Casas, igrejas e escolas construídas num terreno enorme, com a relva a crescer por todo o lado e as ruas vazias. Podíamos estar a falar do bairro fictício da série de terror “From”, que se transforma numa região fantasma quando o sol se põe, mas este cenário desolador existe aqui mesmo em Portugal.
No Ribatejo, existe um bairro inteiro que continua a ter todas as construções quase intocáveis, mas nenhum habitante. Hélder Santos, um criador de conteúdos de 23 anos, visitou o espaço neste mês de janeiro e contou à NiT tudo o que encontrou lá.
“Descobri o bairro através de pesquisas sobre património abandonado no Ribatejo, cruzando relatos locais, mapas antigos e referências ocasionais em fóruns e arquivos”, começa por contar à NiT. “São lugares pouco falados, mas que despertam muita curiosidade pela sua dimensão e pelo silêncio que os envolve hoje.”
Juntamente com um amigo, o jovem explorou o bairro esquecido, que hoje é marcado pelo silêncio. O espaço foi desenhado nos anos 50, pelo arquiteto Francisco dos Santos, com um único objetivo: abrigar os funcionários do antigo Centro Emissor Ultramarino de Onda Curta da Emissora Nacional (hoje conhecida como RTP).
O centro, que era responsável por transmitir as emissões internacionais, ficava numa zona muito isolada e por esta razão, precisava de técnicos disponíveis o dia inteiro. Foi isso que impulsionou a criação do bairro totalmente autossuficiente.
Foram ali construídas 22 residências, uma escola, uma cantina, uma igreja e um parque infantil. Embora não tenha conseguido entrar nas propriedades, visto que o bairro está todo cercado por redes, conseguiu perceber a dimensão total do espaço através das imagens captadas por um drone.
“O ambiente é marcado por um silêncio muito forte e por uma sensação de tempo suspenso”, revela Hélder. “A natureza começou a retomar o espaço. As casas estão degradadas, as ruas vazias e a vegetação está a crescer.”
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Os trabalhadores mudaram-se para as residências em 1954. A verdade é que ninguém sabe, ao certo, quando o bairro foi totalmente abandonado. Vários relatos indicam que tudo foi deixado para trás no 25 de abril de 1975. No entanto, os dados dos Censos de 2001 indicam que nesta altura ainda viviam por ali cerca de 20 pessoas.
“Há uma mistura de tranquilidade e melancolia, mas também um enorme peso histórico”, partilha o jovem, acrescentando que também sentiu uma “energia pesada” no local.
Hélder também aproveitou que estava na região para conhecer as aldeias RARET. Neste caso, conseguiu mesmo entrar no espaço que se tornou viral depois de ter sido retratado em “Glória”, a primeira série original portuguesa para a Netflix, lançada em 2021 na plataforma.
Ambos os projetos nasceram no mesmo ano. Porém, com o passar do tempo, alguns fatores como a desertificação do interior, a falta de investimento, a migração para os centros urbanos e a mudança do modelo económico levaram ao seu abandono progressivo.
“O que hoje vemos são as marcas de um projeto que deixou de ter resposta às necessidades da população.”
Hoje, estas regiões estão ligadas, sobretudo, a trabalhadores rurais e a dinâmicas agrícolas da região. Quando lá esteve, Hélder viu vários animais de quinta, especialmente ovelhas, a andarem pela vegetação.
Carregue na galeria para ver algumas fotografais do bairro e das aldeias RARET.

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