Na cidade

O empregado de café mais engraçado do País virou uma estrela no Instagram

Chama-se Carlos e é o criador da página "Café de Bairro", que tem mais de 100 mil seguidores. Revela-nos tudo, menos a identidade.
Não se esqueça: diga sempre bom dia.

Durante a pandemia, as saídas para “tomar um café” ficaram em suspenso. Fechámo-nos em casa, de olhos no telemóvel. E foi assim que, lentamente, Carlos, o empregado de café anónimo, foi captando a atenção de cada vez mais seguidores.

Dois anos depois, são mais de cem mil os que acompanham as suas publicações. Era um relato honesto — e com graça — da vida de um comum empregado de café, condenado a satisfazer os caprichos mais bizarros dos clientes.

Preferiu sempre manter o anonimato que, até ver, se mantém — à exceção de alguns seguidores mais astutos que acabaram por descobrir a identidade de Carlos e até a localização do café que, tanto quanto sabemos, fica em Lisboa.

Aos poucos, o reportório foi se diversificando. Para lá dos desabafos sobre clientes — e a patroa com quem tem “uma relação de amor-ódio” —, começou também a ir fazendo observações curiosas sobre a sua vida, cada vez mais exposta. Sabemos que Carlos, o empregado de café, é casado com Carla e tem duas filhas, Carminho e Maria. Mais do que isso, não desvenda.

À NiT, o fenómeno do Instagram nacional explicou como é que decidiu mudar de carreira e de onde rouba toda a inspiração para os posts que atraem milhares de portugueses. Só não nos diz onde trabalha. Por via das dúvidas, da próxima vez que se sentar num café de Lisboa, diga “bom dia” e peça “um café por favor”. O Carlos agradece a simpatia.

O Carlos faz mesmo vida a tirar cafés ou quer enganar-nos a todos?
Acho que não há nenhum dia que passe que ninguém me faça essa pergunta. Acho que por muita imaginação que uma pessoa possa ter, era impossível ser tanta ao ponto de inventar as situações que conto diariamente. Trabalho no café desde 2014. São muitos anos a lidar com pedidos estranhos, pessoas com gostos muito duvidosos e com situações em que eu por vezes penso: ‘Não, não pode ser verdade. Já me descobriram e estão a fazer de propósito para ver como reajo.”

E quando é que, entre cafés, descobriu o Instagram?
Criei a página em 2020, durante a pandemia.

Porque descobriu que, afinal, era um tipo com piada?
Não sei se tenho jeito par o humor. O que conto, são coisas que acontecem mesmo. Eu sempre fui um bocado palhaço. Aqui na página só acabo por juntar o útil ao agradável.

O que é que fazia antes de se pôr atrás de um balcão?
Sempre tive uma atividade paralela à de empregado de café. Formei-me noutra área. O café só surgiu depois e sempre como atividade paralela até ao início deste ano. Financeiramente, era impossível aguentar só com a outra atividade. O café surgiu com a necessidade de ter um ordenado fixo e porque as duas profissões eram compatíveis.

Alguma vez tinha tirado cafés e servido a um balcão?
O meu avô teve um café. Lembro-me de ter oito ou nove e ajudar a levantar as mesas. Foi essa a experiência que disse ter quando vim à entrevista de emprego aqui no café. Só não contei quantos anos é que tinha.

Foi uma estreia atribulada?
Sou um gajo desenrascado.

 
 
 
 
 
View this post on Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A post shared by Carlos (@cafedebairro)

Ora, pedidos estranhos dos clientes. Se trabalha no café desde 2014, porque é que só em 2020 é que decidiu expô-los em toda a sua glória no Instagram?
Há pedidos que ficam na nossa memória para sempre. A partir do momento em que criei a página, passei a estar mais atento às coisas estranhas. Tudo o que se passa ali acontece mesmo. Não sei como é que há pessoas que duvidam que trabalho num café. Por muita imaginação que se possa ter, é difícil ter tanta.

Como é que decora tudo? É a memória prodigiosa de empregado de mesa?
Tenho sempre o bloco de notas no telefone, que é um auxiliar perfeito. Anoto tudo e mais alguma coisa, Lembro-me de alguém ter pedido uma colher para comer um pastel de nata e lembrei-me de fazer uma publicação sobre músicas para o pastel de nata ouvir quando sente que vai ser comido com uma colher. São esse tipo de títulos que registo nas notas para não me esquecer e depois publicar. E se houver uma situação meeeeeeesmo constrangedora, nem preciso de anotar, isso não me vai sair da cabeça.

Diz que “beber café e mandar foder, dá saúde e faz crescer”. Já aplicou as duas máximas deste mantra ou nunca foi necessário?
Beber café, todos os dias. Mandar foder, só quem me mói o juízo também — infelizmente só o posso fazer mentalmente. Há situações mesmo limite.

Tipo?
No outro dia, chego ao café às oito. Depois de meter os bolos no forno, vou montar a esplanada e só abro a porta perto das 8h30. Aparece-me uma tipa que me estava a ver a montar a esplanada e diz: ‘Já tem café?’. Nem bom dia, nem nada. Eu respondo que ter, até tenho, mas provavelmente ainda não está muito bom (pouco quente) porque a máquina só liga a determinada hora. Ela responde que quer à mesma. Quando acaba de beber o café, diz: ‘Ai, este café não está bom. Não presta para nada.” O que é que se responde a isto?

No Instagram também identifica a sua mulher, que também prefere não se dar a conhecer. A anonimidade corre na família?
Sim, até alguém nos denunciar. Acho que uma das coisas mais engraçadas da página é o facto de ninguém saber quem somos e, mesmo assim, conseguirmos criar relações e empatia com as pessoas. E por isso é que já tivemos oportunidade de conhecer algumas pessoas através da página que se tornaram amigos.

A Carla, a sua esposa anónima, estreou-se no Instagram a dizer que “o amor aconteceu quando o Carlos pediu mostarda”. Que história é esta?
Isso acontece no primeiro dia em que nos conhecemos. Tínhamos amigos em comum e houve um dia em que se marcou um jantar tardio para petiscar. A malta foi pedido, nós tínhamos pedido umas bifanas e quando já estou com meia bifana na mão, vem um cão e lambe-me aquela merda toda. Quando estava a pedir outra, a Carla vira-se para mim e diz: ‘Não troques isso, dá cá que eu como.’ E comeu. Ela nem gostava de comer mostarda, mas comeu-a à mesma. Era sinal que já estava fisgada.

Entretanto, já têm duas filhas e passou a ser um negócio familiar.
Acho que inicialmente, o conceito da página era mais aquilo que se passava em cafés de bairro de todo o País, aqui bem representado. Mas com o passar do tempo, as pessoas começaram a mostrar interesse em saber quem é que estava por trás disto. Aos poucos, fui começando a falar que havia uma Carla, que havia uma Carminho e entretanto uma Maria. Conto vários episódios que se passam connosco, quando vamos a qualquer lado, quando vamos de férias.

Agora são um casal anónimo que também vende T-Shirts com frases.
Essa ideia das camisolas surgiu num grupo mítico no WhatsApp que criei na brincadeira e onde estão 47 pessoas neste momento. Estava lá uma seguidora nossa que se tornou amiga e já conhecemos pessoalmente, que se ofereceu para colocar em têxteis algumas das coisas publicadas na página.

Até têm um grupo privado de fãs? Afinal, quantas pessoas sabem realmente onde podem ir tomar um café tirado pelo Carlos?
Eu não digo a ninguém onde fica o café, mas desde a criação da página, houve três pessoas que descobriram. Uma descobriu mesmo quem eu era. Outra descobriu o café e ainda outra descobriu as duas coisas. Qualquer descuido é fatal.

Ainda não foi surpreendido por nenhum fã ao balcão?
Foi preciso muita audácia e perspicácia para terem conseguido descobrir. Para já, ainda não tive nenhuma surpresa desse género.

 
 
 
 
 
View this post on Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

A post shared by Carlos (@cafedebairro)

E como é que comprou o silêncio dos restantes que desvendaram a identidade? Com cafés e tostas mistas à borla?
Rezo para que continuem exatamente assim, em silêncio.

E o patrão, não desconfia de nada?
É patroa. Esteve um ano sem desconfiar de nada, mas a 11 de setembro de 2021, recebo uma chamada dela antes de ela ir de férias. ‘Meu cabrão, Café de Bairro, diz-te alguma coisa?”

Ui.
Ainda é um tema delicado. No dia em que ela descobriu, estava prestes a ir de férias e pensei: ‘Caraças, tenho de apagar tudo o que estiver publicado sobre ela.’ Mas não consegui e ela viu alguns dos desabafos.

E não foi despedido.
Nos conhecemo-nos há muitos anos, temos uma relação de amor-ódio, porque além de ser minha patroa e de eu ser o empregado, temos uma relação de amizade que fomos construindo ao longo dos anos. Isto apesar de, como eu lhe digo muitas vezes, ela ser a gaja mais chata do mundo, também é super acessível e super trabalhadora.

E o futuro? No dia em que no anonimato acabar, a página perde a piada?
Não sou de planear grandes coisas. O que vier já é bom. Acredito que o anonimato tem sido fundamental para o crescimento e para o interesse das pessoas, mas também acredito que se um dia isso chegar ao fim, outras coisas virão. Até lá, continuamos firmes.

Deixar de trabalhar no café é um cenário real?
Trabalhar no café foi uma opção de recurso enquanto tinha outra atividade paralela, que agora já não existe. Não me vejo, num futuro próximo, a regressar. Trabalhar no café permite-me ter tempo de qualidade em família, aproveitar o tempo com as minhas filhas. Saio às quatro e não trabalho ao fim de semana. Descobri um gosto especial pela parte do marketing e da comunicação, pelo o futuro também pode passar por aí.

ÚLTIMOS ARTIGOS DA NiT

AGENDA NiT