Na cidade

Milhões e um “Squid Game” real: a vida louca do youtuber mais rico do mundo

Jimmy Donaldson tem 23 anos e só no ano passado recebeu mais de 47 milhões de euros. Os seus vídeos são vistos por ainda mais milhões.
MrBeast demorou mais de uma década a conseguir chegar ao topo

Enquanto meio mundo ainda pensava nos horrores fictícios impostos aos concorrentes de “Squid Game”, o norte-americano Jimmy Donaldson desenhava uma estratégia para transformar o sucesso da Netflix em milhões de visualizações para o seu canal de YouTube. Em novembro, colocou mais de 400 concorrentes num cenário igual ao da produção sul-coreana a replicarem os jogos infantis — e a lutarem entre si por um prémio de 402 mil euros.

O “Squid Game” real teve um vencedor, mas o grande prémio foi Donaldson quem o recebeu. O youtuber que se dá a conhecer pelo nome de MrBeast terminou o ano como o mais bem pago de toda a plataforma, revela a “Forbes”.

Aos 23 anos, o criador de conteúdos recebeu mais de 47 milhões de euros. Uma soma que engloba os valores recebidos em publicidade, mas também de venda de produtos com a sua marca, ele que é atualmente o sexto youtuber com mais seguidores — são já mais de 88 milhões. Donaldson conquistou o sonho de tantos e tantos criadores de vídeos e parece ter encontrado uma fórmula para arrecadar visualizações no YouTube. Mas nada disso foi atingido sem sacrifício, sorte, controvérsia e um pouco de loucura.

Donaldson alistou-se na plataforma com apenas 12 anos. Dedicou-se à partilha de vídeos sobre videojogos, quase todos eles sem grande sucesso. Nasceu e cresceu em Greenville, uma pequena cidade com pouco mais de 90 mil habitantes.

Foi da casa de família que foi deixando o rasto do sucesso que ainda hoje guarda no registo da sua conta no YouTube. Nenhum dos mais de 700 vídeos foi apagado, e servem de testamento à obsessiva tentativa e erro de Donaldson decifrar o que funciona (e o que não funciona) na plataforma.

Foram muitas as tentativas, mas em 2016, uma estratégia desesperada pareceu surtir algum efeito. No Twitter, anunciou que se o tweet fosse partilhado cinquenta vezes, faria um vídeo a contar até 10 mil. Para sua surpresa, a penosa tarefa que demorou mais de três horas a completar deu frutos: tem hoje mais de 32 milhões de visualizações.

Um ano depois, Donaldson percebeu que esta leve tortura auto-imposta se traduzia em visualizações e repetiu o modelo com mais ambição: desta vez contaria até 100 mil. Foram precisas 40 longas horas em frente à câmara para completar o desafio, encapsulado num vídeo de mais de 23 horas. Um mês depois, elevava a fasquia para os 200 mil. Foi por essa altura que a estratégia se esgotou a si própria. O terceiro vídeo juntara apenas três milhões de visualizações e estava na altura de mudar.

Em 2016, chegou a inscrever-se na faculdade. Rapidamente desistiu e confrontou os pais com a decisão de se tornar num youtuber profissional. Acabaria por ter que sair de casa a pedido dos pais, mas a estratégia estava montada. “Eu acordava, estudava o YouTube, estudava os vídeos, aprendia a gravar e depois ia para a cama. Essa era a minha vida”, revelou numa entrevista à “Bloomberg” em 2020.

Para atingir o sucesso, havia que perceber o que movia as pessoas a clicarem e a manterem-se coladas ao ecrã. A estratégia parece ser simples: quanto mais louca for a proposta, mais interesse ela irá gerar. A verdade é que são muitos que o tentam fazer, mas poucos ou nenhuns com o sucesso de MrBeast.

Com o dinheiro que ia chegando da publicidade, financiava as produções cada vez mais elaboradas: tentou calcular quantos balões de hélio são necessários para fazer alguém flutuar; e tentou parar uma bala com mais de 100 mil papéis alinhados. Pelo meio, tornou-se numa espécie de “filantropo do YouTube”.

Alguns dos seus vídeos mais populares são desafios e ofertas de dinheiro que faz a amigos e estranhos, como quando deu uma gorjeta de 10 mil euros a um estafeta.

Nunca se esqueceu da estratégia que o ajudou a tornar-se famoso: os auto-desafios que o levavam ao limite. Talvez por isso tenha aceitado o desafio de ler todas as palavras do dicionário em vídeo; tenha tentado passar 24 horas submerso na sua piscina — um desafio interrompido por motivos de saúde —, ou tenha aceite ser enterrado vivo num caixão durante 50 horas, naquele que foi, para Donaldson, o “mais difícil de todos”.

No final de 2017, Donaldson já tinha chegado à meta do milhão de subscritores. “A beleza do YouTube é que o dobro do esforço não significa que tenhas o dobro das visualizações, mas sim dez vezes mais”, revelou. “O primeiro milhão de subscritores pode demorar anos a acumular, mas o segundo chega rapidamente numa questão de meses.”

As ofertas de dinheiro tornaram-se num dos seus conteúdos mais vistos e, tal como todos os outros, tornaram-se mais elaborados ao longo do tempo. Naturalmente, as bem intencionadas gorjetas começaram a ganhar contornos mais maquiavélicos. Para receberem o prémio, os convidados teriam que se sujeitar, também eles, a árduas provas, para gáudio de Donaldson e dos subscritores.

Num dos vídeos, coloca um milhão nas mãos de alguém, mas dá-lhes apenas um minuto para os gastar. Noutro, oferece perto de 100 mil euros para que se despeçam do seu emprego. Noutro, quatro concorrentes disputam um milhão guardado numa caixa, que será entregue ao último a retirar a mão de cima dela. O vencedor só foi encontrado ao fim de mais de um dia de espera agonizante.

As ofertas valeram-lhe o título de “filantropo do YouTube”, ele que hoje gere a sua marca como uma autêntica empresa. Entre os funcionários estão quatro amigos de infância, que aparecem regularmente nos seus vídeos. Recentemente, MrBeast encabeçou uma campanha de angariação de fundos para plantar 20 milhões de árvores — uma iniciativa que juntou mais de seis centenas de influencers e recebeu doações de grandes nomes como Elon Musk e Jack Dorsey.

No final de 2020, o seu negócio expandiu-se para os restaurantes. Depois de abrir um espaço que pagava aos clientes para lá comerem, deu início a uma cadeia que lançou espaços em dezenas de cidades — e mais de 300 cozinhas fantasma que funcionam apenas em formato de entrega em casa.

Nenhum sucesso chega sem a sua dose de controvérsia. Ao longo dos últimos anos, Donaldson foi acusado de homofobia, sobretudo depois de revelados alguns tweets antigos que entretanto foram apagados.

Foi também acusado de usar notas falsificadas nos seus vídeos, o que levou a que muitos duvidassem da veracidade dos vídeos. Donaldson rejeitou a ideia e garantiu que o uso de notas falsas era uma mera questão de segurança e que todos os vencedores recebiam o devido valor em cheque.

Em 2021, o “The New York Times” relatava problemas no coração da mini-empresa de Donaldson, com queixas de antigos funcionários sobre bullying e favoritismo. E o youtuber foi também criticado por vários fãs, que terão perdido dinheiro num esquema fraudulento de criptomoedas que o próprio promoveu.

A criação de um “Squid Game” real que juntou mais de 200 milhões de visualizações foi apenas o mais recente motivo para os críticos se alinharem contra Donaldson, que parece estar imparável: nenhum dos seus vídeos mais recentes baixou a fasquia das 40 milhões de visualizações, um registo que o poderá facilmente levar à repetição do título de youtuber mais bem pago em 2022.

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