Na cidade

No domingo não se esqueça de mudar para a hora de inverno

Depois do debate e adiamentos, a decisão sobre o fim destas mudanças pode chegar em 2021. Até lá, tem de atrasar o relógio outra vez.
É para atrasar.

É um ritual que cumprimos todos os anos, duas vezes a cada 365 dias na verdade, e mesmo assim ainda nos conseguimos, por vezes, esquecer. Por isso, nada como o presente para marcar já na agenda, no calendário ou no telemóvel, que na madrugada do próximo domingo, 25 de outubro, vai ter de atrasar todos os relógios uma hora. Embora a maioria dos telefones, computadores e outros dispositivos o façam, não se esqueça de ajustar tudo o que é operado manualmente.

Portugal entra assim na hora legal de inverno — e desta vez ninguém celebra a hora extra de sono, já que 2020 está a ser tão complicado que nas redes sociais há quem apele ao fim da mudança (para que o ano não ganhe mais tempo). Brincadeiras à parte, agora tal como nos últimos tempos, a pergunta continua a ser: até quando a hora mudará?

Nos últimos anos, esta tradição tem sido alvo de estudo e do debate mais aceso sobre o tema de que há memória. As decisões foram sendo adiadas mas tudo indica que por enquanto, e até pelo menos 2021, a hora ainda vai mudar. Na primavera para o horário de verão de certeza; no outono, para o horário de inverno é ainda incerto.

“No último domingo de março de 2021 mantém-se a alteração de mais uma hora. A mudança pode ou não ser efetuada no último domingo de outubro de 2021” explica Suzana Ferreira, astrónoma no Observatório Astronómico de Lisboa, à NiT. A partir desse momento “fica-se sempre no fuso 0 ou no fuso +1 em Portugal e na Madeira. Nos Açores, deverá ficar-se no fuso 0 ou no fuso -1”.  

Isto consoante as decisões tomadas até lá: ainda não há certezas, porque Portugal não decidiu — e a Europa também não, mas já lá chegaremos. “De acordo com essa decisão poderá ter de se subtrair uma hora, ou não”, no próximo outono, adianta a astrónoma.

Para já, na madrugada de 25 de Outubro de 2020 (domingo), a hora muda mesmo e em Portugal continental e na Região Autónoma da Madeira, às duas horas da manhã atrasamos o relógio 60 minutos, passando para a uma hora da manhã. Na Região Autónoma dos Açores a mudança será feita à uma hora da madrugada de domingo, dia 25 de outubro, passando para a meia-noite do mesmo dia.

Quanto ao fim anunciado disto tudo, a história começou em 2018, quando o Presidente da Comissão Europeia revelou o seu plano de abolir a mudança dos relógios depois de um inquérito online ter mostrado que os europeus são a favor de permanecer na “hora de verão”.

Em 2019, o parlamento europeu votou a favor dessa medida, do fim das mudanças duas vezes por ano; e definiu que o novo regime entraria em vigor em 2021. Portugal tinha, como outros estados membros, até a data limite de 1 de abril de 2020 para decidir se queria permanecer no fuso 0 (UTC) ou no fuso +1 (UTC+1), mas a data limite já passou. No início deste ano, a obrigatoriedade de decisão foi adiada até 2021 para permitir que todos os governos tivessem tempo para decidir em qual fuso horário queriam ficar. 

Só que, na verdade, nada disto é ainda certo. Segundo o Observatório de Lisboa, “a informação disponível é que se bem que o parlamento europeu tenha aprovado a proposta da comissão europeia e definido uma data limite para as decisões de cada país, o conselho europeu ainda não chegou a consenso sobre o tema”. É necessário o acordo dos dois organismos para a medida avançar. Assim, aguarda-se a resolução do conselho europeu.

De acordo com o jornal espanhol “TheLocalEs“, as nações europeias devem comunicar se escolhem o horário de verão ou de inverno, o mais tardar, até março de 2021. Se optarem pela primeira opção, a última alteração do horário pode ocorrer em março de 2021; enquanto o relógio será alterado para o a última vez em outubro de 2021 nas nações que decidem ficar com o inverno. Tudo de acordo com o referido pelo Observatório de Lisboa.

No entanto, para ficar ainda mais confuso, a “National Geographic” diz que poderá não ser bem assim. A revista falou com Johan Danielsson, um deputado sueco e o principal negociador do Parlamento Europeu nesta questão. Ele explicou que, até que os Estados membros finalizem sua posição, é difícil prever quando o fuso horário permanente poderá começar. 

“Ainda que o parlamento tenha uma posição para interromper a mudança sazonal de horário até ao outono de 2021, precisamos ter uma decisão final pelo menos 18 meses antes”.

“Como principal negociador do parlamento [europeu], continuo a pressionar para continuar o trabalho sobre esta proposta e para que o Conselho chegue a um acordo”, disse à publicação. “A questão da mudança sazonal de horário é um grande tópico na Alemanha, e eles assumiram a presidência do Conselho a 1 de julho, então espero que eles continuem o trabalho nesta proposta”, frisa.

Mesmo com a decisão tomada, pode levar algum tempo até que a mudança comece. “Ainda que o parlamento tenha uma posição para interromper a mudança sazonal de horário até ao outono de 2021, precisamos ter uma decisão final pelo menos 18 meses antes que a mudança de horário pare, a fim de evitar o caos e interrupções desnecessárias no mercado interno” diz o deputado. Ou seja, na prática, a acontecer, o fim da mudança de hora só deverá ficar efetivo em 2022 ou 2023

Por que o fazemos?

A ideia na mudança de relógio é maximizar a luz solar nas horas de atividade humana, já que os dias começam a crescer na primavera e depois diminuem no outono. Mas os benefícios dessa alteração são controversos e têm sido alvo de muitas teorias.

Num mega inquérito realizado pela União Europeia em 2018, 84 por cento de cerca de 4,6 milhões de participantes manifestaram-se a favor do fim das mudanças do relógio. Isto foi o que levou o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, a pedir que o sistema fosse descartado.

Passando a escolha para cada pais, é uma incógnita o que vai acontecer. A maioria ainda não se posicionou formalmente mas, no final de 2018 o primeiro-ministro português, António Costa, manifestou a intenção de Portugal simplesmente manter a mudança, duas vezes por ano — a Grécia e o Reino Unido também queriam tudo como está.

Costa citou na altura o Observatório Astronómico de Lisboa, que tem recomendado que em Portugal devemos manter este regime bi-horário, com uma hora de verão e uma de inverno.

Esta organização defende que o fim desta rotatividade não faz grande sentido, pelo menos para Portugal, por dois motivos. Por um lado, por considerar que o inquérito feito por Bruxelas não é representativo. E também por Portugal já ter testado por diversas vezes acabar com a mudança de hora — em variados anos, no início do século, experimentou manter a de inverno e, segundo os documentos do OAL, entre 1967 e 1975 experimentou manter a de verão. Acabou por voltar sempre às mudanças.

Do lado de quem defende que se pare de mexer nos relógios, os argumentos apresentados são de que vários estudos mostram que a alteração pode ter efeitos na saúde ou no sistema imunológico. Argumentos mais recentes, sobretudo a favor do horário de verão permanente, são a de que mais luz ao fim do dia, durante todo o ano se a hora de inverno não chegar, incentiva o ato de estar ao ar livre e até o comércio; e que há avaliações que mostram que as crianças são mais ativas na hora de verão e que a sua saúde melhoraria sem a mudança para a de inverno.

Como tudo começou

Esta rotina, que tem feito parte de vários países um pouco por todo o mundo, começou há mais de 100 anos. Segundo um estudo conduzido pela Assembleia da União Europeia em outubro de 2017, a ideia inicial partiu de um construtor britânico chamado William Willett, que em 1907 escreveu um panfleto chamado “O Desperdício da Luz do Dia”.

A prática em si só foi adotada pela Alemanha em 1916, e outros países europeus, bem como os Estados Unidos, seguiram o exemplo para poupar energia tendo em conta a crise energética que atravessavam durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Atualmente, existem três fusos horários na UE: Hora da Europa Ocidental, que inclui o Reino Unido, Portugal e Irlanda; Hora da Europa Central, que inclui Espanha, Alemanha e Itália; e Hora da Europa Oriental, que inclui Grécia, Finlândia e Roménia.

Países como a Rússia, a Turquia e a Islândia já aboliram a prática. Em Portugal, a mudança da hora foi adotada pela primeira vez a 30 de abril de 1916, em plena Primeira Guerra Mundial, com objetivo de minimizar o uso de iluminação artificial, e assim contribuir para economizar combustível para o esforço de guerra.

Enquanto na Europa se debate e analisa a situação, no Brasil, Jair Bolsonaro chegou e mudou. O presidente brasileiro assinou, em abril de 2019, um decreto lei que acabou com este ritual. O horário de verão, adotado em 1931, ficou assim eliminado. O argumento é de que a mudança da hora, criada para poupar energia, já não faz sentido hoje em dia, mas a medida tem sido contestada em algumas regiões.

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