio”, “está esgotado”, “o que é que o senhor quer?”. E normalmente não o fazem com outras pessoas, com brancos ou com outras pessoas que eles pressupõem que sejam de outras culturas. Com o passar dos anos, basta um gesto, basta um olhar, e nós percebemos. Já me aconteceu também pedir-me para sentar num café na baixa de Lisboa e dizerem-me que estava tudo reservado, mesmo com lugares vagos. E depois chegaram turistas e deixaram-nos sentar.

Que explicações é que encontra para isso?
Tem a ver com percepções sociais, a um imaginário marcado pelo racismo. Vê-se um homem negro e, se ele não está de fato e gravata, parte-se do pressuposto que é um jovem dos bairros, que pode ser problemático e que não tem posses económicas suficientes. Parte-se sempre de um preconceito, de uma ideia que determinada população, pela condição sócio-económica, não é potencial frequentadora de determinados espaços. Isto é um erro.

Mas não se fala muito disso, pois não?
São os [casos de racismo] menos visíveis. As comunidades mais fustigadas com isto do acesso a bens culturais ou de lazer até são as comunidades ciganas, não se fala muito disso. Nós sabemos, porque em tempos lançámos a campanha Não Engolimos Sapos. Sabíamos que muitos estabelecimentos punham sapos nas entradas para afastar a comunidade cigana. Tentámos falar com proprietários, explicar-lhes o quão violento era isso, que não era necessário. Nuns casos tivemos sucesso, noutros nem tanto.

“Já me aconteceu fazer uma reserva pelo telefone e gozarem com o meu nome. ‘Maduba, mama quê? Diga? Desculpe?'”

Com que reações é que se depararam?
Alguns justificavam-se e diziam que as comunidades são problemáticas, que não as queriam lá. Colavam sempre o rótulo, o anátema a uma comunidade inteira. Isso não quer dizer que não haja dificuldades ou problemas de relacionamento, tal como existem entre todas as pessoas, há sempre tensões e conflitos nas comunidades. Acho é que tudo isso é desvalorizado por uma razão simples: não há forma de fazer uma queixa que leve a um resultado final.

Como assim?
Se alguém me proibir de entrar num estabelecimento, tenho três entidades às quais posso apresentar queixa: a ASAE, a Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) e talvez em última instância o Ministério Público. O problema é a prova. Eu não terei quase nunca a possibilidade de provar que aquela pessoa me impediu de entrar por causa da cor da minha pele. Pode sempre dizer que estava tudo cheio ou reservado e será sempre a minha palavra conta a dele. Acho que também é por isso que na maioria das vezes as pessoas não apresentam queixa, não barafustam, não pedem livro de reclamações. Eu peço sempre que sinto que há um destrato, quando suspeito que tem a ver com a minha origem étnica. Mas nunca tive sucesso com as minhas reclamações.

Há sempre uma forma de dissimular o racismo de forma a escapar à lei?
Dou um exemplo, os hotéis. Na maioria das vezes, as reservas são feitas online, não sabem quem as faz. Mas quando chegamos lá sentimos que não somos bem-vindos, só que ali é tudo mais escondido. Por vezes faço as reservas pelo telefone e já me aconteceu começarem a gozar com o meu nome. “Maduba, mama quê? Diga? Desculpe?” Eu percebo mas já estou vacinado. São coisas que acontecem porque são menos visíveis, sobretudo quando não acontecem a figuras públicas.

Recomenda então que quem se sentir discriminado faça sempre queixa?
Os instrumentos legais existem para os usarmos. Em qualquer circunstância que alguém note que o atendimento não foi o mais correto, em função da sua origem étnica, se não chegar a um consenso com o prestador de serviço, tem que escrever no livro de reclamações. Ponto final. Depois compete ao estado analisar, mas esse é o problema. É preciso que façam recomendações e ações de sensibilização junto dos atores económicos. Parece-me essencial que isso se faça para que tenhamos uma cultura antirracista na prestação de serviços de lazer. É fundamental porque é no lazer que as pessoas se conhecem umas às outras, conhecem as suas diferenças culturais, étnicas, filosóficas, onde aprendem realmente a respeitar a diferença, independentemente do que esteja em causa.

“Ninguém gosta de ser visto como uma má pessoa e ser-se racista é uma coisa má, uma coisa indigna”

Tirar os sapos das montras é fácil. Mudar mentalidades nem por isso.
Sim, é verdade. Mas a educação é um dos pilares fundamentais e temos que insistir numa educação antirracista na escola, de valores humanistas de igualdade, de justiça. As crianças vão ser os adultos que serão responsáveis pelas relações sociais e económicas do País, têm que ser formadas a respeitar a diferença e a ter um apego a esses valores.

A SOS Racismo recebe muitos casos desse género?
Um dos últimos que me lembro, que teve maior gravidade, foi no Urban Beach, quando um jovem foi espancado violentamente à porta da discoteca. Foi um dos mais flagrantes e gravosos. Tirando isso são as queixas normais, de pessoas que tentaram entrar num restaurante e foram impedidas de entrar porque estavam cheios ou entraram e foram mal atendidos ou até expulsos. Já tivemos também queixas de pessoas que nos enviavam anúncios de casas de aluguer temporário, tipo AirBnb, onde se dizia expressamente não quererem pessoas negras. Nesses casos remetemos para a CICDR que depois tem que remeter para quem tem poder para o fiscalizar. Não temos como medir e dizer se são muitas ou poucas queixas, mas o que é certo é que é frequente. Está disseminado na nossa cultura de racismo um bocado envergonhado, meio escondido. Há um conceito de que se fala muito, mas eu não gosto, do racismo subtil. Mas há muitas subtilezas que alguns agentes económicos usam para impedir o acesso a serviços.

Mas há diferenças entre um racismo declarado e intrínseco e uma espécie de racismo involuntário, não?
Há diferenças, claro que há. O que justifica tudo isto e o caráter estrutural do racismo, que é quando naturalizamos percepções sobre determinadas pessoas, muitas vezes sem as conhecermos. Há muito disso na restauração e noutros espaços de lazer — o que acaba por justificar algumas ações. Têm percepções erradas e depois atuam em função dela. Nem sempre as pessoas estão sentadas a pensar: “Vou ficar aqui à espera que venha um preto para o impedir de entrar”. É quase sempre uma reação espontânea e tem a ver com essas percepções erradas que existem sobre algumas comunidades. E isso tem a ver com a nossa cultura, a forma como fomos educados.

“Sempre fui mais bem tratado no norte do que no resto do País”

É uma questão de desinformação? Falta de educação?
Muitas narrativas vão sendo criadas e determinam que certas pessoas são assim ou são assado. Costumo dizer isso, que o racismo, além das questões estruturantes, é também uma questão de educação. As pessoas têm que aprender a pensar pela sua própria cabeça e julgar as pessoas pelos seus atos e não através das perceções e ideias pré-concebidas que tenham. Caso contrário, irão praticar muitas vezes atos discriminatórios sem terem noção das consequências que representa para a pessoa visada.

É por isso que muitas vezes há reações violentas quando esse racismo ou discriminação é denunciado? Por não se darem conta de que agiram mal?
Sim. Há aqui uma questão moral também. Ninguém gosta de ser visto como uma má pessoa e ser-se racista é uma coisa má, uma coisa indigna. Há um efeito de espelho que muitas vezes desencadeia essas reações, as pessoas não querem ver o monstro que é ser-se racista. E quando são confrontadas, a primeira reação é essa: “Eu? Eu não sou racista, eu sou uma boa pessoa”. A partir daí há uma crispação interior e muitas vezes a reação é violenta, é uma autodefesa ou fuga para a frente. Aconteceu-me uma vez em Almada, quando chamei à atenção um senhor de um restaurante de que algo era racista. “Racismo, isto? Racismo nada. No meu restaurante eu recebo quem eu quiser”, disse-me. Não. Um restaurante é um espaço público que pode usar quem o puder pagar. Esse tipo de reações são uma fuga para a frente. Ele ficou furioso e não me queria servir. Encontramos sempre várias formas deste tipo de reações, algumas por desconhecimento, ignorância e outras por racismo empedernido e enraizado.

É algo transversal ao País?
Sinceramente, sempre fui mais bem tratado no norte do que no resto do País. Estou a falar, claro, da minha experiência própria, é algo muito pessoal. Independentemente de uma ou outra situação, o trato é diferente do que no centro, sul e área de Lisboa — nesses locais é mais fácil deparar-me com este tipo de situações.

Tem alguma tese pessoal sobre o porquê?
(risos) Não sei, é arriscado fazer determinismos biológicos ou sociológicos, mas acho que pode ter algo a ver com uma maior frontalidade das pessoas. Mas acho que há outro motivo, esse talvez uma explicação mais plausível: é o não haver muito impacto de relações raciais no norte como no resto do País. Tem a ver com a presença mais reduzida das comunidades. Espero que não seja isso, que seja uma coisa genuína.

“Adorava ir ler para uma esplanada. Agora não posso ir para qualquer uma. Tenho que escolher bem os locais, horários e companhias”

Ser uma das caras mais pública no combate ao racismo fez de si um alvo?
Tornei-me no espantalho dos racistas para exorcizarem um bocadinho o seu sentimento. Sou uma espécie de saco de boxe para as pessoas despejarem os seus ódios, a sua raiva. Sou o protótipo do que pode ser o alvo do racismo na nossa sociedade.

Isso obrigou-o a mudar a forma como vive o dia a dia? Consegue ir para uma esplanada ler um livro em paz?
Mudei substancialmente a minha rotina. Sou um devorador de livros e gosto muito de ler ao ar livre. Ir fazê-lo para uma esplanada era um dos meus hóbis preferidos. Agora não posso ir para qualquer uma. Tenho que escolher bem os locais, os horários e as companhias.

Quando é que percebeu que tinha que passar a ter alguns cuidados?
A exposição mediática e as ameaças que têm acontecido aconselham a esta prudência. Eu não quero ser mártir. E não é agradável estar com o meu filho na esplanada e ter que ouvir bocas.

Isso acontece?
Acontece. Por vezes estou sentado e vêm falar comigo, com aquela conversa de que pagam impostos e ando aqui eu a falar… Aquelas coisas das redes sociais. Quando estou com os meus filhos é mais desagradável. Não os quero expor a essas situações. Quando estou sozinho consigo travar argumentos. Para que isso não aconteça, evito determinados espaços. Alterei bastante a minha rotina. A partir dessa condição, claro, continuo a sair à rua como todos nós, a ir a esplanadas. Tento manter uma certa normalidade.

E por falar em normalidade, como é que tem passado o confinamento? A ler?
Muito. Leio muitos livros técnicos, mas tenho tentado perceber a nova geração de escritores portugueses negros. Estou a ler um muito pequenino da Gisela Casimiro, chama-se “Erosão” e é um livro muito íntimo, muito pessoal, que retrata a experiência dela enquanto mulher negra portuguesa. E muito bonito de ler.

Isso deixa-lhe algum tempo para ver filmes ou séries?
Ia muitas vezes ao cinema, mas agora cada vez menos. Também por causa da pandemias mas também por querer reduzir a minha exposição. Ia quase sempre à noite e esses são momentos mais propícios para poder sofrer algum ataque. Tenho reduzido as minhas saídas, exceto se forem coisas públicas, grandes. Em casa vejo mais a RTP2, alguns documentários sobre racismo, colonialismo.

Qual é o restaurante onde lhe abrem sempre a porta e está mortinho por se sentar à mesa?
Tenho um ritual com um amigo meu. Íamos uma vez por mês jantar a um restaurante de Lisboa. Já não vou lá há muito tempo — e já o frequento há quase 20 anos. É o Pitéu da Graça. Estou ansioso por voltar lá. É tudo muito bom.

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