Na cidade

O homem que nos ensina a “rir até não poder mais” — e que trocou o mundo por Lisboa

A experiência online de Thomas é das mais populares no Airbnb, tendo até ajudado profissionais de saúde de todo o mundo.
Thomas Cock (imagens de Denis Erroyaux).

Quando pesquisa no Google “Dia Mundial do Riso”, vão-lhe aparecer algumas datas. Consoante a entidade que o sugeriu ou determinou, são já vários os “dias mundiais do riso”, mas para os movimentos de ioga e de terapia do riso a posição mais consensual é que se assinala a 2 de maio: ou seja, no próximo domingo. 

As datas são passageiras e rir é, ou devia ser, algo de todos os dias. “Rir é o melhor remédio”, diz o ditado antigo, entretanto já comprovado por dezenas de estudos que mostram os benefícios terapêuticos de algo tão simples como uma valente gargalhada. Um libertador de stress, de emoções, uma descontração imediata de músculos: uma verdadeira maravilha natural.

Tudo isto, juntamente com o ano incrivelmente difícil que o mundo tem vivido, explica o sucesso de uma simples experiência alocada na Airbnb: e que por acaso é feita de uma casa a partir de Lisboa, apesar de ter impacto mundial.

A Airbnb começou por lançar as suas experiências online em abril de 2020, quando a pandemia estava no início, em resposta aos pedidos dos anfitriões para alojar uma maneira de se poderem conectar virtualmente com os hóspedes. E, claro, de terem algum rendimento durante o confinamento.

Assim foi, e como os anfitriões na Airbnb adaptaram as suas experiências pessoais a uma versão virtual, encontraram novas maneiras de partilhar as suas paixões com os hóspedes; de oferecer aos viajantes a oportunidade de explorar com novos lugares, culturas e práticas mesmo a partir de casa.

Algumas destas experiências online têm mesmo ajudado pessoas de todo o mundo a lidar com a crise pandémica e é esse o óbvio caso de uma em específico: a Ria até não poder mais, organizada por Thomas Cock, a partir de Lisboa. É uma das experiências online com base em Portugal mais populares na plataforma Airbnb.

Desde que foi lançada, recebeu vários profissionais de saúde a trabalhar com pacientes com Covid-19, principalmente dos EUA e do Reino Unido. A experiência usa uma técnica moderna adaptada à vida diária, baseada em terapia do riso, e tem ajudado pessoas de todo o mundo a desanuviar durante esta crise — com dois colaboradores britânicos de uma organização sem fins lucrativos a terem participado já mais de dez vezes.

Com o World Laughter Day então à porta, a NiT falou com o homem por trás desta experiência, e descobriu a incrível história de vida que o trouxe do Congo, onde nasceu, pelo mundo até a um apartamento em Lisboa, a ajudar, pela positividade e pelo riso, desconhecidos através de um computador. A experiência começa nos 15€ por pessoa.

Quem é o Thomas Cock e como tudo chegou a este ponto, a esta experiência?
Tenho 37 anos e nasci no Congo. O meu pai trabalhava lá como cirurgião oftalmologista e a minha mãe era comissária de bordo. A minha mãe e eu saímos com três anos de idade e fui criado na Bélgica. Vivi dias inocentes até que começámos as aulas de inglês na escola e descobrimos o significado do meu sobrenome… Mudei imediatamente para o espanhol. Acho que simplesmente mantive o ritmo de mudar e explorar novos caminhos depois disso. Quando eu tinha 26 anos, mudei-me para Montreal [Canadá] atrás de um emprego de redator que foi dado a outra pessoa no mesmo dia em que cheguei. Sem emprego, pensei que poderia começar a escrever um blogue e passado uns tempos alguém sugeriu que passasse o que estava a escrever para um palco. Não tinha experiência e fiz a minha primeira apresentação para 300 pessoas. Fiquei com medo, mas correu bem. Até fui aplaudido de pé, naquela noite.

E ficou o bichinho do humor? E dos palcos?
Sim, continuei a fazer humor, stand-up e comecei a construir um “espetáculo de um homem só”. Mas entretanto, tive a oportunidade de me apresentar com a tropa do Cuscuz no Just For Laugh, depois apresentei uma manchete (45 minutos) chamada “Premier jet” em Montreal num pequeno café chamado Parc des Princes. Mais tarde, mudei-me para Paris [França] para estudar teatro. Ganhei uma bolsa artística e usei-a para o Cours Florent, as famosas aulas de teatro francês. Depois disso, decidi voltar para Bruxelas. Comecei a namorar com a minha melhor amiga Caroline e ela sugeriu que eu criasse o meu espetáculo a solo. Ela ajudou -me a construí-lo e promovê-lo. Eu nunca teria feito isto sem ela. Ela tinha tanta energia! Comecei então com um espetáculo sobre o apocalipse anunciado pelos Maias para 2012. “Le début de la fin”, seguido de outro chamado “Les déboires de Mr. Cock”.

É um anti-stress.

Destes mundos que tem explorado, qual a sua maior paixão?
Escrever é definitivamente a minha maior paixão. Sempre escrevi observações sobre o riso. Mas foram o ioga, a meditação, retiros e o ioga do riso que finalmente me trouxeram uma certa consciência e possibilidade de partilhar isso com outras pessoas.

Voltando à sua história: e depois dos espetáculos, o que aconteceu?
Fiz comédia durante anos, mas ainda queria viajar mais. Eventualmente, mudei-me para São Francisco [EUA], onde trabalhei para ONG. E quando me mudei de São Francisco para Lisboa há quatro anos, comecei a organizar digressões, a escrever piadas e a criar jantares de comédia. O riso tem sido uma jornada espiritual para mim, com a revelação mais recente sendo a ioga do riso. Desde que descobri a ioga do riso, continuo a praticar para trazer alegria à minha vida. Tenho paixão por partilhar as suas virtudes, porque acredito que rir profunda e plenamente pode mesmo promover saúde e felicidade.

Como e quando chegou então a Lisboa? Em que contexto, em que ano, e porque ficou?
Ok, tente ficar comigo nisto: então, em setembro de 2016, conheci uma rapariga na Bélgica, a Oriane, que morava em São Francisco. Um mês depois, estava lá. Mas depois de mais ou menos um ano, o meu visto estava a terminar. Queria manter a ponte [nota: a ponte de São Francisco é semelhante à de Lisboa] por isso decidimos mudar-nos para Lisboa. Agora a sério, ela já falava português e os meus pais moravam no Brasil, então achei que seria ótimo aprender português. Já tinha visitado Lisboa várias vezes e adorado a cidade. Oriane é uma artista e decidimos abrir uma galeria juntos. Quando nos separámos, tive a oportunidade de começar uma tour gastronómica em Lisboa com a Food Lover Tour já sedeada em Espanha. Depois disso, mergulhei seriamente na comida portuguesa. Sorte a minha!

Depois de todos os locais onde viveu no mundo, quais as características que mais o cativaram em Lisboa e Portugal e nos portugueses? E os aspetos que gosta menos ou que teve mais dificuldade em se adaptar?
Já estava fascinado pela beleza incomparável de Lisboa. Principalmente a qualidade da luz! Não há como não voltar depois de desfrutar disso. É impossível. Eu venho de Bruxelas, onde chove o tempo todo. Mas acho que o que realmente me ligou com a cidade foi a organização desses passeios de comida. Estudar a grande História, o terramoto, o tsunami, o incêndio, mas também as pequenas histórias e anedotas. Como a do Diogo Alves, o assassino do aqueduto. Oh meu Deus. Depois fui aprendendo, enquanto precisava de me aprofundar nas informações para os passeios gastronómicos, percebendo que havia tanta história relacionada com os pratos, os peixinhos da horta, a alheira… Foi realmente uma agradável viagem gastronómica pela história, mas também à volta do mundo. Cada vez que um amigo me visita, reconstituo o passeio para ele. Sou grande fã dos portugueses e de Portugal.

Como entrou na sua vida a terapia do riso?
Há dois anos, a minha ex-namorada, Caroline, faleceu. Foi muito repentino e brutal. Ela era a minha melhor amiga. Não tive cumplicidade com ninguém como ela. Ela era uma mulher inteligente, bonita e bem-humorada. Depois de vários meses a chorar, descobri um artigo médico sobre o riso. Explicava que respiramos com os músculos intercostais (um terço da nossa respiração) e o diafragma (dois terços da nossa respiração). Mas o diafragma fica bloqueado por toda a ansiedade, stress e tristeza. E, claro, afeta a nossa respiração e a maneira como oxigenamos o nosso corpo e cérebro e, portanto, a nossa mente e humor. O diafragma também é o músculo do riso. É por isso que choramos quando rimos. Nós libertamos essas tensões. E achei que seria melhor libertar a tristeza dessa forma. Comecei a interessar-me pelo ioga do riso e aos poucos fui transformando a minha dor graças ao riso. Rapidamente se tornou uma catarse. Ela tinha uma risada linda e inimitável. Achei que seria lindo veicular o riso dela e partilhar com os outros as técnicas que estava a descobrir. Misturei a terapia da felicidade com alguma comédia, que já fazia, e então este cocktail de alegria estava pronto: Fall in Laugh era uma maneira de cair no riso dela novamente. 

O que é exatamente e como funciona, nas suas palavras e na sua experiência, esta terapia do riso?
Utilizo uma técnica moderna que se adapta ao nosso dia a dia. Tudo começa com Pranayama, a respiração usada para relaxar e criar uma sinergia dentro do grupo. Depois praticamos alguma respiração consciente. Em seguida, passamos a praticar exercícios que provocam gargalhadas fáceis. Durante essa transição, partilho teorias e ajudo os meus participantes a localizar o riso nos seus corpos. Esta ativação faz-nos rir cada vez mais. As pessoas não precisam de se preocupar quando se sentem tímidas – está provado que o corpo não sabe a diferença entre uma gargalhada forçada e uma verdadeira. Em menos de 10 segundos, uma gargalhada forçada torna-se real. E à medida que o nosso riso aumenta, a nossa alegria também aumenta. O riso aumenta o fluxo sanguíneo em 50 por cento e liberta substâncias químicas que ativam a serotonina e a dopamina no cérebro. O grupo termina a meditar e a reservar um momento para partilhar o que sentimos juntos.

Como e quando começou a experiência online? 
Comecei a fazer a terapia com alguns encontros em parques e clubes de ioga. Muitas pessoas queriam saber mais sobre esta prática e sobre o que eu estava realmente a fazer. Principalmente pessoas que já praticavam ioga. Alguns gerentes de eventos também se interessaram. Também despedidas de solteiro, viajantes que se queriam encontrar. Uma vez até fiz uma aula para um grupo da igreja. Do nada, surgiu a Covid-19. A minha amiga e gerente do Airbnb, Federica Petruccio, sugeriu que mudássemos para o mundo online. Eu adaptei as sessões e ela incluiu a experiência online Fall in Laugh (a Rir até não poder mais) no lançamento da Airbnb Online Experience.

Como tem sido recebida?
Foi uma mudança incrível! Foi como se, de repente, muitas pessoas percebessem como era precioso e importante rir! É uma ferramenta com a qual todos nascemos. Famílias e amigos que se espalharam por todo o mundo queriam reconectar-se através de sorrisos e ondas de risos. Não havia necessidade de perguntar: como estás? Porque o participante vê que todos estão a rir e sente-se melhor. Era o mesmo para indivíduos que podiam sentir-se um pouco solitários com o confinamento: viam outras pessoas além dos seus ecrãs, como eles. Pessoas que viviam nas mesmas situações pelos mesmos motivos em todos os países. Então a rir todos juntos e a libertar uma tensão pessoal, mas também geral, mudava-se a energia. Isso é definitivamente o mais incrível disto. Também acredito que muitas pessoas se sentem mais seguras em casa, num ambiente que conhecem para saltar no desconhecido e em algo tão íntimo como o riso. Como digo sempre, tem muito a ver com confiança.

Que histórias mais emocionantes já viveu dentro desta experiência?
No geral, tento distrair as mentes mais analíticas de si mesmas com exercícios infantis. A ideia além disso é reconectar-se com a sua criança interior e a sua necessidade de brincar. Permitindo-se deixar ir. Tenho visto muitas pessoas a desabrochar, verdadeiramente emocionadas depois de sentir essa imensa felicidade, ou mesmo recuperando o riso que tinham esquecido. Isso é incrível. Uma grande experiência é aquela pessoa que se sentiu desafiada, mas mostra apreço. Por exemplo, quando eu penso que alguém gostou menos da experiência, mas muitas vezes a mesma pessoa me deixa depois uma mensagem agradável. Explicando-me que não se sentia tão bem desde há muito tempo. Uma vez, tive uma cliente que se reconectou com o seu pai, que faleceu. Ela nunca pensou que pudesse rir com ele novamente. Mas fê-lo durante a sessão. Normalmente fazemos uma meditação no final, que é um momento forte de conexão para muitas pessoas. Principalmente depois de passar tanto tempo longe um do outro, sentindo-se desconectados. Estas sessões foram uma janela de tempo e espaço para muitas pessoas, para ver que tudo ainda estava bem, para ver os seus amigos, colegas e familiares sorrindo e a rir todos juntos. Uma família explicou-me que, desde a sessão, ria-se ao final de cada última refeição do dia. Demonstrando assim a sua gratidão por passarem este tempo juntos e por limparem as suas tensões antes de dormirem e receberem mais um dia. Recentemente, uma família contactou-me também para saber se poderia organizar uma sessão para o seu irmão que é cego. Ainda não tinha acontecido, mas posso dizer que foi um sentimento muito caloroso no meu coração.

Os portugueses são um povo alegre ou sisudo, na sua opinião?
Eu acho que é uma mistura. De certa forma os portugueses têm essa alegria natural, falar na rua, improvisar bebidas nos quiosques, ir à praia e do outro lado tem o fado… a saudade. A sua maneira de expressar humor pode ser muito detalhada e minimalista, mas assim que se entende a piada, a alegria e reação podem ser muito grandes e barulhentas. Os portugueses gostam de testar as suas águas, com um sorriso atrevido.

Que projetos tem em mente para os próximos tempos?
Há tantas coisas que quero fazer e alcançar num futuro próximo com a Fall in Laugh. O primeiro já está a acontecer muito em breve. Domingo, 2 de maio, às 18 horas, teremos uma sessão de risos em massa para celebrar o dia internacional do riso, arrecadando dinheiro para uma organização que quer fazer melhor pelos nossos filhos e ajudar a criar futuros exemplos em todo o mundo. Gostaríamos de organizar mais eventos como este para que possamos retribuir com risos e mostrar gratidão a este lindo planeta em que vivemos. Um dos meus maiores sonhos é criar um cemitério florestal. Homenageando as pessoas que perdemos ao plantar árvores indígenas e criar novas florestas. E estou curioso para ver o que mais pode sair deste caminho, de espalhar o riso pelo mundo.

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