Na cidade

O estranho desaparecimento da influencer que provocou uma caça à prova na Internet

O caso de Gabby Petito é tema de assunto de dezenas de podcasts sobre crime — e já se anteveem documentários sobre o incidente.
Petito e Laundrie durante a viagem

Um vídeo partilhado a 19 de agosto no YouTube anunciava “um resumo das nossas aventuras”. Era a primeira publicação de Gabby Petito e Brian Laundrie, o casal que decidira documentar a sua viagem pelos mais belos parques naturais dos Estados Unidos.

Dez dias depois, os pais da jovem de 22 anos recebiam aquela que seria a sua última mensagem antes de ser oficialmente dada como desaparecida. Brian Laundrie, o namorado, regressou a casa, apenas para também ele desaparecer poucos dias depois.

O caso misterioso ganhou fama à escala mundial e deu origem a uma verdadeira investigação em tempo real — e onde todos parecem querer descobrir provas. Nas redes sociais, as tags associadas ao caso dispararam para a casa dos milhões. No final da passada sexta-feira, 17 de setembro, eram 77 milhões no TikTok; no Reddit, uma página dedicada ao caso juntava mais de 30 mil membros.

A discussão sobre os contornos do desaparecimento inundou os podcasts de crime e milhares de investigadores amadores vasculharam a Internet à procura de provas. Muitas delas acabaram por ser entregues à polícia, que se viu inundada de novas pistas.

A investigação em tempo real cativou milhões de pessoas que tornaram a investigação numa espécie de espetáculo. Os contornos bizarros são muito semelhantes aos dos documentários que têm feito sucesso nas plataformas de streaming — e há já quem fale na inevitabilidade da história de Gabby Petito ter o mesmo fim.

Petito e Laundrie embarcaram na aventura no início de julho, depois de já terem cruzado o país de carro. “Decidimos que queríamos simplificar as nossas vidas e viajar a tempo inteiro”, escreveu o casal no YouTube. Largaram o velho carro e adaptaram uma carrinha comercial Ford para os acompanhar na viagem. “Espero que nos acompanhem na nossa jornada, seja onde for que ela nos leve.”

A partida aconteceu a 2 de julho, em Nova Iorque, e foi sendo documentada no TikTok do casal e no Instagram pessoal de Gabrielle Petito. Tudo parecia correr normalmente, até que a 12 de agosto, a polícia se viu obrigada a intervir perante “um casal que parecia estar a discutir”.

O incidente não levantou grandes suspeitas, mas seria visto semanas mais tarde como uma prova inequívoca de que havia algo de errado entre Gabby e Brian. As gravações feitas pelas câmaras do equipamento dos agentes haveria de ser divulgada na íntegra.

Nelas é possível ver Gabby em lágrimas. “Desculpem”, diz. “Temos estado a discutir toda a manhã, são assuntos pessoais”. Na gravação que tem perto de uma hora de duração, tanto o casal como uma testemunha oferecem uma história semelhante, que levou a que os agentes não tomassem medidas mais duras.

“Ninguém falou em agressões do homem à mulher e ambos confessaram que estavam apaixonados, que estavam noivos, que se iam casas e que queriam desesperadamente que tudo acabasse sem quaisquer acusações de crime”, revelou o relatório da polícia. “Não se registaram quaisquer ferimentos sérios e ambos concordaram que Gabby sofria de ansiedade.”

Apesar de tudo, Petito e Laundrie terão confessado que os longos meses de viagens terão criado “uma tensão emocional” entre ambos, o que justificaria as mais recentes discussões. Foram separados pela polícia nessa noite. Ela ficou com a carrinha, ele passou a noite num hotel. Sem queixas formalizadas, a viagem prosseguiu.

Uma semana depois, o longo vídeo de oito minutos era partilhado no YouTube e mostrava o casal em diversos pontos do país. Era o produto com o qual pretendiam aumentar o número de seguidores nas redes sociais. Por detrás das câmaras, continuavam a manter a família a par da sua rota. Terá sido a 24 de agosto que Gabby Petito terá feito a última videochamada para a mãe. Foi também a 26 de agosto que Petito revelou a sua última foto no Instagram.

Foi durante a visita ao Parque Nacional Grand Teton, no estado do Wyoming, que Petito enviou as últimas mensagens escritas à família. A 30 de agosto, a mãe da jovem recebia um aviso no telemóvel. “Não há rede no Yosemite [o Parque Nacional a mais de 12 horas de viagem do local onde estariam]”, lia-se na mensagem que semanas depois, os pais afirmariam não ter sido enviada pela filha, mas por Brian Laundrie.

Foi a partir deste dia que os acontecimentos se precipitaram. Dois dias depois, a 1 de setembro, Brian Laundrie chegava a casa dos seus pais, na localidade de North Port, na Florida — uma viagem que, partindo do suposto local onde se encontravam, o Parque de Grand Teton, demoraria nunca menos de 30 horas a completar. Caso estivessem em Yosemite, a viagem demoraria nunca menos de 40 horas ininterruptas.

Dez dias depois da última mensagem e sem conseguirem saber mais informações sobre o paradeiro da filha, a família Petito apresentou o caso às autoridades, que declararam Gabby como desaparecida. O primeiro recurso seria, claro, a casa de Laundrie, o único que poderia dar informações valiosas sobre como e onde encontrar a namorada.

“O que recebemos, essencialmente, foi a informação do advogado da família”, revelou um porta-voz da polícia de North Port sobre a visita à casa de Laundrie. “Foi a única conversa que tivemos com eles.”

Laundrie não era visto como suspeito, mas apenas como pessoa relevante para a investigação. Com a polícia de mãos atadas, a família de Petito fez um pedido público à família de Laundrie. “Por favor, se a vossa família tem ainda alguma réstia de decência, por favor, digam-nos onde está a Gabby. Digam-nos se estamos a procurar no sítio certo. Tudo o que queremos é que ela volte para casa. Por favor, ajudem-nos a fazer com que isso aconteça.”

Nada disso aconteceu. Aconselhado pelo seu advogado a não falar, Brian Laundrie manteve-se em silêncio enquanto o FBI e outras autoridades alargavam as buscas por Gabby no Parque de Grand Teton.

A 17 de setembro, sexta-feira, nova reviravolta. A família de Laundrie convocou a polícia para os informar de que Brian estava também ele desaparecido desde 14 de setembro, depois de ter dito que ia fazer uma caminhada. As buscas focavam-se agora nos dois elementos do casal, com a polícia a frisar de que não se tratava de uma investigação criminal, mas de simples desaparecimento.

Mesmo com centenas de agentes, cães e drones a ajudarem nas buscas, ninguém conseguiu encontrar Laundrie. “Ele pode ficar escondido no pântano durante meses”, revelou um porta-voz da polícia.

Entretanto, as buscas por Gabby no outro lado do país deram frutos. Foi no domingo, 19 de setembro, que a polícia e o FBI emitiram um comunicado que revelava ter sido encontrado um cadáver que, ao que tudo indicava, seria o de Gabby Petito.

Apesar de estarem já a realizar buscas no parque, foi um vídeo divulgado por outros dois bloggers de viagens que poderá ter ajudado as autoridades a encontrarem o local exato. Num vídeo partilhado no sábado, 18 de setembro, no canal de Red White & Bethune, o casal explica que se recordou da filmagem depois de ver o caso nas notícias. Também eles viajaram pelo Parque Grand Teton no final de agosto.

“Estávamos a editar o nosso vídeo quando vimos imagens desse dia. Passámos por uma carrinha com matrícula da Florida. Reparámos porque nós também somos de lá e queríamos parar e dizer olá”, escreveram. “Quando passamos pela carrinha, as luzes estavam todas desligadas, não parecia estar lá ninguém. Acabamos por seguir porque não encontrámos sítio para parar.”

O corpo terá sido encontrado num local a pouca distância do sítio onde os dois bloggers se cruzaram com a carrinha, dois dias depois do último contacto feito por Gabby à família. Apesar de tudo apontar para a morte de Petito, a polícia afirma que ainda serão necessárias mais análises para que se possa confirmar que se trata do corpo da jovem.

Entretanto, as buscas por Laundrie foram interrompidas, com a polícia a focar-se na casa de família, onde realizou buscas nesta segunda-feira, 20 de agosto. Na Internet, a procura desenfreada por pistas não abranda e entre muitas teorias, surgiu um novo detalhe bizarro, detetado por um dos muitos olhos que analisaram o vídeo de Red White & Bethune que já havia ajudado a encontrar o corpo.

O detalhe que inicialmente passou despercebido aos autores do vídeo, foi detetado por um ex-fuzileiro e videógrafo, que detetou movimento na carrinha. O antigo militar aumentou a imagem onde agora é possível perceber que existe movimento na porta traseira da carrinha, momentos antes da chegada do carro dos bloggers às imediações da viatura de Petito e Laundrie.

“É possível ver claramente a porta traseira da carrinha a fechar-se abruptamente”, explica Brent Shavnore. O vídeo, cuja veracidade foi confirmada por diversos órgãos de comunicação social.

Entretanto, enquanto não há mais desenvolvimentos, a investigação desenrola-se também nas redes sociais, onde surgem centenas de teorias. Pelo caminho, centenas de investigadores amadores começaram já a divulgar as tatuagens de Brian, numa tentativa de ajudar nas suas buscas, caso o suspeito tente ocultar a sua identidade. O frenesim, explicam os especialistas, pode não só inundar a polícia com pistas inúteis, mas ser altamente prejudicial para a família e todos os envolvidos.

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